Aniversário da Unila: há sete anos integrando latino-americanos na fronteira

Publicado em: 12/01/2017 às 10:43
Foto: Socodela.
Foto: Socodela.

Por Elissandro Santana, Porto Seguro, e Jesús Ibáñez Ojeda, Foz do Iguaçu, para Desacato.info.

A mais importante universidade brasileira voltada para a discussão da integração latino-americana, a Unila, comemora hoje sete anos de existência integrando saberes, povos, culturas e nações.

Esta instituição está de parabéns, pois é um espaço acadêmico no qual se pode pensar o desenvolvimento não somente do Brasil, mas de todo o continente, em rede, por meio de epistemologias de pensar o sul em parceria, em partilha, no próprio sul. Tal fator é de grande relevância, haja vista que muitos dos problemas que existem no Brasil também ocorrem em outras nações latino-americanas e, desta forma, pela via da integração cultural será possível encontrar soluções em dialogicidade continental.

Acerca da complexidade que os entrelaçamentos da integração cultural exigem, pode-se dizer que a universidade da integração desponta como intersecção para o cruzamento do saber latino-americano e não somente da práxis pedagógica brasileira. Sobre a problemática posta, é oportuno mencionar que a Unila desenrola práticas e saberes transformadores pluriculturais. Nessa perspectiva, mostra-se, nas bases, polifônica, encrustada em terreno fértil para pedagogias críticas não mais ancoradas somente na vertente local, mas, principalmente, nos entrelaçamentos, como já pontuamos, de uma pedagogia latino-americana.

Chegamos a essa conclusão, fazendo a ponte com o papel desempenhado pela Unila com o que afirma Ducasse no livro “Entramando pedagogías críticas latino-americanas” quando externa o seguinte: Profesores/as, educadores/as populares, pedagogos/as, trabajadores/as de la educación e investigadores/as podemos aportar en los procesos de transformación social, poniendo a disposición de las comunidades educativas y territoriales todos nuestros conocimientos y saberes. Desde aquí, reivindicamos las pedagogías críticas, puesto que en términos ético-políticos, teóricos, metodológicos y conceptuales, pueden contribuir en la construcción y fortalecimiento de proyectos educativos a nivel local, regional y nacional; pueden vigorizar procesos organizativos de sectores sociales en resistencia; pueden acompañar instancias de sistematización de saberes y de auto-reconocimiento colectivo; pueden motorizar procesos de concienciación integral; pueden ayudar en la reconstrucción de memorias e historias locales; pueden robustecer, en contenido y forma, los espacios participativos, deliberativos y asamblearios de colectividades sociales, entre muchas otras posibilidades.

É importante sinalizar que no cotidiano acadêmico das práticas e dos saberes na Unila, a partir do encontro intercultural com atores sociais de ensino e de aprendizagem pertencentes a diversos países do universo latino-americano, o discente brasileiro encontra na universidade de fronteira a possibilidade de repensar a própria construção da nacionalidade e, mais importante que isso, de refletir acerca da necessidade do latino-americanizar-se.

Ao longo da história do Continente Latino-Americano, muitos problemas ficaram sem respostas viáveis, dado que as instituições sociais sempre recorreram a saberes e valores do Norte, cabendo destacar que, em muitos casos, as realidades e diversidades do Sul não encontraram e não encontram guarida na arquitetura mental dos nortistas. No quadro mundial multipolar atual, a formação de blocos desponta como interlocução para diálogos necessários ao enfrentamento de crises por meio dos elementos fortes na vertente do encontro cultural. A América do Sul, especialmente, o MERCOSUL, e toda a América Latina e Caribe precisam encontrar novas rotas, construir os próprios caminhos de progresso, a partir, claro, dos valores identitários que possuem e não alicerçadas no olhar dos outros, distantes físico-econômico-histórico-político-culturalmente.

Com a Unila, os latino-americanos podem refletir sobre o papel da recontagem da história e, ao fazê-lo, aprenderão que existe o Sul, a transitar pelo Sul, a partir do Sul para o Sul e com o Sul. No Sul haverá a obrigação de dialogar, e essa dialogicidade presente em todos os atos de comunicação será crucial na fronteira do pensar e do existir para a integração.

