“Armar a população não é solução”, diz diretor de documentário sobre violência no Rio

Pixabay.

Por Carlos Helí de Almeida.

Três anos atrás, o documentarista Renato Martins iniciava as pesquisas de “Caldo de Cana”, seu primeiro longa-metragem de ficção, sobre um empresário carioca que vê sua vida virar de ponta-cabeça quando o filho se envolve com traficantes de drogas.

A apuração junto a policiais, advogados, juízes e vítimas da guerra ao tráfico mostrou-se tão reveladora que acabou inspirando o documentário “Relatos do Front – Fragmentos de Uma Tragédia Brasileira”, que compete pelo troféu Redentor da categoria no Festival do Rio deste ano. O filme parte do testemunho de pessoas que vivem ou vivenciaram a rotina dos confrontos entre o tráfico e a polícia, ou pensam e estudam o assunto, para construir um imenso painel sobre a segurança pública no Brasil, e que tem o Rio de Janeiro seu mais visível laboratório – em 2016 o estado registrou mais de 6 mil homicídios. “Relatos do Front” chega aos cinemas em plena intervenção militar no estado, decretado no início do ano pelo presidente Michel Temer.

No Rio, as primeiras sessões do filme acontecem pouco mais de uma semana do pleito que elegeu o governador fluminense (Wilson Witzel) e um presidente (Jair Bolsonaro) que defendem políticas de enfrentamento e a flexibilização das regras para o porte de armas. “Armar a população não é solução para nada. Isso não deu certo em nenhum lugar do mundo onde algo parecido foi implantado”, avisa Renato Martins, em entrevista ao UOL.

A guerra ao tráfico no Rio faz parte do noticiário cotidiano. Qual é o objetivo de “Relatos do Front”?

Dar voz a pessoas que alimentam as manchetes de jornal, mas não são citadas ou ouvidas. Nossa ideia era ouvir o maior número de vozes que estão ali na linha de frente dessa batalha, que convivem com os atores dessa realidade e que são vítimas dessa guerra urbana que temos no Rio de Janeiro. É filme coral: há policiais, como Sérgio Barata, que serviu como consultor de “Caldo de Cana”, meu filme de ficção, um cara que ama a corporação, mas também a questiona, mães que perderam filhos nos confrontos, magistrados, juristas, sociólogos e até um garoto do complexo de favelas do Alemão que queria sair do tráfico e conseguiu anos depois. Ele também tinha uma história bacana para contar.O filme é contextualizado com estatísticas recentes, que dão conta do crescimento da violência no estado. Quando vocês começaram a filmar?

Em 2017, com a entrada da Globo News, da Globo Filmes e do Canal Brasil como parceiros. Uma das conquistas do projeto foi ter conhecido o Jadson Marques, cinegrafista que costuma acompanhar operações policiais nas comunidades carentes. Os registros que ele faz nessas situações são incríveis, mas as TVs não as usam como nós usamos no filme.

“Relatos do Front” é ilustrado por manchetes de jornais. Uma delas lembra que, nos últimos 10 anos, os investimentos em segurança pública no estado dobraram de cerca de R$ 5 bilhões para R$ 11 bilhões, mas a violência não diminuiu nesse período… 

É uma questão importante que levantamos no filme: quem está ganhando com essa loucura que vivemos? E a gente descobre, conversando com os diferentes personagens dessa tragédia, que nem a polícia, nem o traficante e muito menos a sociedade estão ganhando com essa situação. Todos são vítimas, há mortes em todos os lados, mas o governo continua aumentando investimentos nessa guerra – porque o número de vítimas é de uma guerra, mesmo. Ninguém aguenta mais isso.

A estreia de seu filme acontece em um momento de grande polarização na cidade e no país, em que metade da população apoia tais políticas, e a outra metade, não. Espera que “Relatos do Front” mexa nesse jogo?

Acho importante pararmos um pouco para discutir o problema da segurança pública no país, sem ódio, nem vinganças. Como sociólogos e historiadores afirmam no filme, ele está ligado ano nosso passado escravocrata, e a políticas públicas equivocadas que levaram às desigualdades sociais que perduram até hoje. Basta lembrar que a polícia militar foi criada com a chegada ao Rio da família real portuguesa, em 1808, porque aqui encontraram uma cidade com grande população negra, que viam como ameaça à ordem. Os profissionais que ouvimos trazem alguma luz para a situação, apontam caminhos. O filme convida a sociedade para o debate.

Recém-eleitos, o presidente e o governador do Rio são partidários da política de confronto, defendem o acesso da população a armas. O que acha disso?

Essas ideias serviram para a campanha deles, para elegê-los, mas, a partir de primeiro de janeiro, quando assumirem, precisam pensar se é isso mesmo que o estado e o país precisam. Nos últimos 30 anos, várias políticas de confronto foram implantadas, e nenhuma delas funcionou. Cerca de 30 crianças são assassinadas por dia no Brasil. É um número que deveria chocar a gente, fazer pensar: é isso que queremos para os próximos 30 anos, aumentar o número de homicídios por arma de fogo?

Os partidários do armamento da população usam os Estados Unidos como exemplo, onde o acesso a armas e munições é mais fácil…

O acesso a armas é um direito constitucional do americano, está lá desde a fundação do país, no século XVIII, numa realidade completamente diferente da nossa, visando a defesa da propriedade, numa época de leis frágeis. Governador e presidente terão que pensar com calma a respeito disso porque, se escolherem esse caminho, precisaram preparar a população para andar armada, ou será uma catástrofe. Daqui a pouco teremos que levar nossos filhos a uma escola de tiro, ao invés de levarmos nossos filhos a museus, cinemas, parques ou outra atividade cultural.

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