As veias abertas da América Latina. Por Fernando Calheiros.

Foto via Twitter de @alidafreites

Por Fernando Calheiros, para Desacato. info.

É a América Latina, a região das veias abertas. Desde o descobrimento até nossos dias, tudo se transformou em capital europeu ou, mais tarde, norte-americano, e como tal tem-se acumulado e se acumula até hoje nos distantes centros de poder. Tudo: a terra, seus frutos e suas profundezas, ricas em minerais, os homens e sua capacidade de trabalho e de consumo, os recursos naturais e os recursos humanos. O modo de produção e a estrutura de classes de cada lugar tem sido sucessivamente determinados, de fora, por sua incorporação à engrenagem universal do capitalismo”.

Assim começa a obra clássica As veias abertas da América Latina, escrita no início dos anos 70 por Eduardo Galeano, década em que grande parte da América Latina era tomada por ditaduras militares de extrema direita. O livro que se tornou uma referência do pensamento anticolonialista e anticapitalista foi traduzido em mais de 12 idiomas, alcançando a marca de mais de um milhão de cópias vendidas.

Na obra, Galeano argumenta que a história do subdesenvolvimento dos países da América Latina integra a história do desenvolvimento do capitalismo mundial. Tal proposição apresenta como eixo central a ideia de invasão e saque das riquezas com a escravização dos povos nativos pelos colonizadores europeus, esses que lograram benefícios econômicos incomensuráveis a partir de um sistema de exploração e dominação, processo que segundo o escritor uruguaio dará origem à estrutura contemporânea de pilhagem.

Quatro décadas depois de seu lançamento, observa-se que as veias abertas da América Latina não só permaneceram pulsantes, como seguiram acumulando, ao longo do período neoliberal, enormes contradições sociais que hoje explodem por meio de grandes protestos de massa nas principais cidades latino-americanas. Trata-se, no entanto, de entender o contexto de surgimento desses protestos enquanto um momento particular da luta de classes. Essa que é impossível de ser compreendida sem levar em conta o processo histórico das formações sociais dos países da América Latina e de modo de inserção ao modo capitalista de produção.

Guardada as especificidades das distintas formações sociais da América Latina, com cada país trazendo distinções e particularidades próprias, o elemento de unidade que se destaca diz respeito a uma identidade em comum na estruturação de sua situação de dependência, a saber, a de total destruição e desintegração social decorrente do processo de invasão e colonização ibérica. Assim, as bases que formarão a atual estrutura das sociedades latino-americanas serão decorrentes do tipo de dominação sob a qual ocorreram as próprias formações sociais, ou seja, a partir das colonizações espanhola e portuguesa.

Séculos depois a América Latina será marcada novamente por um histórico de opressão e violência, desta vez realizada por governos ditatoriais de direita que dominaram os países latino-americanos entre as décadas de 60 e 90, que além dos incontáveis números de assassinatos e torturas promovidos de forma cruel e sanguinária, também trouxeram uma série de prejuízos econômicos e sociais. Apoiados pelo governo dos Estados Unidos, tais regimes serviram como lacaios da ordem imperialista no auxílio à implantação das políticas neoliberais por todo o continente.

Os efeitos sobre as populações serão perversos, atingindo principalmente os setores mais vulneráveis da classe trabalhadora. Trata-se de um processo intenso de espoliação dos direitos sociais, trabalhistas e previdenciários que irá produzir um proletariado extremamente precarizado. Questão central que contribui para pensarmos na base social que hoje dá sustentação as diversas revoltas populares na América Latina.

É importante ressaltar que os fatores que desencadearam a revolta do povo chileno não se explicam pelo aumento do preço das passagens do metrô, pela mesma forma que a insurgência dos trabalhadores equatorianos também não pode ser entendida levando em conta somente o fim do subsídio e aumento no preço dos combustíveis. O mesmo raciocínio se aplica às manifestações populares no Peru, na Argentina, Paraguai, Bolívia, Venezuela, Haiti etc.

Foto: Conaie

Trata-se de revoltas populares decorrentes de um acúmulo histórico de opressão e pilhagem que, somados as consequências deletérias desencadeadas pela implantação das agendas neoliberais por todo o continente, acabaram contribuindo sobremaneira para uma precarização geral das condições de vida. Fator esse que acabou desencadeando uma onde de revoltas sem precedentes do precariado latino-americano.

Considera-se, portanto, a continuidade da subserviência dos países de capitalismo dependente ao receituário imposto pelo FMI e Banco Mundial. Mesmo em crise aguda, as democracias liberais latino-americanas continuam a sustentar o desenvolvimento dos países de economia central, deixando em condições miseráveis uma grande parte de suas populações.

Pulsando de maneira febril, as veias abertas da América Latina ganham projeção mundial, com as massas subalternas assumindo um protagonismo inédito na luta contra as democracias neoliberais e suas várias formas de violência institucional. Cansadas de do canto da sereia e da farsa eleitoral promovida pelas democracias representativas de ordem burguesa, as massas subalternas outrora cativas agora se levantam contra o regime capitalista que as oprime.

Nesse sentido, há de se considerar a relevância e atualidade do pensamento de Eduardo Galeano que, ao concluir sua obra em tons de denúncia e presságio, nos informa sobre as possibilidades de uma revolução: “Nestas terras, o que assistimos não é a infância selvagem do capitalismo, mas a sua cruenta decrepitude. O subdesenvolvimento não é uma etapa do desenvolvimento. É sua consequência. O subdesenvolvimento da América Latina provém do desenvolvimento alheio e continua a eliminá-lo. Impotente pela sua função de servidão internacional, moribundo desde que nasceu, o sistema tem pés de barro. Postula a si próprio como destino e gostaria de confundir-se com a eternidade. Todo memória é subversiva porque é diferente. Todo projeto de futuro também. Obrigam zumbi a comer sem sal: o sal, perigoso, poderia despertá-lo.“O sistema encontra seu paradigma na imutável sociedade das formigas. Por isso se dá mal com a história dos homens: pelo muito que esta muda. E porque, na história dos homens, cada ato de destruição encontra sua resposta – cedo ou tarde – num ato de criação”.

Foto: Susana Hidalgo

Talvez Galeano tenha acertado em sua conclusão. Talvez o ato de destruição anunciado por ele encontre sua resposta num ato de criação que seja capaz de produzir uma solidariedade inédita entre os trabalhadores latino-americanos, superando assim possíveis inclinações para um desfecho de cunho protecionista-nacionalista. Talvez nesse contexto As veias abertas da América Latina possa se constituir como um autêntico manifesto das revoluções sociais da pátria grande do século XXI. Trata-se, no entanto, de perguntas que somente a história produzida pelos povos em luta poderá responder.

Fernando Calheiros é cientista social e professor da rede pública. Atualmente cursa mestrado no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Santa Catarina.

 

 

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