As chances de Maduro e da oposição num país em guerra civil sem armas. Por Paulo Moreira Leite

Foto de capa, de esquerda à direita: Nicolás Maduro, Henry Falcón e Javier Bertucci.

A melhor forma de definir a atual situação política na Venezuela consiste numa situação limítrofe. Trata-se de uma guerra civil sem armas, na qual deslizamentos e ameaças de ruptura se encontram a um passo da ruptura e da violência política em maior escala.

Por Joaquim de Carvalho (publicação original em 247).

É neste ambiente que a Venezuela irá enfrentar as urnas deste domingo, que ocorrem num país dividido como nunca. O conflito entre governo e oposição ultrapassou as fronteiras institucionais da política para atingir a economia cotidiana – como se vê pelas operações de guerra que provocam desabastecimento, pelas manipulações diárias em torno do dólar. A própria oposição está dividida, e este é um fator que ajuda o chavismo – mas não só.

Na eleição anterior, em abril de 2013, quando a oposição teve seu melhor desempenho desde a entrada de Hugo Chávez em Miraflores, a vitória de Nicolas Maduro sobre Enrique Capriles foi tão apertada que permitiu um clamor a favor de uma recontagem dos votos, partilhado, inclusive, pelo presidente dos EUA Barack Obama.

Apenas um mês depois, quando o Conselho Nacional Eleitoral encerrou um paciente trabalho de recontagem manual, acompanhado por uma massa de militantes e sindicalistas que correu para o centro de apuração com o vigor de quem assiste a uma final dos campeonatos de beisebol, esporte nacional venezuelano, confirmou-se a vitória de Maduro por 1,5% de votos – uma diferença de 0,02% em comparação com o resultado anterior.

Em 2018, a disputa ocorre em outra paisagem. Cinco anos antes, assessorado por marqueteiros brasileiros, Capriles fez uma campanha astuciosa. Em vez de se apresentar como um adversário implacável do chavismo, vestia a fantasia da moderação.  Num país onde a política brasileira havia se tornado uma referência suprapartidária em função do imenso prestígio do governo Lula, Capriles  denunciava Hugo Chávez como radical e inconsequente. Intitulando-se reformista, chegou a apresentar-se como o “verdadeiro Lula”.

Além de uma fabricação de marketing, a mensagem era promessa de incluir e somar – em vez de atacar e dividir.

Se estava unida em torno de Capriles, em 2013, a divisão de hoje dificulta a disputa pela mercadoria mais preciosa numa situação de crise: o “voto castigo”, este instrumento eleitoral pelo qual, em diversas partes do mundo, uma fatia importante do eleitorado deixa de lado suas convicções e experiências concretas para punir governantes incapazes de oferecer respostas adequadas aos dramas da vida cotidiana. Embora a situação política da Venezuela possa fornecer uma ampla matéria prima para a captação de votos dessa natureza, a divisão dos adversários do governo é particularmente profunda. O setor mais tradicional, mais organizado – e com ligações mais profundas com Washington – não participa das eleições, e aguarda uma nova chance para ações violentas destinadas a abrir caminho para uma virada brusca na situação. Um segundo setor é liderado por Henri Falcon, dissidente do chavismo que assumiu uma perspectiva conservadora a ponto de defender a dolarização da economia. Numa eleição sem segundo turno, Falcon é visto como o mais perigoso para a reeleição de Maduro. Conforme pesquisas divulgadas pelos jornais brasileiros projetam uma vantagem de 30% das intenções de voto contra 20% para Falcon. O fato é que, em Caracas, a credibilidade real desses levantamentos não é levada a sério. Isso porque eles não filtram um dado essencial num país onde o voto não é obrigatório – separar quem vai ficar em casa e quem irá tomar o caminho das urnas.

Tanto é assim que, na véspera da eleição nem o comando da campanha de Falcon assumia a perspectiva certa de uma vitória – muito menos uma vitória folgada por 10 pontos de vantagem. Numa curta entrevista ao 247, na tarde de ontem, quando saía de uma conferência de imprensa no hotel JW Marriott, um dos principais assessores de Falcon, Julio Cesar Pineda, descreveu uma disputa equilibrada, na qual “Falcon pode ganhar por pequena diferença, Maduro também pode vencer por pequena margem”. Outra candidatura, de Rafael Bertucci, tem sua origem nas denominações evangélicas e um discurso de frases prontas para atender a um “povo que está dizendo aos gritos que quer mudanças”, nas palavras de um assessor. Conforme a equipe de Bertucci definiu numa conferência aos jornalistas estrangeiros, o candidato “não vem excluir, vem incluir. Não vem apontar problemas, mas soluções”.

Neste ambiente, a máquina política construída por Hugo Chávez acordou cedo, hoje, para tentar fazer a diferença. Se a abertura das urnas estava marcada para as 6 da manhã, duas horas antes teve início uma mobilização popular em vários pontos do país, para chamar os venezuelanos a tomar o caminho das urnas.

Nas ruas e praças de Monagas, Carabobo e outras localidades, eleitores e militantes do chavismo já faziam festa às 5 da manhã, chegando a promover bailes ao som de músicas folclóricas. Graças a uma estrutura construída ao longo de 19 anos de chavismo, é possível organizar eleitores a caminho das urnas.

Dando um desconto para a previsão de Maduro, que encerrou a campanha falando em dez milhões de votos, ou 50% do eleitorado total, o ministro das Comunas Aristóbulo Istúrtiz disse ao 247 que “teremos 8 milhões de votos, contra 4 milhões para o Falcon e 2 milhões para Bertucci”.

Ministro da Educação sob Hugo Chávez, Aristóbulo fala com orgulho da força de mobilização da qual é um dos dirigentes: “teremos 14 800 unidades de batalha com seus mapas eleitorais, seus líderes, chefes de quadra, chefes de rua, para visitar os eleitores, casa a casa”.

Para Aristóbulo, “o primeiro objetivo do fascismo era não ter eleição. O segundo, é uma alta abstenção. Nós vamos ter eleição com uma grande participação”, diz, numa projeção que traduz o esforço chavista para garantir o votos das camadas mais excluídas, menos mobilizadas, onde costuma receber uma boa margem de votos

Quando lhe perguntam qual o motivo do eleitor para votar no governo, mesmo numa situação reconhecidamente difícil, Aristóbulo tem uma resposta política: “O povo sabe que não vai perder seus direitos, apesar de tudo. Não vamos cortar suas pensões e vamos garantir seus alimentos. A oposição diz que Maduro garante a proteção social para ter votos. Acontece o contrário. O povo vota em Maduro porque ele garante a proteção social”.

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