A região da Fronteira Trinacional precisa integrar-se para, a partir dos pilares da amizade política, histórica e cultural, encontrar soluções para os problemas da região, em parceria, mas isso só será possível quando houver uma consciência coletiva de identidade cultural latina. Nessa linha, é crucial entender que os movimentos sociais na fronteira, sejam do lado paraguaio, no Brasil ou na Argentina, possuem intersecções e, desta forma, torna-se imprescindível compreender como funcionam essas pontes de amizade.

Ainda no que concerne aos movimentos sociais na América Latina, faz-se oportuno apresentar que Gohn acredita que as dicotomias, sempre presentes nos debates internacionais sobre os movimentos, mudam de foco para local/global, Norte/Sul. Nesse ínterim, também é importante destacar que novas versões teóricas são desenvolvidas na América Latina com as teorias pós-coloniais; novas expansões ocorrem nas teorias já existentes, tais como as culturalistas, estudos e pesquisadores das teorias marxistas retomam o debate da identidade de classe dos movimentos e teorias que tinham a hegemonia na América do Norte tais como a da Mobilização Política, do Paradigma Norte-Americano, penetram na realidade latino-americana e passam a eixos referenciais básicos para muitos pesquisadores.

A Universidade da Integração Latino-Americana possui o papel de despertar o poder da consciência identitária e o papel da ação em rede, em conexão. Na convivência, no contato, no encontro, os conflitos e tensões, situações propícias para a resolução de problemas a partir do elemento comum e das diferenças, na fronteira, o referido espaço acadêmico-cultural integrador configura-se como instância para a polifonia dialógica, para a dança de culturas na alegria do encontro.

Por seus sete anos de existência e contribuição para desenvolvimento do Brasil e de todo o continente latino-americano, a Unila, por receber e congregar discentes de várias nações da grande América Latina transforma as vidas não somente dos unileiros brasileiros, mas, também dos unileiros argentinos, paraguaios, bolivianos, peruanos, chilenos e demais países latino-americanos e caribenhos, merece o reconhecimento de toda a sociedade brasileiro-latino-americana.

Para fins de historicização, cabe mencionar que a instituição em questão nasceu com o objetivo de gerar conhecimento em partilha por meio do encontro cultural a partir dos pilares da amizade e da multiculturalidade em uma das fronteiras mais movimentadas do Brasil. Criada no ano de 2010, mais precisamente no dia 12 de janeiro, a Universidade da Integração se abriu para Foz do Iguaçu e cidades fronteiriças apresentando-se como espaço acadêmico dialógico propiciador e fomentador da interculturalidade, da interdisciplinaridade e do bilinguismo.

Ademais, a Unila fornece muitos elementos para uma epistemologia latino-americana de pensar o próprio continente e em tempos políticos difíceis como os que estamos vivendo no Brasil e em outros países da Pátria Grande, compreender o poder da integração cultural como etapa para outras integrações no continente nesse momento de desmantelamento político e econômico será crucial para outros rumos e eixos de desenvolvimento.

Diante de tudo, por esses sete anos, a data não poderia passar sem uma reflexão acerca do papel desempenhado pela Unila, pois no cotidiano desta instituição encontra-se o germe para um futuro mais promissor, progressista e desenvolvido para a América Latina.

Enfim, neste sétimo ano não poderíamos deixar de parabenizar à Unila pelo importante papel desempenhado no processo de construção de uma nova visão sobre o ser latino-americano no Brasil a partir do encontro de povos, culturas e produção de conhecimento na região de Foz do Iguaçu.

Outra menção necessária é que neste aniversário da Unila não podemos nos esquecer dos atores que compõem a instituição, em especial daqueles jovens que deixaram suas famílias e suas comunidades para serem os construtores, atores ativos do projeto que um dia o visionário ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva colocou em funcionamento. Esses atores mencionados possuem um grande compromisso social, os mesmos que ingressaram nesta universidade que conta com um projeto político e pedagógico diferenciado, que levanta a bandeira da integração social e cultural com o objetivo de fortalecer as competências intelectuais.

Desejamos que em 2017 e nos próximos anos a Unila continue formando profissionais que contribuam para a integração latino-americana, para o desenvolvimento regional e para o intercâmbio cultural, científico e educacional de países da América Latina e do Caribe.

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