Afrodesmo repudia projeto do Executivo para retirada do dia 20 de novembro do calendário do município

Publicado em: 02/06/2017 às 12:05
Afrodesmo repudia projeto do Executivo para retirada do dia 20 de novembro do calendário do município

Por Claudia Weinman, para Desacato. info. 

Chegou ao conhecimento da Associação dos Afrodescendentes de São Miguel do Oeste (Afrodesmo), um documento (projeto) encaminhado aos Vereadores por meio do poder Executivo, o qual, retira do calendário municipal as atividades correspondentes ao dia 20 de novembro, rememorado pelo movimento negro e organizações, como sendo o “Dia da Consciência Negra”. No documento, o Prefeito da cidade, Wilson Trevisan, institui sob a Lei 0064/2017, a “Semana da Cultura” no município de São Miguel do Oeste/SC, “a ser celebrada todos os anos, na semana do dia 12 de outubro”, sendo que existe a Lei nº6.357/2010 que institui a semana da Consciência Negra no município.

Isete Carmen Lorenço em entrevista ao Portal Desacato.
Isete Carmen Lorenço em entrevista ao Portal Desacato. Foto: Paulo Fortes.

Ele ainda menciona que a formação étnico-cultural da cidade é formada pela predominância de Italianos e Alemães, ignorando, segundo uma das representantes do movimento, Isete Carmen Lourenço, a história indígena, cabocla e dos negros/as que habitavam a região antes de serem expropriados do território. “A justificativa do governo é que todos/as devem ser tratados/as como iguais. E nós questionamos essa falta de diálogo, de conversa. Temos que ter sim a igualdade de direitos entre as etnias, no entanto, vivemos a diversidade, não somos todos/as iguais, temos nossas diferenças que são bem características e lutamos historicamente para que o dia da consciência negra se tornasse lei, para que pelo menos nessa data houvesse um estudo, uma atenção maior. A nossa história de escravização e de sofrimento não pode ser ignorada. O dia 20 de novembro é o mínimo que exigimos dessa sociedade. Um governo municipal não pode passar por cima de uma lei que é federal”, enfatizou.

Segundo Isete, no município era realizada faz um tempo, a semana das etnias, onde cada uma trazia para o espaço da praça alguns elementos de sua cultura e fazia essa troca de conhecimento, no entanto, ela menciona que a discussão sobre o dia da consciência negra ou a semana da consciência negra deve ser entendida como outra atividade em razão desta ser uma conquista histórica. “Não entendemos o que significaria o dia 12 de outubro para o governo, porque para nós não tem relação nenhuma com a data histórica do 20 de novembro. É como diz um integrante da comunidade negra: ‘Será que ele, o prefeito, comemoraria o aniversário um mês antes de sua real data’? E não é só isso, o 20 de novembro tem um simbolismo, a morte e vida de Zumbi dos Palmares e todos/as que tombaram em nome de uma causa não pode ser simplesmente deixado de lado”, disse ela.

Isete salientou ainda que o governo municipal não pode descumprir a Lei Federal nº 10.639, de janeiro de 2003. Essa mesma lei torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas. “Porque não se pode cumprir a lei? Será que com todos os impostos que pagamos não existe condição de garantir um seminário para termos uma assessoria de alguém que nos traga mais conhecimento e informe inclusive membros do governo municipal sobre a nossa história? É preciso entender que antes da emancipação político-administrativa do município existiam pessoas morando aqui que foram excluídos/as da história. O que está acontecendo com esse projeto é racismo, as pessoas estão morrendo por conta da cor da sua pele, será que não existe esse entendimento?”, questionou.

"nós questionamos essa falta de diálogo, de conversa. Temos que ter sim a igualdade de direitos entre as etnias, no entanto, vivemos a diversidade, não somos todos/as iguais, temos nossas diferenças que são bem características".
“Nós questionamos essa falta de diálogo, de conversa. Temos que ter sim a igualdade de direitos entre as etnias, no entanto, vivemos a diversidade, não somos todos/as iguais, temos nossas diferenças que são bem características”, disse Isete.

A representante do movimento informou que a Afrodesmo junto às demais organizações e apoiadores/as está tomando as providências para repudiar o projeto enviado pelo Governo Municipal.

 

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