Argentina: ‘YPF escolheu Chevron, o sócio mais sujo’

YPF

A petroleira Chevron promete explorar jazidas juntamente com a YPF, em Neuquén/Argentina. No Equador, foi condenada por contaminar 500 mil hectares; porém, não cumpre a ordem judicial. Os atingidos detalham seus pesares: milhões de litros de petróleo derramados, rios e lagos contaminados, câncer e abortos espontâneos, 30.000 atingidos. O governo argentino, YPF, o Povo Mapuche, a Corte Suprema e o risco de repetir a história do racismo ambiental. “A Chevron considera que os povos indígenas latino-americanos valem menos que um cidadão norte-americano”, adverte Pablo Fajardo, advogado da comunidade de atingidos pela ação da empresa.


Pablo Fajardo. Foto: El Espectador, Colombia

A petroleira estadunidense Chevron, flamante sócia da YPF para explorar jazidas em Neuquén, foi condenada no Equador por contaminar 500 mil hectares. Derramou 103 milhões de litros de cru, verteu 63 bilhões de litros de água tóxica nos rios e atingiu 30 mil pessoas. Após um julgamento de vinte anos, foi condenada pela contaminação e obrigada a pagar 19 bilhões de dólares; porém, se nega a cumprir a condenação. Seus ativos foram embargados na Argentina; porém, o governo pediu o levantamento dessa medida e a Corte Suprema de Justiça falhou a favor da petroleira.

Pablo Fajardo Mendoza é o advogado das comunidades atingidas pela Chevron. Tem 40 anos; vive desde os 14 na zona contaminada e detalha a ação da Chevron no Equador: contaminação, violência, desprezo pelas comunidades indígenas e camponesas e lobby contra o governo do Equador. O papel do governo argentino, da YPF e um aviso ao povo argentino: “A Chevron é uma das empresas mais corruptas do mundo. Temos muita pena que a YPF esteja negociando com um delinquente”.

Equador

– Como explicar a passagem da petroleira Chevron pelo Equador?

– A empresa Chevron, antes Texaco, obteve uma concessão por parte do Estado, em 1964. O Estado lhe entregou 1.4 milhões de hectares para que explorasse petróleo na Amazônia equatoriana. Uma área muito grande. A empresa começou a explorar e encontrou petróleo de boa qualidade. Era uma selva exuberante, bela, habitada por oito povos indígenas. Hoje, restam somente seis; dois povos indígenas foram extintos pela ação da Chevron.

– Por que foram extintos? O que fez a Chevron?

– Trabalhou de forma criminosa, sem nenhuma técnica para evitar o impacto ambiental. E desconheceu por completo os direitos dos povos indígenas. Entrou na selva, perfurou, derramou lodo contaminado da perfuração e o petróleo de prova foi jogado diretamente nos rios da Amazônia. Com o próprio petróleo construiu estradas. Em vez de pavimentá-las, cobriu os caminhos com petróleo cru; 1.500 quilômetros de caminho com petróleo.

– Qual foi o impacto ambiental comprovado?

– A Chevron derramou petróleo durante 26 anos. Perfurou 356 poços petrolíferos. Em cada poço, construiu de três a cinco tanques; foi comprovada a existência de 918 tanques abandonados com dejetos tóxicos. Em nenhum tanque colocaram geomembranas para evitar as filtrações. Todos os tanques derramavam os dejetos no subsolo e contaminavam a água subterrânea.

– Qual o papel da “água de produção”?

– Quando os poços são perfurados saem três produtos: petróleo, gás e água de formação, supertóxica, 30 vezes mais salgada do que a água do mar. Essa água de formação deveria ser reinjetada no subsolo para evitar contaminação; porém, a Chevron a jogou direto nos rios da Amazônia mais de 60 bilhões de litros de água contaminada. No julgamento, a Chevron admitiu que isso era verdade.

– Por que fez isso?

– A desculpa deles é que na época, décadas de 70 e 80, era essa. E isso não é verdade. Encontramos informação que, nos Estados Unidos, a Chevron aplicava outra técnica; não jogava os dejetos nos rios dos EUA; não construía tanques sem geomembranas; não construía estradas com petróleo. Inclusive, descobrimos que o Instituto Americano de Petróleo (nos EUA), especificava, no capítulo especial de um livro datado de 1962, as instruções de como tratar a água de formação, como evitar a contaminação da água doce, como proteger a vida e os ecossistemas. Um livro de 1962, antes que a Chevron chegasse ao Equador e começasse a contaminar a Amazônia. Esse livro foi escrito por técnicos da Texaco. Eles davam aulas ao mundo de como cuidar do meio ambiente; porém, jamais as aplicaram no Equador. Sabiam o que tinham que fazer; porém, privilegiaram sua rentabilidade em detrimento da saúde da população.

– Por quê?

– Por duas razões principais. A primeira: economia. Para cada barril de agua de formação que não reinjetavam no subsolo estavam economizando três dólares. Se somamos 10 bilhões de barris, é uma economia gigantesca.

– E o segundo motivo?

