As escaladas ao poder: a velha e nova política

Cena do filme Ensaio Sobre a Cegueira, baseada no livro de José Saramago
Cena do filme Ensaio Sobre a Cegueira, baseada no livro de José Saramago

Por Ramon Felipe de Lima, Blumenau, para Desacato.info.*

Há quem diga que o problema do PT foi o PT ter se tornado o Lula. De certa forma, concordo com essa afirmação. Não ponho minha mão no fogo por Lula, nem por outro político. Nem creio que seja um santo ou um demônio. Mas temos de ter a capacidade de analisar o que foi feito no Brasil, e o que está sendo feito agora nesse momento.

Perceber todo essa situação que vem ocorrendo no país (não querendo dizer se foi golpe ou não foi), mas perceber que algo está muito estranho e esquisito. De fato, há alguma coisa de errado com a mídia, o sistema jurídico e com todos os políticos brasileiros. Mas espera aí, tem tudo a ver com as “novas” medidas econômicas “neoliberais” por meio do Estado (contraditório não é?), mas tem um determinado grupo que não está disposto a levar numa boa, veremos no final quem são eles.

O avanço dos ataques sobre toda a esquerda (seja partidária ou não), pela mídia e uma parcela da população, mostra como vem ressurgindo o espírito anticomunista das décadas de 60 e 70. Uma coisa incabível pro momento, até por que de comunista o PT, PCdoB ou PSOL não têm nada. O que temos hoje é uma militância política, do anti, anti tudo que se propõe de novo, anti aqueles que sempre pensaram e pensam a política brasileira diferente e social. E esse anti, tomado pela parte da população que parece que despertou pra política recentemente, e está cheia de opiniões, e já não consegue perceber a cegueira que está.

Desde 2013, nos protestos que começaram a surgir, passe-livre e outros grupos radicais, a mídia ficou muito atenta. Principalmente em relação aos black blocs, utilizando a velha tática, dividir para conquistar. A solução foi nacionalizar as manifestações, tornar mais brando, verde e amarelo, contra a corrupção, por que afinal de contas, não mais só por 20 centavos, não é? Onde se via uma possível origem para caminho de mãos dadas da esquerda e direita caminharem contra os nefastos escândalos ocorridos no país, foi o primeiro passo para o ressurgimento do fascismo. Esse, que combate ideias e anula debates. O que foi visto foi uma crescente demonização a um único setor da classe política.

A proposta da mídia deu tão certo que até grupos de esquerda começaram a marginalizar a tática black block, exemplo de Guilherme Boulos do MTST.

O anticomunismo foi ideia implementada e disseminada nas ditaduras da América Latina através de órgãos orquestrado pela inteligência estadunidense, como o IPES. Leandro Karnal disse uma vez, o país descobriu recentemente a Guerra Fria, capitalismo versus comunismo, está pelo menos uns 30 anos atrasado.

Sendo assim, vemos uma escalada novamente do espectro de ’64 mas de uma nova forma pra consolidação do fim das esquerdas no país. Como vêm acontecendo desde 2008 na Grécia, na Espanha, na Turquia, onde sindicatos eram incendiados com pessoas dentro. Já aqui no Brasil temos Alexandre frota, que no meio da passeata da avenida paulista, manda “aquele abraço” para os carecas do subúrbio, grupo neonazistas de SP. Bolsonaros, que falam de propostas contra estrupadores e corruptos, mas andam lado a lado com eles.

Como dizia aquele nosso velho amigo Marx: a história se repete primeira vez como tragédia e a segundo como farsa.

O que combina com isso tudo? Um juiz novo, sem escrúpulos que quer fazer seu nome na praça, vender livros e alavancar a direita. Um homem de bem, neutro, com ligações políticas com João Doria e, assim por diante, o PSDB.

O país caminha a passos largos para a barbárie; quem está fazendo coro para com tudo isso? Aquele cidadão de bem, cidadão comum, aquele, revoltado, online ou não. Aquele que já esta cansando, que “foi traído pelo PT”. Aquele que queria limpar o país da corrupção, mas conseguiu tirar uma das poucas pessoas que tinha uma reputação ética. Aqueles que queriam melhor saúde e educação, e agora como todos nós, ganharam medidas de austeridade e cortes nos orçamentos sociais.

Mas todos esses novos interessados em política se pensam modernos atualizados e com suas ideias de solução única. Uma hora é prender Lula, outra é a PEC 241. Ou as teorias importadas da Escola Austríaca de Economia ou os Chicago Boys, o que já foi feito também pelo menos uns 30 anos, por Ronald Reagan, Margareth Thatcher e Augusto Pinochet. Isso, exato, Augusto Pinochet, ditador chileno que tinha relações com economistas que uma hora se diziam liberais, outra hora ponto fora da curva. Diziam, pelo menos na teoria, serem a favor da liberdade, só se for a econômica.

Agora com a insinuação de Fernando Haddad para a presidência nacional do PT, aquele prefeito queridão de São Paulo, que agora ajuda João Doria nas políticas públicas da cidade, mesmo disse “ele é um cara do bem” se referindo a Haddad. Teremos a política perfeita, da pescaria, a esquerda segura: pensam, articulam, e quem pesca e puxa o anzol é a direita.

Para onde estamos indo? Para onde queremos ir? Caminhar dessa forma? Para quê? Por quê? A esquerda PTista, a esquerda, e a esquerda anti-petista estão em rumos que farão difícil a escolha. E se de fato Lula for preso? Quem irá concorrer em 2018? Quem irá representar a dita “esquerda”?

Não imagino nenhum salvador, nem nenhum líder, pois não será o espírito de Rafael Correa que irá baixar aqui e ira convocar uma auditoria da dívida pública. O que seria uma boa solução para nossos problemas, assim como taxar as grandes fortunas?

Mas até lá temos que ter os olhos para a luta de verdade que está acontecendo, das ocupações, dos estudantes que estão cansados de serem tradados como “sem luz”: os malditos alunos brasileiros estão cansados (e os professores também). Ou começamos a autocrítica para reformular nossa maneira de fazer política, ou não sei o que será. Mas essa nova frente da juventude que está vindo está cansada dos ambos os lados, porque se estruturam da mesma forma, com discursos diferentes.

Esses estudantes, que têm a capacidade de se auto-organizar e manter uma escola, de ocupar mais de 1000 pelo Brasil, são os mesmos que são perseguidos, vigiados e violentados pela nossa “defensora” Polícia Militar. O que antes fazia o DOPS, hoje são os policiais militares que fazem por prazer. Antes as pessoas temiam uma ditadura, hoje elas fazem alvoroço ao pedi-la.

Novos tempos, ou mais do mesmo? Novas dinâmicas ou outras complexidades? O tempo responderá. Até lá, a luta. A intervenção na realidade e o posicionamento se fazem necessários aqui e agora, já!

Blumenau, 20 de outubro de 2016

* Estudante de Ciências Sociais 6ª fase – FURB

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