As “agrodoenças” que a velha mídia tenta esconder

Devastadores para a saúde, desreguladores endócrinos e lectina são quase desconhecidos — mas muito associados ao glifosato. Provocam demências, cardiopatias, doenças autoimunes e diabetes. Agroecologia pode atenuar impactos

Foto: EBC

Por José Eli da Veiga, no Página22.

A conquista de bem-estar, principalmente por alimentação saudável e outros “cuidados com o corpo”, tem incentivado cada vez mais celebridades “saradas” – que conseguiram dar a volta por cima após vencer a obesidade – a compartilharem seus aprendizados e trajetórias. Fato extremamente bem-vindo, mas que, infelizmente, também ilustra o quanto está raso, no Brasil, o debate público sobre a saúde e a longevidade humanas.

Em grande parte, devido à “afasia dos médicos”, conforme coluna no jornal Valor Econômico do último 28 de junho. Parece que os nossos doutores ainda não tiveram tempo para assimilar os resultados das pesquisas que mostram quão calamitosos podem ser muitos dos atuais hábitos alimentares e de cuidados pessoais, tanto higiênicos como estéticos.

Eloquentes amostras apareceram, entre 10 e 12 de setembro, em artigos de opinião na Folha de S.Paulo, sobre o “futuro da comida” e sobre “a velhice”. Neles, duas altas patentes da luta por bem-estar, os socialites Lucilia Diniz e Nizan Guanaes, escancaram o contraste entre otimistas especulações futurológicas (que vão da nanomedicina aos modernos hospitais chineses) e assustadoras omissões sobre os dois principais inimigos contemporâneos da saúde humana: os “desreguladores endócrinos” e as “lectinas”.

Você só pode ter estranhado essas duas expressões, pois elas ainda nem pertencem ao acanhado repertório das mídias nacionais, ao contrário do que vem acontecendo no Hemisfério Norte. O Prêmio Europeu de Jornalismo Investigativo foi dado, no início de 2018, aos autores de uma série de reportagens do jornal Le Monde sobre a estratégia da Monsanto (hoje, Bayer) para forçar o uso do glifosato, o mais famoso espécime de “desregulador endócrino”. O fato levou o Parlamento Europeu a criar uma comissão especial sobre a questão. E, desde o início de 2017, The New York Times já havia incluído em sua notável lista de best-sellers a referência básica sobre o perigo das “lectinas”: o livro O Paradoxo dos Vegetais (Editora Paralela, 2019), do médico Steven R. Gundry.

O que é desregulador endócrino?

Uma infinidade de substâncias compostas principalmente por bromo, cloro e flúor, como os parabenos, bisfenóis, ftalatos, perfluorados, triclosanos e bifenilos policlorados (PCBs) são oficialmente denominados desreguladores endócrinos pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia (SBEM).

Antigamente também chamados de “disruptores”, “interferentes” ou “perturbadores”, são poluentes sintéticos que transtornam o funcionamento das glândulas controladoras do metabolismo, funções reprodutivas, crescimento, sistema nervoso e desenvolvimento cerebral. Órgãos que vão das suprarrenais e pâncreas aos testículos e ovário, passando pelo eixo estratégico tireoide/hipófise.

Além de provocarem doenças como diabetes e obesidade, são eles os causadores das brutais explosões de casos de crianças com déficit de atenção, hiperatividade, baixíssimo QI, autismo e outras deficiências cognitivas.

Mesmo assim, são tóxicos extremamente comuns em alimentos industrializados, cosméticos, produtos de cuidados pessoais (como sabonetes, loções, desodorantes e dentifrícios), plásticos, tecidos sintéticos, colchões, materiais de construção e, obviamente, produtos de limpeza e praguicidas domésticos.

São desreguladores endócrinos algo como 150 mil produtos químicos de amplo consumo, em alguns casos, autênticas minas antipessoais. Todos vendidos pelo comércio varejista, sem qualquer tipo de cuidado e informação, ao contrário do que ocorre com muitos remédios e alguns agroquímicos, pois destes se exige, em princípio, receituário e instruções de uso, além de explícitos alertas sobre os riscos.

O que é lectina?

São proteínas onipresentes em cereais, leguminosas, batata-inglesa e alimentos oriundos de animais empanturrados por rações fartas em grãos. Têm forte propensão a atravessar a parede intestinal, causando fissuras, condição conhecida como “síndrome do intestino permeável”. Uma vez no sangue, elas confundem o sistema imune, dando origem a várias doenças autoimunes, artrites, cardiopatias, diabetes e demências, além de causarem óbito precoce.

Os vários recursos da espécie humana contra tão feroz artilharia, capazes de amenizar os piores efeitos, têm se mostrado insuficientes para lhe garantir a imprescindível tolerância imunológica. Daí, a imperiosa necessidade de dar prioridade a alimentos com baixos teores em lectinas, o que só torna mais evidente a necessidade de se romper com os cânones de produção e consumo promovidos pela dominante agroindustrial dos negócios alimentares. Problema que vai muito além dos bem mais recentes réus: os ultraprocessados.

A rigor, até agora os intestinos humanos não conseguiram se adaptar a uma alimentação excessivamente carregada de açúcar, arroz, batata, carnes, laticínios, milho, soja, trigo e óleos com gorduras trans. Por isso, esses nove grandes vetores do agronegócio global estão turbinando as piores bactérias intestinais, em detrimento das amigáveis, que deveriam, ao contrário, merecer toda a atenção e carinho.