– O racismo. Até os dias atuais, a Chevron considera que os povos indígenas do Equador e que o conjunto dos latino-americanos valem menos do que cidadãos norte-americanos. Por exemplo: no julgamento disseram que a Amazônia é uma área da indústria petroleira e que na Amazônia ninguém deve morar. Significa que insiste em desconhecer que antes da chegada da Chevron habitavam povos indígenas. Tiveram e ainda têm atitudes racistas e desprezo para com os povos indígenas.

– Qual a cifra dos atingidos pela Chevron?

– Oito povos indígenas foram atingidos de maneira direta. Dois povos indígenas foram extintos. Na zona também viviam e vivem colonos. Atualmente, umas 200 mil pessoas vivem nessa região. Atingidos diretos, umas 100 mil pessoas. E na zona mais crítica são uns 30 mil povos indígenas e camponeses.

– Poderias detalhar a afetação à saúde?

– Foram feitos vários estudos médicos. Foram confirmados índices de abortos espontâneos três vezes mais altos que no restante do país. O triplo e o quádruplo de casos de câncer e leucemias. Pelo menos 2000 pessoas com câncer morreram nos últimos quinze anos. É claro que em várias regiões do mundo existem pessoas com câncer; porém, na zona em que a Chevron operou multiplicam-se os casos e supera em muito qualquer índice nacional. A situação foi e continua sendo terrível; ninguém me contou; eu vivo aqui desde os 14 anos de idade.

– O Estado reconhece esse aumento de casos?

– Tanto o reconhece que construíram em Lago Agrio, a zona mais atingida, um hospital especial para pacientes com câncer. Reconhecem que é uma situação grave e que tem grande relação com todos os cursos de água superficiais e subterrâneos contaminados. Também se registram muitos problemas de pele e respiratórios.

– Qual a resposta da Chevron a essas enfermidades?

– A Chevron disse em sua defesa que se existem problemas de saúde não se devem aos tóxicos, mas são devidos à falta de asseio dos indígenas, que não lavam as mãos. Isso foi dito durante o julgamento e, claro, é uma ofensa à população.

– Que tipo de desenvolvimento trouxe para a região?

– No Equador há 24 Províncias dividas em 222 cantões. Os quatro cantões onde a Chevron operou estão hoje entre as dez cidades mais pobres do Equador. Ninguém pode explicar como a região de onde se extraiu tanta riqueza tem as piores estatísticas de pobreza. Toda a zona é muito pobre e a contaminação ambiental torna a pobreza ainda mais aguda. Em nossa região, a contaminação da Chevron-Texaco afetou os recursos de milhares de camponeses; por exemplo, milhares de animais morreram. Os indígenas viviam daquilo que retiravam da selva: alimentação, pesca e coleta de frutas. Com os rios cobertos de petróleo, não houve mais peixes e se acabou o principal alimento dos indígenas. Os animais morreram por tomar água contaminada. A economia de subsistência foi totalmente afetada. Para sobreviver, o indígena teve que migrar e trabalhar para a petroleira.

– Como se organizaram?

– O sustentáculo dessa luta e do julgamento é a organização das pessoas pela necessidade de justiça e de viver com dignidade. As pessoas foram humilhadas durante 26 anos por essa empresa. O Estado não teve a capacidade de defender a população, sobretudo porque o Estado era muito afim à empresa. E as pessoas começaram a lutar em busca de justiça.

– Quais as formas organizativas?

– A Unión de Afectados por Chevron-Texaco. Em cada comunidade, umas 80, há assembleias e são eleitos delegados, que participam em outras assembleias e comitês executivos. Estamos quase com 20 anos de história; cumprimos no dia 3 de novembro.

– Houve pressão da Chevron contra os atingidos?

– A Chevron é uma empresa poderosa e hiper-arrogante. Nunca pensou que os povos indígenas de um país pequeno como o Equador seriam capazes de chegar até aqui e obrigá-los a pagar uma condenação pelo crime que cometeu. Demonstramos que quando indígenas e camponeses nos unimos somos capazes de fazer coisas que outros creem impossível.

– Qual foi a ação da empresa nesses vinte anos de julgamento?

– Um gigantesco lobby, com políticos e meios de imprensa para confundir a opinião pública. Contrataram centenas de especialistas, mais de 200 advogados, 1.3 bilhão de dólares para evitar cumprir com a Justiça. Além disso, implementaram uma perseguição tenaz e espionagem dos dirigentes que lutam. Fomos obrigados a solicitar uma medida cautelar na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (Cidh) por proteção, porque nossa vida esteve em perigo.

– Fatos concretos?

-Muitos. Desde ameaças, roubos a pessoas e escritórios. Contratou uma empresa de espionagem, Kroll, para que persiga e amedronte aos dirigentes. Meu irmão, Wilson Fajardo Mendoza, foi assassinado em 2004, torturado e baleado, uma morte selvagem. Não tenho provas para confirmar que foi a Chevron; porém, tampouco direi que não foi; muitos estamos convencidos que pensavam que era eu e, por isso, o mataram.

Fonte: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=76417

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