As flores que encontrei no caminho

Pixabay

Por Luciane Recieri, para Desacato.info.

Era dia dos mortos e eu não saí.
Ocres ficam esses dias de pesos acumulados. Ventava frio.
A árvore da frente da minha janela perdeu toda flor, umas entraram em casa, empurradas por esse vento frio que falei lá em cima.

Não tenho coragem de jogar flor no lixo. Enterro. Assim faço com flor que ganho, aprendi com Drummond que flor não se põe em copo nem se joga no lixo.
Digo: só aprendo inutilidade. Sim. Só inutilidade pública. Umas duas vezes na vida achei flor no banco da praça.
Ora, não fora esquecimento, impossível esquecer flor no vazio. Deve ser malvadeza mesmo.

Sento. Cruzo pés. Apoio o queixo. Olho pro nada. Ninguém com cara de quem perdeu flor. Abraço e levo como se fossem pra mim.
Há casos também de cartas de amor por aí. Pego e leio. Não é crime!

Tem dono não o amor esquecido.
Guardo na esperança. Que esperança? De nada. Só guardo. E vou andando como se.
Pessoas olham pessoas com flores nos braços, cachorros de raça, crianças de colo e também as que recolhem amor desperdiçado. (pessoas me olham)

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