Ali no José Mendes

Foto: Elyandro Modro

Por Rosangela Bion de Assis, para Desacato.info.

Depois da Prainha tem uma curva bem fechada

Os caminhões da Coca frequentemente deixavam cair os engradados ali

Meu tio Baquinha, sabe bem

Os restos de vidro ficavam pelo chão, por tempos

Depois do Madalona, pendurada no barranco florido, fica a casa da minha avó Zilca

Vivi alguns anos com ela, depois fomos morar ali perto

Aquele pedacinho de ilha era meu mundo

Rodopiei nos postes, repetindo falas das personagens das minhas invenções teatrais

Meus amigos vinham assim que a Neusa saia pra trabalhar e fritávamos muita batatinha

Derreti meu fogãozinho nas primeiras experiências culinárias na praia do José Mendes

Seu Nelinho sempre dava desconto nos refris

Na Dona Bicota, as moedas viravam doces

No Jurema Cavallazzi, era barrada na fila merenda, quando tentava repetir pela terceira vez

Caminhando pela José Maria da Luz procuro algum pedacinho do passado

Escavo e vejo que demoliram a casa antiga em que funcionava a venda do seu Osvaldo

A casa do professor foi abandonada

A da minha avó ganhou grades e cerca

Não consigo chegar na prainha secreta das nossas brincadeiras

A praia do Curtume ganhou deck

Muitas casas simplesmente sumiram

Eu fui embora

Ando reunindo os amigos em outros cantos

Continuo esfomeada, mas troquei o teatro pela poesia

   —

Rosangela Bion de Assis é jornalista, poetisa e presidenta da Cooperativa Comunicacional Sul.

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