Quem melhor explica o perigo dos desreguladores?

A melhor fonte sobre os desreguladores é a endocrinologista britânica Barbara Demeneix, autora do livro: Toxic Cocktail, publicado, em 2017, pela Oxford University Press. Além de manter o site , foi ela a protagonista de documentário para televisão que pode ser acessado em neste vídeo (é o terceiro da segunda linha).

O filme também contou com depoimentos de vários outros pesquisadores de renome, entre os quais: Brenda Eskenazi (Universidade da Califórnia/Berkeley), Virginia Rauh (Universidade de Columbia), Irva Hertez-Picciotto (Universidade da California/Davis), Tom Zoeller (Universidade de Massachusetts/Amherst) e Arlene Blum (Green Science Policy Institute).

Mas as evidências sobre os perigos dos desreguladores não são tão recentes quanto sugerem as datas do livro e do filme. Já em 2009, as cinquenta páginas do Statement of the Endocrine Society on Endocrine-Disrupting Chemicals haviam salientado o quanto eles podem ser deletérios à inteligência. Em especial, a altíssima probabilidade de sério dano à formação do cérebro do feto, sempre que a gestante tenha tido contato com tais poluentes nos primeiros meses da gravidez. Alerta ratificado por recente meta-análise realizada sob a liderança de Barbara Demeneix, que está no periódico Endocrine Connections (2018, 7, R160-R186). Uma revisão de 433 trabalhos, intitulada Thyroid-disrupting chemicals and brain development: an update.

A principal mensagem disto tudo é que estará comprometido o mais sofisticado produto da evolução – nossos cérebros – caso não haja mudança radical no padrão comum a vários complexos industriais organizados no século passado. Desde o químico até seus dependentes nas cadeias alimentar, cosmética e farmacêutica.

E sobre a lectina? Qual a melhor fonte?

Com certeza, o já citado Steven R. Gundry, uma das mais consagradas autoridades mundiais em cirurgia cardíaca, que, nos últimos vinte anos, preferiu se dedicar integralmente à nutrologia. Reviravolta muito bem explicada e justificada em seu mais novo trabalho, lançado em março: The Longevity Paradox (HarperLuxe, 2019).

As pesquisas de Gundry baseiam-se essencialmente na recentíssima compreensão dos papéis desempenhados pela microbiota intestinal (antigamente chamada de “flora”). O que só ficou possível a partir de 2007, com o estratégico Projeto Microbioma Humano, dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA. Não é por outro motivo que, até há pouco, nem constava dos currículos das escolas médicas e de nutrição a fulcral conexão intestino-cérebro.

Então, o pior nem se chama agrotóxico?

Não é bem assim. Os praguicidas químicos, que constituem a parte mais visível do imenso conjunto formado pelos desreguladores endócrinos, são, seguramente, de alta periculosidade. Não poderiam ser mais mentirosas as alegações dos executivos da divisão agrícola da Bayer – publicadas na seção “Agronegócios” do jornal Valor do último 3 de outubro – em clara tentativa de prolongar a aceitação do monstruoso glifosato. Tal periculosidade foi estabelecida, em 2015, na Monografia 112 da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à OMS.

Exatos dois anos depois, a Justiça americana fez devassa na maior produtora mundial de agrotóxicos (então Monsanto, hoje Bayer), com perquisição de documentos e e-mails. A investigação revelou que seus funcionários estavam bem a par da natureza cancerígena dos produtos com os quais lidavam.

O escândalo foi decisivo para que um júri de São Francisco (Califórnia, EUA) proferisse inusitada sentença favorável a um zelador de escola condenado à morte por câncer linfático. Criou precedente para a longa fila de mais de dezoito mil processos similares, que aguardam julgamento.

Cabe perguntar por que tal jurisprudência surgiu tão pouco tempo depois que o licenciamento do mesmo herbicida foi renovado por cinco anos na União Europeia e por três em alguns de seus países-membros mais sensíveis aos dramas da saúde ambiental. Será que as provas que sensibilizaram os jurados de San Francisco não convenceram a maioria dos representantes dos 28 Estados na Comissão Europeia e dos 577 deputados da Assembleia Nacional da França?

Nada disso. O que pesou nas decisões não foi a nocividade do veneno, aspecto sobre o qual já não restam dúvidas. O argumento que impediu a cassação do licenciamento foi o risco de imediata e brutal queda das colheitas por não haver substitutivo amigável.

Alternativa até existe, como demonstra o empresário Leontino Balbo em vídeo de 18 minutos. Mas a adoção de seu método tem dois pré-requisitos dos quais fazendeiros da agricultura patronal brasileira costumam fugir como o diabo da cruz: conhecimento e trabalho. Detestam estudar e ter de lidar com muitos empregados. Mesmo assim, em outros países, tem sido bastante promissor o avanço dos sistemas agropecuários alternativos, sejam eles “orgânicos”, “biológicos”, “biodinâmicos”, “naturais”, ou da “permacultura”. Conforme os dados da Ifoam Organics International, um contingente superior a 3 milhões de produtores, dos quais mais de um terço na Ásia e quase tanto na África.

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