América Latina e Palestina contra a militarização: crônica de uma mexicana no Rio de Janeiro

Foto: Shahaf Weisbein

Por Ana Rosa Moreno, de Puebla, México, para Desacato.info.

Tradução de Elissandro Santana, para Desacato.info. (Port./Esp.)

No sábado, 21 de julho, peguei um avião para o Rio de Janeiro, Brasil, para participar das atividades da semana do 3º Julho Negro, onde várias organizações de familiares de vítimas de violência policial, coletivos de favelas e organizações de DD.HH realizam atividades no Rio para denunciar os crimes contra a população afrodescendente e favelados por parte do Estado e da polícia local.

Neste ano, os movimentos sociais locais do Rio de Janeiro receberam ativistas e movimentos sociais da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Índia, Israel, México, Palestina, Peru, África do Sul e Uruguai.

Cheguei no domingo, 22 de julho, e fui recebida pela Juliana, uma garota carioca que me apresentou à cidade, me deu refúgio por algumas noites e com quem pude treinar meu ouvido já que ela não fala espanhol e eu não falo português.

 Na segunda-feira, 23 de julho, as delegações se uniram gradualmente para participar das atividades da 3ª semana do Julho Negro e para lembrarem o massacre na igreja da Candelária em 23 de julho de 1993 em que a polícia, em um ato de vingança porque algumas crianças apedrejaram a patrulha, atirou para matar fora da igreja, onde cerca de 40 crianças em situação de rua dormiam; o saldo foi de 8 crianças e um adulto morto. Embora alguns policiais envolvidos tivessem sido condenados, saíram por bom comportamento e outros nem entraram na prisão.

Na terça-feira, 24 de julho, chegamos ao assentamento “Terra Prometida” do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Nova Iguaçu, Rio de Janeiro, Brasil, que busca fundamentalmente a redistribuição de terras improdutivas para os sem-terra. O grupo está entre os maiores movimentos sociais da América Latina e, desde sua criação, em 1985, 1722 militantes foram mortos. Passamos por seus caminhos e entre as plantações para ouvir suas histórias de luta e trabalho pela terra e como o governo lhes negou serviços básicos como eletricidade, drenagem, água potável e centros médicos. Mas, também, aprendemos com seu sistema agrário autogestionário e modo de vida sustentável.

Na quarta-feira, dia 24, visitamos a favela da Maré, especialmente, o museu da Maré, onde aprendi acerca da história dos que se instalaram nesses territórios. O museu apresenta memórias, identidades e representações simbólicas que possibilitam o poder exercer o direito à memória e a construção de futuros com dignidade social. Atualmente, o museu está instalado no que anteriormente era uma fábrica de peças de aeronaves e agora também abriga um espaço para desenvolver atividades culturais, oficinas e um espaço para os moradores da favela para que eles tenham onde passar um tempo com qualidade.

Finalmente, à noite, ouvimos os defensores dos direitos humanos no dia da luta das mulheres negras latinas e personalidades caribenhas como Lívia Vidal (Mulheres de Pedra), Maria Elena (professora da PUC Rio), Anielle Franco (irmã de Marielle Franco), Soledad Vásquez (Observatório de Direitos Humanos dos Povos – México). Elas nos contaram sobre suas lutas, a repressão policial/militar por parte do Estado, cada qual com depoimentos diferentes, mas denunciando as mesmas injustiças de violação dos direitos humanos dos afrodescendentes, mulheres, camponeses, pessoas em situação de pobreza e trabalhadores.

Na quinta-feira, 25 de julho, foi a vez das ruas e da história da favela da Providência, a primeira do Rio de Janeiro. Nas ruas da favela podemos ver murais e traços da história do lugar, pobreza, crime organizado, repressão policial, o teleférico que só funcionou nas Olimpíadas e na Copa do Mundo, mas, também, ouvimos histórias de luta e de resistência em prol da identidade. Como no assentamento do MST e da favela da Maré, não há transporte público, não há hospitais e não há segurança real. Eles nos disseram que também são discriminados por viverem em uma favela e que quando alguém adoece tem que chegar a um hospital na cidade por seus próprios meios porque as ambulâncias se recusam a entrar e quando chegam aos hospitais eles negam serviços.

As pessoas da favela buscam viver com dignidade, mas a polícia tem atrapalhado a vida de todos. Por exemplo, quando fazem festas ou festivais de samba são reprimidos. Tem organizações que fazem passeios para aprender sobre a vida na favela e tudo isso ajuda a denunciar a situação em que vivem.

Na sexta-feira, 26 de julho, na Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi realizada audiência pública para denunciar o militarismo na América Latina, que se denominou “Lutas Unidas contra a Militarização. Da América Latina até a Palestina”.

A audiência pública teve quatro painéis onde cada representante da delegação de organizações de direitos humanos, movimentos sociais, antimilitaristas, Palestina, comunidade mapuche, afrodescendentes, indígenas, camponeses e mulheres denunciaram a exportação do modelo de repressão militar israelense contra o povo palestino para a América Latina e o mundo.  No encontro foram apresentadas as campanhas públicas Grupo Tortura Nunca Mais, Rafael Braga e a Campanha 23.

