As eleições para a reitoria da UFSC

Por Elaine Tavares.

Lendo os “devaneios” do meu colega Helio Rodak, fiquei tentada a alguns pitacos sobre a eleição. Tenho ouvido de tudo nesse ano triste, no qual a universidade ficou parada por quatro meses, por conta de uma greve dos TAEs, que sequer acabou, ainda que esteja nos estertores. Nesse período sumiram os trabalhadores, os docentes e os alunos e o campus, dia após dia, ficou vazio de vida, como se esse não fosse um lugar de efervescência cultural e intelectual.

É fato que a eleição para o cargo máximo da UFSC não encanta ninguém, mas não é correto dizer que não haja candidatos da “massa”, se considerarmos que a “massa” é a maioria. É claro que há. E o candidato da massa é justamente o da maioria silenciosa, essa que não se agita, que se esconde, que espia e espera. E que vota no projeto que melhor se identifica com seus desejos, sejam eles egoístas ou altruístas.

Também não vejo como certo dizer que não há diferentes projetos de universidade em disputa. Mas é claro que há. E cada candidato que se apresenta hoje tem deixado muito bem claro qual é o seu. Mesmo aquele que não fala, que tartamudeia, que tergiversa, está expressando seu projeto, porque o que é neutro no meio do rio está a favor do rio.

Eu escolhi o Irineu para meu candidato, não escondo de ninguém, até porque acredito que temos de tomar posição sobre a nossa casa. E por conta dessa escolha tenho ouvido pessoas me dizendo que até votariam nele, mas… E aí vêm os argumentos mais esdrúxulos.

1  – O Irineu não é de esquerda  – Posso até concordar que ele não seja de esquerda, assim, essa esquerda clássica que está nas passeatas, nos movimentos, nos palanques. Mas, o Irineu abraçou as pautas da esquerda como o “Não à EBSERH”, as 30 horas, a democratização dos espaços da UFSC, contra as terceirizações, pela recuperação de cargos extintos. E ainda que ele não tenha discursos inflamados, firmou compromisso e, penso eu, vai cumprir. Por outro lado, o movimento de esquerda da UFSC abandonou a luta política dentro do campus. Não há movimento. Sobrevivem alguns indivíduos que, identificados como esquerda, batalham sozinhos ou em outros espaços da luta da cidade. Não há movimento de esquerda na UFSC, as forças segmentadas não se reuniram, não discutiram e não planejaram lançar um candidato.

2 – O Irineu não é fruto da escolha democrática das massas – Muito bem , estamos de acordo, ele não é. Até porque como já disse ali em cima, não há movimento massivo na UFSC. Pequenos grupos, partidos, divididos, brigando por pequenos poderes. Ao longo de todo o mandato de Roselane não procuraram construir uma proposta alternativa. Boa parte deles aliou-se à atual gestão e outros ficam em cima do muro, num purismo que não ajuda. E além do mais, nenhum outra candidatura é fruto de qualquer outro “debate democrático”. Essa é a realidade na UFSC.

.3  – O Irineu não empolga  – E que deveria fazer o candidato? Gritar, gesticular, sapatear, contratar um marqueteiro para esconder seus defeitos e apresentar um boneco palatável aos eleitores? O Irineu é o que é, o que sempre foi. Um trabalhador dedicado, honesto, capaz de incorporar propostas progressistas, disposto a fazer da universidade um lugar bom para trabalhar e viver. Um professor capaz de pensar a realidade, a instituição, a cidade. Quer dar à UFSC o lugar que ela deveria ter em Florianópolis. Um lugar aonde o pensamento aflore e que possa dialogar com os problemas da cidade e do estado.

4  – O Irineu não tem postura de reitor – E o que isso significa? Que ele anda de calça jeans? Que ele circula pela universidade conversando com as pessoas? Que ele é um cara simples, sem arroubos egóicos? Pois bem, o Irineu é isso. Uma pessoa tranquila, de gestos calmos, de vida simples, de falar manso. Em que medida isso é defeito? Precisaria ele ser um arrogante sem coração? Alguém que não olha os trabalhadores nos olhos, que foge pela porta dos fundos? Isso seria uma boa postura para um reitor? Pois a mim encanta que um reitor possa ser sereno, capaz de ouvir o diferente, disposto a dialogar. Essa é a postura que espero de quem vai comandar os rumos da UFSC.

6  – O  debate da campanha é superficial – Ora, pois. A campanha política é o espaço da propaganda. É o momento em que precisamos marcar alguns aspectos do projeto para que o eleitor decida seu voto. O processo de formação política e explicitação de projeto é bem anterior. Ele existe colado na vida e nos atos do candidato. Por isso é importante saber quem é a pessoa que pleiteia o cargo. Como ele viveu sua vida laboral? Que projeto defendeu? Como se comportou diante de determinadas lutas que nos são caras? Eu vi muito bem como se comportaram os candidatos durante a batalha da EBSERH, coisa que para mim é fundamental. E, tirando o Irineu, nunca vi qualquer outro candidato ou candidata participando dos debates e dos atos em defesa do HU público. Irineu não apenas aportou trabalho às comissões de estudo como circulou pelo HU, ajudando na campanha pelo Não.

Eu poderia ficar aqui, rebatendo cada mau argumento, mas creio que basta. Finalizo dizendo que sim, há projetos claros em disputa. Um é de adequação completa ao modo de ser universidade que aí está, modelo do Banco Mundial (que claramente quatro candidatos defendem, por palavras e atos) e outro que procura encontrar veredas para romper com essa proposta, avançando com democráticos e seguros passos. Pode não ser o revolucionário projeto da esquerda brasileira, mas está disposto a dialogar com ele, no que dele ainda resta, apesar de toda a destruição da esperança.

Se os modelos de projeto não empolgam a massa talvez a resposta esteja justamente no triste processo de desmonte da universidade pública (o projeto em curso). A proposta de educação defendida e levada pelos gestores ano após ano deu nisso aí. Uma universidade calada, fechada no coronelismo, sem pensamento crítico, esperando o grande salvador branco.

A triste notícia é que  não existe o “salvador”. Quem nos salva somos nós mesmos, coletivamente, aglutinados  em torno de um projeto que mude essa gosma. Sem isso, seguiremos sendo esse amontoado de pequenos grupos, siglas e lutas particularistas, incapazes de caminhar para o grande meio-dia.

Eu declaro meu voto no Irineu e insisto. O voto no candidato não nos libera da responsabilidade da crítica. Assim, respondo aos que me dizem:

– E se o Irineu ganhar, e for uma merda?

Pois bem, se for uma merda, vamos estar na primeira fila da luta, porque estamos na batalha por uma universidade necessária e não na defesa de uma pessoa. Hoje, é o Irineu que, para mim, encarna essa proposta. Se não for assim, serei a mais feroz combatente. Caminhamos por um projeto coletivo, e assim seguimos.

Fonte: Eteia.

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