Ano novo de lutas e de esperanças

Janeiro avança

Por Carmen Susana Tornquist, de Cuiabá, para Desacato.info

Contrariando a programação que previa a sua finalização para  o dia sábado,28, o Congresso Nacional do ANDES- Sindicato Nacional, terminou na madrugada do dia 29 de janeiro,  mantendo a tradição e  esgotando  os debates sobre todos os pontos apreciados pelos delegados ate a obtenção de consenso ou de maioria absoluta.   As polêmicas mais intensas e difíceis relacionaram-se com avaliações diferenciadas acerca do legado dos governos federais dos últimos anos, considerados pela maioria, como governos de conciliação de classes. Corolário deste debate foi a polêmica acerca da denominação do processo de impeachement que levou Michel Temer ao poder, no ano passado.

Todavia, apesar das divergências na analise sobre os governos lulo-petistas, os congressistas obtiveram acordo nos principais pontos que compõe a chamada centralidade da luta para o ano de 2017: lutar contra a retirada dos direitos trabalhistas e sociais, construir a unidade nas lutas dos trabalhadores e trabalhadoras das diversas categorias profissionais, estudantes e movimentos populares e a defesa intransigente da universidade publica, gratuita, laica, autônoma e socialmente referenciada.

A qualidade dos debates presentes no Congresso destoou radicalmente daquilo que, nos últimos anos, muitos autores tem chamado de “pequena política”, a luz da categoria de Gramsci, e que tem permeado vários dos embates e “debates”, em especial, os virtuais, que envolveram o processo de interdição de Dilma Roussef e de “golpe” parlamentar-midiatico que a afastou da presidência.

 Chamou atenção, também, a amplitude das pautas debatidas, e os encaminhamentos delas decorrentes com relação a outros temas, para muito além dos que atingem diretamente a categoria dos professores do ensino superior, expressando o compromisso que o sindicato mantém com a sociedade brasileira, Expressado no seu Estatuto e, particularmente, em um documento chamado Caderno 2 do ANDES, onde são explicitadas as deliberações do sindicato nacional acerca de seu projeto de Universidade inserida no contexto de uma sociedade Capitalista Dependente, e com vistas a sua superação.

 A presença de novas gerações de professores e de professoras, em grande parte contratados em condições mais precarizadas do que os mais antigos (o que contraria o principio da isonomia defendido pelo Andes), e, muitos deles inseridos nas universidades federais criadas pelos últimos governos, segue sendo instigante. A entrada destes se deu a partir de programas como o REUNI (alvo de criticas e resistência contundente do sindicato) e de expansão da universidade nos últimos anos, dentro de uma lógica de interiorização e de multicampia (vistas como positivas pela agremiação).

Além disto, observou-se o crescimento notável da presença das universidades estaduais no próprio sindicato, criado originalmente das federais, de forma que, nos últimos anos, os ANDES passaram a articular, também, as chamadas IEES (Instituições estaduais de ensino superior) e, de forma ainda mais tímida, as IMES (instituições municipais de ensino superior), o que permite que questões graves como a que atinge a UERJ seja considerada prioritária no calendário de lutas, que inclui a realização de dias unificados de luta em sua defesa ainda no verão, que provavelmente acontecerão com uma caravana de todas as regionais ao Rio de Janeiro, em defesa e solidariedade a UERJ. Um dia de luta em defesa da Educação Publica; contra a Lei da Mordaça e Contra a Reforma do Ensino médio, está previsto para meados de março, bem como a perspectiva de construção de uma grande greve geral de toda a classe trabalhadora – da qual o sindicato entende fazer parte – contra as demais contrareformas do governo ilegítimo de Temer atualmente no poder. A reforma da previdência, junto a todas as tentativas de alterar a Constituição federal foi rechaçada por unanimidade, sendo alvo de encaminhamentos concretos acerca de como proceder para serem impedidas ou até mesmo, revogadas, como o caso da PEC da Morte, alvo das Ocupações protagonizadas por estudantes em novembro de 2016 e apoiadas pelo movimento docente.

Ações envolvendo o desmascaramento do discurso oficial que esconde a verdadeira evasão de recursos do fundo público para o mercado financeiro estão previstas, dada a sua centralidade no discurso falacioso da crise do capital, na qual o estado brasileiro toma partido claramente a favor dos bancos. A urgência de uma auditoria cidadã da divida publica se colocou como um ponto de partida, e costura vários projetos e medidas de cortes de direitos sociais e trabalhistas.

Ao final, além da leitura da Carta de Cuiabá, que sintetiza os principais pontos deliberados pelo Encontro e das moções de apoio que incluem o movimento grevista do Sintrasem de Florianópolis e a greve da UERJ, entre muitos outros, foi dada a noticia de que os docentes receberão de volta os valores retirados arbitrariamente pelo Ministério de Trabalho, via “imposto sindical”, após ação judicial impetrada pelo Andes. O desconto de um dia de trabalho de cada trabalhador, sem sua anuência, e encaminhado a sindicatos que muitas vezes,  sequer são conhecidos, contraria um dos princípios basilares  da  livre associação, defendida pelo ANDES e pela CSP- Conlutas, central sindical da qual o ANDES faz parte.   No entanto, um desafiador trabalho de organização  sindical nas universidades e na sociedade, de forma ampla e  profunda,  se impõe   e ocupa a já sobrecarregada agenda de atividades acadêmicas que  professores e professoras universitárias devem, forçosamente, cumprir. Mas, a depender da disposição dos delegados, que retornam as suas bases amadurecidos pelo debate coletivo realizado na capital do Mato Grosso, o ano será intenso e cheio de esperança. Os docentes que escolheram a via política para organizar seu descontentamento  diante de uma realidade marcada pela injustiça  podem parecer loucos e  almejar o impossível. Podem também não atingir totalmente o que postulam como utopia. Mas, certamente, como diz a psicanalista Maria Rita Kehl, não cairão nem no ressentimento, nem na depressão, aflições que tem feito parte de nossa sociabilidade contemporânea.

 Imagem tomada de: www.adufmat.org.br

 

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