A seguir, enumero a relação de organizações:

  • Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência – Brasil
  • Movimento contra o Muro e o Comitê Nacional BDS da Palestina – Palestina
  • Comitê de Serviço de Amigos Americanos (AFSC) Israel
  • Coalizão Mulheres pela Paz – Israel
  • Fundação Joel Sierra Human Rights – Colômbia
  • Comitê de Organizações Populares e Indígenas de Honduras, COPINH – Honduras • Organização Mapuche Pichi Newen – Chile
  • Observatório dos Direitos Humanos dos Povos – México
  • União Popular para os Direitos Democráticos (PUDR) – Índia
  • Voz Judaica pela Paz – EUA
  • Addameer, Associação Palestina pelos Direitos Humanos e Apoio aos Prisioneiros – Palestina
  • Mães de Maio (São Paulo) – Brasil
  • Partido Comunista da África do Sul – África do Sul

Também ocorreu a apresentação do relatório sobre compras de armas, tecnologia militar e formação de forças repressivas da América Latina até Israel nos últimos 40 anos. Nele são são detalhadas as relações militares com diferentes ditaduras e como a tecnologia e metodologia israelenses são utilizadas hoje para a perseguição e repressão de movimentos sociais. Cabe destacar que este trabalho foi realizado por vários grupos da América Latina que estão relacionados com o BDS, a campanha internacional do Boicote, Desinvestimento e Sanções a Israel.

Por fim, concluiu-se que o Estado de Israel globalizou a repressão, mas que os movimentos sociais, coletivos, grupos e organizações de direitos humanos internacionalizaram a resistência.

A atividade terminou com uma manifestação contra a militarização e o racismo no mundo. Ademais, foi prestada uma homenagem a Marielle Franco, Eleine Freitas e Vera Lúcia, mulheres que representam a luta contra o militarismo e o racismo.

O que o encontro me ensinou é que os casos de violação dos direitos humanos e repressão não são isolados. Todos os povos ao redor do mundo sofrem a mesma discriminação e violência do Estado e por eles devemos buscar esses vínculos e conexões com todas as lutas da América Latina e do mundo.

Levo para sempre todo o amor que recebi no Rio de Janeiro, a luta e a solidariedade que criamos.

+ Lutas Unidas contra a Militarização, da América Latina à Palestina


América Latina y Palestina  contra la militarización. Crónica de una mexicana en Río de Janeiro.

Por Ana Rosa Moreno, de Puebla, México, para Desacato.info.

El sábado 21 de julio tomé un avión rumbo a Río de Janeiro, Brasil, para participar en las actividades de la semana del 3° Julio Negro, en que diversas organizaciones de familiares de víctimas de violencia policial, colectivos de favelas y organizaciones de DD.HH. llevan a cabo actividades en Río para denunciar los crímenes contra la población afrodescendiente y favelada por parte del Estado y sus policías locales.

Este año los movimientos sociales locales de Río de Janeiro recibieron a activistas y movimientos sociales de Argentina, Bolivia, Brasil, Chile, Colombia, India, Israel, México, Palestina, Perú, Sudáfrica y Uruguay.

Llegué el domingo 22 de julio y fui recibida por Juliana, una chica carioca que me presentó la ciudad, me dio refugio un par de noches y con quien pude entrenar mi oído, puesto que ella no habla español y yo no hablo portugués.

El lunes 23 de julio, poco a poco, las delegaciones se fueron juntando para integrarse a las actividades de la 3ª semana del Julio Negro y para recordar la masacre en la Iglesia de la Candelaria, ocurrida el 23 de julio de 1993, cuando la policía, en un acto de venganza contra unos niños que apedrearon la patrulla, dispararon a matar afuera de la iglesia, donde alrededor de 40 menores en situación de calle dormían. El saldo fue de 8 infantes y un adulto asesinados. Aunque algunos de los policías implicados sí tuvieron una condena, estos salieron por buena conducta y otros ni siquiera pisaron la cárcel.

El martes 24 de julio llegamos al asentamiento “Tierra Prometida” del Movimiento de los Trabajadores Sin Tierra (MST) en Nova Iguaçu. El MST busca fundamentalmente la redistribución de las tierras improductivas para los sin tierra. El grupo se encuentra entre los movimientos sociales más grandes de Latinoamérica. Desde la creación del movimiento en 1985, 1722 militantes han sido asesinados.

Anduvimos por sus caminos y entre los cultivos para escuchar sus historias de lucha y trabajo por la tierra y cómo el gobierno les ha negado los servicios básicos como la luz, drenaje, agua potable y centros médicos. También aprendimos sobre su sistema agrario autogestionario y su forma sustentable de vivir.

El miércoles 24 visitamos la favela de la Maré, especialmente el museo de la Maré, donde se puede conocer la historia de quienes se instalaron en aquellos territorios. El museo se divide en épocas que a la vez muestran memorias, identidades, representaciones simbólicas que hacen posible el poder ejercer el derecho a la memoria y la construcción de futuros con dignidad social.

