As origens do termo “gaúcho” e nossas heranças indígenas. A história que não te contam

Via Éric Vargas.

Por Éric Vargas.

O primeiro registro de “gaúcho” surgiu em Santa Fé (atual Argentina) em 1617, quando “moços perdidos”, vestidos ao estilo dos charruas, com botas de garrão de potro, chiripá e poncho, e assaltavam as estâncias de gado. Cartas jesuítas de 1686 falam nos “vagos ou vagabundos” pilhando estâncias missioneiras. Em 1820, Saint-Hilaire estabeleceu as diferenças entre o “campeiro”, que trabalhava nas estâncias, e o “gaúcho”, pilhador, ladrão que não entendia o significado de pátria. Notem, todas essas alcunhas vieram de escritores que representavam o poder político e econômico colonialista. Sendo assim podemos, numa perspectiva dos oprimidos, afirmar que o gaúcho histórico negava a condição de domado pelos poderosos e ignorava acordos sociais. A etimologia da palavra vem do idioma dos índios andinos Mapuches, que quer dizer “homem solitário, solteiro”. Ou seja, nada de parecido com a ideia de gaúcho que o MTG nos conta ou que o poder do latifúndio quer que saibamos, pois querem um gaúcho subserviente que odeia outros oprimidos como se ele o fosse parte dos opressores sem ser dono nem da terra debaixo das unhas.

Gaúcho não existiria sem os indígenas locais!

Exatamente, o gaúcho moderno nasce ainda no século XIX como identidade que misturava o gaúcho histórico (sem pátria, sem patrões) com o campeiro subserviente ao fazendeiro dono de estância. Foi dos indígenas que herdamos o chimarrão, da cultura Guarani que tinha na erva mate uma planta sagrada que estes plantavam junto aos jesuítas quando estes foram arregimentados para as Reduções (Missões) jesuíticas. Já o andar a cavalo, chiripá, churrasco de espeto cravado ao chão e a bravura vem dos charruas que habitavam os campos que hoje são a metade sul do RS, o Uruguai e o norte da Argentina. Mas foi exatamente o latifúndio em forma de sesmarias que aniquilou os indígenas. A ocupação do sul pelos portugueses inicia com a criação na Colônia do Sacramento (margem leste do Rio da Prata no atual Uruguai) em 1580. Quando da sua troca pelos Sete Povos Orientais (Sete Povos das Missões) em 1750, com o Tratado de Madrid, os portugueses e espanhóis iniciaram uma Guerra contra os Guaranis que resistiram. Seu cacique Sepé Tiarajú tombou na batalha do Caiboaté (interior do atual munícipio de São Gabriel) no dia 7 de fevereiro de 1756 (no local de sua morte, em 1961 se construiu uma cruz de concreto de 5metros de altura) Mas antes gritou aos invasores: “esta terra tem dono!”

Os charruas foram nunca foram arregimentados pelos jesuítas como os Guaranis ou fizeram acordos com portugueses como os minuanos que habitavam a “boca do inferno” (ligação entre o Oceano Atlântico e a Lagoa dos Patos, atual cidadede Rio Grande). Os charruas conheceram o cavalo via cavalos selvagens introduzidos pelos colonizadores. Lutavam com bravura e nunca se adequavam aos europeus. Nunca foram escravizados. Foram caçados com brutalidade por portugueses e espanhóis. O gen. Rivera oferecia dinheiro a quem entregasse um par de orelhas e o saco escrotal de índio charrua morto. Por fim ele os traiu sob promessa de paz e os aniquilou. Os últimos 3 charruas (um homem, uma mulher e uma criança) foram enviados à França em 1831 para serem atração de um zoológico humano. Dizem que um dia o charrua os viu tentando domar um cavalo extremamente arredio e se aproximou, ele, com calma, alisou o animal e em minutos montou-o sem rédeas. Espantados, os franceses perguntam como ele conseguiu domar o animal. Ao que o charrua responde: “eu não o domei, ele me escolheu para monta-lo!”

Estudos de 2001 da geneticista Maria Cátira Bortolini revelou que ainda temos presença da genética Charrua nos habitantes da região de fronteira. No sangue a resistência charrua que só falta descobrir que hoje está sendo enganado por uma versão de História contada pelo MTG que, para proteger a imagética do latifúndio, esconde a barbárie por detrás da ocupação deste território. Esconde a limpeza étnica dos indígenas pelas mãos do mesmo poder do estancieiro que hoje o quer de cócoras, sem revolta com a exploração para mais facilmente ser dominado.

*Éric Vargas: Professor de História e Filosofia da rede pública estadual do RS.

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