As falácias do Projeto Tamar

Por Luciana Reynaud Ferreira*.

Bióloga trabalhou cinco meses como estagiária no Projeto Tamar. Nesse artigo, ela questiona a idoneidade dos estudos científicos realizados nas regiões costeiras, relata falta de transparência, omissão e ausência de um plano de educação ambiental.

O projeto Tamar/ICMBio atua sobre comunidades costeiras em favor da preservação das tartarugas-marinhas, especialmente nos casos em que a interação homem-tartaruga se dá por meio da pesca e da caça. Está presente em oito estados brasileiros, dentre eles o Ceará, onde trabalhei durante cinco meses como estagiária.

Esse artigo relata a minha experiência no Tamar, que serviu de subsídio para a produção de uma monografia de graduação em Biologia.

A região marinha do Ceará é caracterizada como área de descanso e alimentação das tartarugas. A plataforma marítima rasa permite a instalação dos tradicionais currais-de-pesca: labirintos de madeira, arame e cipó – de origem indígena Tremembé – instalados em baixa profundidade para encurralar a fauna e facilitar sua captura.

No Ceará, a costa em que estão instaladas as bases do Tamar são zonas afastadas de centros urbanos, com poucos recursos, populações em situação de pobreza e carência de estudos aprofundados sobre suas condições de vida.  O Tamar recebe estudantes de diversas regiões do Brasil e do mundo parar estagiar, participando do Programa de Formação e Qualificação de Especialistas.

CONDIÇÕES DE TRABALHO

No que concerne ao trabalho desenvolvido pelo Tamar, gostaria de compartilhar minhas percepções obtidas durante os cinco meses em que participei do programa de estágio na Base Ceará.

Como estagiária da campanha 2010/1, não fui orientada adequadamente  sobre a realidade local antes de minha chegada.

As condições de trabalho dos estagiários eram sofríveis.  Embora a posse de CNH fosse exigência, foram-nos oferecidas somente bicicletas enferrujadas e em péssimo estado para monitorarmos as praias e realizarmos Educação Ambiental com as crianças da comunidade. Devo mencionar que havia três viaturas e três motos estacionadas na base administrativa, mas não tínhamos permissão para utilizar os veículos. A senha da internet wi-fi não podia ser – e não foi – divulgada para os estagiários, sob a justificativa de atrapalhar nosso rendimento cotidiano. Nunca tivemos períodos de descanso durante os meses corridos de trabalho. Trabalhávamos de domingo a domingo, de sol a sol, sem dias destinados ao lazer.

Não havia diálogo aberto entre os coordenadores locais e os estagiários, inclusive a respeito do verdadeiro status quo da comunidade em relação ao extermínio de tartarugas.

O discurso para os turistas e para a mídia era sempre o mesmo: no passado havia matança de tartarugas, mas desde que o Tamar entrou na comunidade, não há mais. A comunidade confirmava a falácia como forma de se proteger, já que a Lei 9.605, de Crimes Ambientais, prevê multa e prisão para os indivíduos flagrados em situação de predação de tartarugas-marinhas.

FALTA DE TRANSPARÊNCIA

O envolvimento do Tamar com aquela pobre comunidade de pescadores era quase nulo. Os trabalhos científicos, realizados com dados coletados pelos estagiários, com ajuda e colaboração dos pescadores, não levavam os nomes dos pescadores, nem dos estagiários. Além disso, as produções científicas tinham idoneidade duvidosa, já que os dados coletados não consideravam as tartarugas predadas e escondidas a despeito da presença do Tamar, sendo as de maior tamanho e peso as mais rentáveis e cobiçadas.

O Tamar era omisso frente a outras questões ambientais igualmente decisivas para o futuro do animal que se propunha preservar. Na praia de Volta do Rio estava instalado um parque eólico e tanques de carcinicultura. Embora a comunidade cobrasse, em reuniões locais, um posicionamento do projeto sobre estes temas, este nunca houve.   A oferta de uma nova fonte de renda, alternativa à tartaruga, era inexistente na comunidade de Volta do Rio.

O assunto da predação da tartaruga era encarado como tabu. Destarte, não havia conversas consistentes e realistas entre os coordenadores locais do projeto e os estagiários. Consequentemente, não havia um canal de diálogo aberto entre o Tamar e a comunidade.

SEM PLANEJAMENTO

O projeto apresentava ainda uma ambiguidade operacional. Qual era sua verdadeira função? Educar ou vigiar/fiscalizar? Foi evidenciada em campo uma percepção, por parte dos pescadores, de que os estagiários estariam ali para delatá-los. Isso nos distanciava deles no que dizia respeito ao cumprimento das nossas funções educacionais.

