As Mentiras da Infância

 

Por Luciane Recieri, para Desacato.info.

Quando tinha 5 anos, o maior desafio da vida era subir no tamborete da pastelaria e ficar equilibrando enquanto comia mentira. Aos 50 anos os desafios existem e são tão altos, tanto quanto o tamborete da pastelaria, logo, nem convém falar. Se falar, vou denunciar a minha pequenez de gente adulta.
O saber ou saberes, por pequenos  que sejam é uma condenação, uma faca de dois gumes, porque nos garantem a liberdade e… a condenação. Há muita coisa na vida que nunca queria ter visto de perto ou escutado falar e  talvez seria um pouco mais feliz.
Com 7 anos, me escondia atrás da cortina pra chorar porque sentia uma saudade imensa da minha mãe. Ficar das onze até as três na escola era como tortura, limpava o choro na manga do uniforme azul,  assavam os olhos, assavam as bochechas, porque lágrima é coisa que não podia sair de criança, tem sal demais. O nariz escorria e lá ia embora a produtividade.
Lembro só das coisas ruins: a sensação de frio, a sensação de solidão, a meia sendo comida pelo Vulcabrás colegial herdado, logo, não condizente com o tamanho de meu pé, de modo que,  enquanto andava, a meia ia sumindo. Por que não parava no banco da praça e arrumava? Não! Não! Não pediria ajuda nunca e nem era por orgulho, era uma coisa que criança como eu sentia, não entendendo o sentido das coisas, os lados, ficava por isso mesmo.
Não havia o que fazer com saudade, com choro, com rosto assado, com medo, com meia que é engolida, com o não saber da aritmética, com o desemprego do pai, com o não entender adulto. Era tudo praga, era tudo assim mesmo e eu comia pelas bordas a sopa ruim que davam na escola.
Naquele tempo, enquanto as crianças brincavam na rua eu era mais a mais calada, não sabia lidar com a realidade. Hoje penso que a minha mudez era o jeito que inventava de lidar com a minha falta de habilidade. Hoje, aos 50, ainda limpo o choro na manga do uniforme que não me obrigam a usar, uso às vezes por pura preguiça ou falta de criatividade. Não há mais cortinas que me escondam, mas sei a hora de deixar o palco e a realidade é esmagadoramente mais forte, por isso deixo o picadeiro pra vestir roupa comum. Procuro minha menina entre os paralelepípedos iluminados pela lâmpada de mercúrio e ela tem a mesma altura que começou a vida, só me lembro de mim com metro e setenta e que vergonha me dava ser maior que todos!
Levanta menina.
– Não.
E era um NÃO tímido porque não queria ser mais alta. E as sombras logo cedo me punham em Cinemascope.
Esses dias tenho olhado a minha sombra e ela tem sido tão fiel à mim, tão igual que nem parece sombra – o que aconteceu com o Cinemascope? -minha ingenuidade sobreviveu. O que fazer com ingenuidade aos 50? É como equilibrar no tamborete: botam no pratinho esturricado, umas “mentiras” (era o que nos davam) e não sabe se come ou se tenta não cair. E ficamos assim, numa corda bamba imaginária, mas real.

Mentira: pra quem não sabe, (duvido que um paulista não saiba), são aquelas rebarbas de massa que dão de “brinde” nas pastelarias.

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