El museo está instalado en lo que anteriormente era una fábrica de partes de avión y ahora además alberga un espacio para desarrollar actividades culturales, talleres y un espacio para que los pobladores de la favela puedan pasar un tiempo sano de calidad.

Finalmente en la noche escuchamos a defensoras de Derechos Humanos en el Día de Lucha de la Mujer Negra Latina y Caribeña. Personalidades como Lívia Vidal (Mulheres de Pedra), Maria Elena (Profesora de la universidad PUC Rio), Anielle Franco (hermana de Marielle Franco), Soledad Vásquez (Observatorio de Derechos Humanos de los Pueblos – México) nos hablaron de sus luchas, la represión policial/militar por parte del Estado. Cada una con distinto testimonio pero denunciando las mismas injusticias de violación a los derechos humanos de los afrodescendientes, mujeres, campesinos, gente en pobreza y trabajadores.

El jueves 25 de julio tocó el turno de recorrer las calles e historia de la favela de Providencia, la primera en Río de Janeiro. Entre sus calles podemos ver murales y huellas de la historia de la favela, pobreza, crimen organizado, represión de la policía, el teleférico que solo funcionó en las Olimpiadas y en el Mundial.

También escuchamos historias de lucha y de resistencia por mantener su identidad. Al igual que en el asentamiento de los MST y la favela de la Maré, no hay transporte público, no hay hospitales y no hay una verdadera seguridad. Nos contaban que también son discriminados por el hecho de vivir en una favela: cuando alguien se enferma tiene que buscar llegar a un hospital de la ciudad por sus propios medios porque las ambulancias se niegan a entrar y cuando llegan a los hospitales les niegan los servicios. La gente de la favela también ha buscado sus maneras de vivir dignamente pero la policía mucho ha tenido que ver para ponerles limistes, incluso, cuando tienen fiestas o festivales de samba son reprimidos por la policía, hay organizaciones que hacen tours para conocer la vida en la favela y esos tours ayudan para denunciar la situación en la que viven.

El viernes 26 de julio en la Facultad Nacional de Derecho de la Universidad Federal de Río de Janeiro, se llevó a cabo la audiencia pública para tener un espacio de denuncia del militarismo en Latinoamérica, misma que se llamó  “Luchas Unidas Contra la Militarización, de Latinoamérica a Palestina”. La audiencia pública tuvo cuatro paneles donde cada delegación representante de organizaciones de DD.HH., movimientos sociales, antimilitaristas, Palestina, comunidad mapuche, afrodescendientes, indígenas, campesinos y mujeres denunciaron la exportación del modelo de represión militar israelí contra el pueblo palestino hasta Latinoamérica y el mundo. En la audiencia pública se presentaron las campañas Grupo Tortura Nunca Mais, Campanha Rafael Braga y la Campanha 23.

A continuación enumero la lista de las organizaciones:

  • Red de Comunidades y Movimentos contra la Violencia – Brasil
  • Movimiento contra el Muro e Comité Nacional Palestino de BDS – Palestina
  • American Friends Service Committee (AFSC) Israel
  • Coalición Mujeres por la Paz – Israel
  • Fundación de Derecho Humanos Joel Sierra – Colombia
  • Comité de Organizaciones Populares e Indígenas de Honduras, COPINH – Honduras
  • Organización Mapuche Pichi Newen – Chile
  • Observatorio de Derechos Humanos de los Pueblos – México
  • Unión Popular por Derechos Democráticos (PUDR) – Índia
  • Voz Judía Por la Paz (Jewish Voice for Peace) – EEUU
  • Addameer, Asociación Palestina de Derechos Humanos y Apoyo a Prisioneros – Palestina
  • Madres de Mayo (São Paulo) – Brasil
  • Partido Comunista de Sudáfrica – Sudáfrica

También dio lugar para la presentación del informe de compras de armas, tecnología militar y la formación de fuerzas represivas desde Latinoamérica a Israel en los últimos 40 años. En el mismo se detallan las relaciones militares con las diferentes dictaduras y cómo se utiliza hoy tecnología y metodología israelí para la persecución y represión de los movimientos sociales. Cabe destacar que este trabajo fue realizado por diversos colectivos de América Latina que son afines a la campaña internacional del BDS, Boicot, Desinversiones y Sanciones a Israel. Finalmente se concluyó que el Estado de Israel ha globalizado la represión, pero que los movimientos sociales, colectivos, agrupaciones y organizaciones en derechos humanos internacionalizamos la resistencia.

La actividad finalizó con una manifestación contra la Militarización y el Racismo en el Mundo y se realizó un homenaje a Marielle Franco, Eleine Freitas y Vera Lúcia, mujeres luchadoras contra el militarismo y el racismo.

Lo que el encuentro me dejó es que ningún caso de violación de derechos humanos y de represión es aislado. Todos los pueblos alrededor del mundo sufrimos la misma discriminación y violencia por parte del Estado y por ellos debemos buscar esos lazos y conexiones con todas las luchas de Latinoamérica y el mundo.

Me llevo para siempre todo el amor que recibí en Rio de Janeiro, la lucha y la solidaridad que creamos.

Ana Rosa Moreno é licenciada em Relações Internacionais e mora na Cidade do México.

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