A falta de amparo fiscalizatório, hoje responsabilidade do Ibama, colocava os estagiários na delicada situação de serem vistos como fiscais pela comunidade, portanto, uma ameaça. Essa percepção gerava um abismo relacional que interferia na qualidade da educação ambiental informal ali realizada. Informal porque não havia um plano de Educação Ambiental especialmente desenhado para os pescadores.

Os coordenadores do projeto não pestanejavam em demonstrar, com palavras e ações, que não acreditavam no potencial da comunidade para aprender. Os estagiários tentavam educar os pescadores durante as conversas oriundas da convivência. Percebi que para educar, ali, seria preciso uma abordagem carismática. O contrário disso era punição, afastamento, desinteresse. Foi perceptível que a mesma instituição, sendo vista como fiscalizadora e educadora, gerava um esquizofrenia ideológica, em que nenhuma das duas funções era efetivamente realizada.

Inseridos nessa realidade, os estagiários não puderam evitar o raciocínio sobre uma reformulação do projeto. De que maneira? Promovendo Educação Ambiental especialmente projetada para os pescadores; elevando a autoestima da comunidade, por exemplo, renunciando à totalidade do crédito e colocando os nomes dos pescadores como colaboradores nos trabalhos científicos; apresentando tais trabalhos para a comunidade em uma linguagem compreensível, fazendo-a sentir-se parte da construção daqueles saberes; trazendo idoneidade para os discursos do projeto por meio do envolvimento com outras questões ambientais locais; desenvolvendo efetivamente novas fontes de renda para a comunidade; oferecendo aos estagiários treinamento para fiscalizar ou educar, nunca os dois juntos, posicionando-se assim adequadamente a respeito de suas funções.

Se a função dos estagiários é educar, então que sejam completamente isentos da atividade delatora.

Os meios de comunicação de massa construíram, com o tempo, uma imagem de prosperidade absoluta quanto às intervenções do Tamar. A visão popular de sucesso alicerça uma atmosfera interna de profundo comodismo e paralisia.

Quando li na Internet reportagens sobre a operação da Operação Fariseu, realizada pela Polícia Federal, pude visualizar o vértice de uma vivência profissional frustrante.  Embora a investigação sobre as fraudes envolva milhões de reais, as sugestões de melhoria aqui propostas requerem mais da bona fide dos agentes do Tamar do que de grandes investimentos.

O cumprimento da palavra expressa é atitude simples e gratuita.

Luciana Reynaud Ferreira é Bióloga graduada pela UFSCar, autora da  monografia  Paralelo entre a Associación de Desarrollo Integral de Ostional (ADIO), Guanacaste, Costa Rica, e o Programa Brasileiro de Conservação de Tartarugas-marinhas (Projeto TAMAR) – Volta do Rio, Ceará, Brasil. Contato: [email protected]

Leia também:

A triste fraude do projeto Tamar

Fraude no projeto Tamar – Parte 2

Projeto Tamar envia carta de esclarescimento

Fonte: http://redesustentavelbrasil.com.br

1 COMENTÁRIO

  1. Acho muitas de suas observações, pertinentes, mas ao mesmo tempo, penso que muitas não são de responsabilidades do Tamar. As comunidades vêem os funcionários do Tamar como fiscais, mas essa atitude é observada em outras situações, por exemplo “o primo do prefeito”, “o filho do delegado”, esse tipo de coisa acontece em cidades pequenas…
    Quanto ao local em que foi trabalhar, era de sua responsabilidade também estudar e pesquisar a cidade. Quanto às bicicletas, há alertas a respeito disso no site da instituição, nos anúncios das vagas de estagiários, se elas estavam enferrujadas, essa é a realidade dos projetos ambientais no nosso país…
    O Tamar não tem função fiscalizatória, e os resultados atingidos ao longo dos anos, só foi possível através relações amistosas com as comunidades… Ainda há muito a se fazer, algumas comunidades estão recebendo bases do Tamar a pouco tempo, precisam ser estudadas antes de adotar qualquer abordagem. Há que se considerar outras instituições ambientais antes de criticar o trabalho do tamar, e para isso é preciso ter experiência profissional também… Há pessoas que se adaptam ao trabalho no Tamar, e às comunidades onde o mesmo se instala. Geralmente são regiões subdesenvolvidas, sem luxo, difícil pra algumas pessoas…
    Bom, não faço parte do Tamar, estou apenas defendendo um dos projetos ambientais que mais deu certo no país, porque é muito difícil trabalhar nesta área no Brasil, cada dia que passa vemos as leis se abrandarem; Pensa-se tanto em “social”, “humano”, e esquecemos de ir ao racional… educação ambiental muitas vezes é escutada por um lado e desrespeitada por outro, é por isso que temos vários cursos de especialização na área, porque o que parece ser fácil, é muito difícil de alcançar resultados…

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