Abandonar a ONU

Publicado em: 06/09/2011 às 09:37
Abandonar a ONU

Por Koldo Campos Sagaseta.

Cronopiando.

Português/Español.

Se, anos atrás, mandar a Organização das Nações Unidas à merda era só uma inquietação justificada nos pobres fundamentos democráticos de uma instituição que dizia velar, precisamente, pelos valores democráticos, na atualidade, e a teor de sua própria evolução e desenvolvimento, romper com a ONU virou uma necessidade.

Acreditar que desde dentro desse organismo alguns dos 193 países membros possam, chegado o caso, servir aos fins para os que, pretendidamente, se criou na Califórnia em 1945 a Organização das Nações Unidas, resulta tão ingênuo como seguir confiando, 66 anos depois, no compromisso dessa instituição com os belos propósitos para os que fora fundada e que ainda apregoa.

Facilitar a cooperação em Direito Internacional, a paz, a segurança, o desenvolvimento econômico ou os direitos humanos, só é um compromisso de intenções que, se no passado tornou-se inoperante, hoje em dia virou um vulgar pretexto para amparar o crime e o expólio.

Por encima da sua Assembleia Geral, pesam os interesses dos cinco países membros de seu Conselho de Segurança: os Estados Unidos, a Rússia, a China, o Reino Unido e a França, cujo direito a veto se impõe a qualquer resolução, por mais respaldo que observe, de sua Assembleia General. Não é por acaso que esses cinco membros foram também aqueles que em 1944 traçaram os propósitos da organização, planejaram seus organismos e estabeleceram as disposições que haveriam de manter a paz, a segurança e a cooperação internacional. A União Soviética deixou sua cadeira pra Rússia e a República China-Taiwã à República Popular China, mas nessa mudança de nomenclatura começa e termina a única inovação que desfrutou uma instituição cujo novo secretário geral só é um empregado do regime imposto por seu Conselho de Segurança.

A Organização das Nações Unidas se cria, curiosamente, para substituir a a Sociedade de Nações (SDN) organismo fundado em 1919, entendendo de que dita sociedade resultava inoperante e não tinha evitado a segunda guerra mundial. E foi o então presidente estadunidense Franklin Roosevelt quem em janeiro de 1942, em plena guerra, insistiu na necessidade de criar uma aliança entre 26 países comprometidos na defesa da chamada Carta do Atlântico que um ano mais tarde, na Conferência de Teerã, governada então por sua alteza imperial Mohammad Reza Pahlevi, (o lugar mais idôneo para apreciar o valor da democracia) tomaria forma sob o nome de Nações Unidas, iniciativa do próprio Roosevelt, e que em 1945 acabou por se concretar em São Francisco.

Se a ineptidão foi a causa de que as Nações Unidas substituissem a Sociedade das Nações que as precedeu, por que não substituir pelas mesmas razões e algumas outras ainda mais graves,  uma organização que da inoperância frente ao genocídio passou à cumplicidade com os genocidas? Por que não romper com uma organização cujos nobres princípios transformou na cobertura legal que, como pretexto, empregam em suas guerras de extermínio os cinco países que a governam e mais alguns (Alemanha, Israel ou o Japão) representados através de testas-de-ferro nesse Conselho de Segurança?

Nos últimos anos, especialmente, é manifesto o deterioro em todos os níveis das Nações Unidas, seja olhando pra outro lado diante da barbárie desatada por alguns estados ou autorizando as mais brutais ações contra outros países. Enquanto a impunidade mais deslavada encobre qualquer selvageria israelense, por citar um caso, se autoriza o extermínio de nações inteiras a partir de grosseiras patranhas que se chegaram a mentir como provas irrefutáveis.

Enquanto povos como o palestino ou o saharaui esperam há mais de meio século que as Nações Unidas cumpra suas próprias resoluções e faça efetivos seus direitos, de acordo com o interesse daqueles que governam a ONU, se criam países como Kosovo o Sudão do Sul. Enquanto unanimemente, ano após ano, a Assembleia Geral das Nações Unidas, com a exceção dos Estados Unidos, Israel e as ilhas Marshall, condena o criminal bloqueio que padece Cuba desde que a ilha caribenha decidiu tomar o seu destino em suas mãos, o bloqueio se torna ainda mais asfixiante sem que a massiva decisão da assembleia internacional faça nada por impedi-lo e estabeleça as correspondentes sanções ou expulse de seu seio a quem não respeitar a sua vontade.

O acontecido na Líbia nestes dias é um bom exemplo de até que ponto a ONU só é um instrumento de seus países reitores. Se chegou a tamanha semvergonha que o mesmo Nicolás Sarkozy acaba de declarar sem se cuidar nem dissimular: “A intervenção na Líbia queremos que seja o início de uma política autorizada pela ONU que põe a força militar ao serviço da proteção das populações que correm o risco de ser martirizadas por seus próprios dirigentes”.

A ONU é um refém de luxo em mãos dos países que integram seu Conselho de Segurança e seu rescate não parece possível.

Confiar em que ainda seja possível uma Organização das Nações Unidas que cumpra com os objetivos para os que, segundo a sua carta magna, foi criada, mais que um sonho é um pesadelo. E pretender a sua transformação uma ilusão digna de melhor causa. Talvez, a de criar outro organismo internacional em que todos seus membros possam ter direito a voz e voto, que acredite  de verdade na necessidade de preservar a paz e canalizar através do diálogo qualquer conflito, que respalde o desenvolvimento e defenda os direitos humanos, que não organize guerras humanitárias nem bombardieos preventivos, que não tolere campos de extermínio nem prisões secretas, nem torturas, que não consinta fraudes eleitorais nem monopólios…

Mesmo que só a integrassem inicialmente uma dúzia de países, sempre seria preferível essa aventura a seguir sendo cúmplice e numerário de um engano.

Um mundo melhor é possível… mas não por o enunciá-lo e sim por construi-lo.

 

Versão em português: Tali Feld Gleiser.

 

 

Cronopiando

 

Abandonar la ONU

Por Koldo Campos Sagaseta.

 

 

 

Si, años atrás, mandar a la Organización de Naciones Unidas al carajo era sólo una inquietud justificada en los pobres fundamentos democráticos de una institución que decía velar, precisamente, por los valores democráticos, en la actualidad, y a tenor de su propia evolución y desarrollo, romper con la ONU se ha convertido en una necesidad.

Creer que desde dentro de ese organismo algunos de los 193 países miembros puedan, llegado el caso, servir a los fines para los que, pretendidamente, se creó en California en 1945 la Organización de Naciones Unidas, resulta tan ingenuo como seguir confiando, 66 años después, en el compromiso de esa institución con los hermosos propósitos para los que fuera fundada y que todavía pregona.

Facilitar la cooperación en Derecho Internacional, la paz, la Segurança, el desarrollo económico o los derechos humanos, sólo es un compromiso de intenciones que, si en el pasado se volvió inoperante, hoy en día se ha transformado en un vulgar pretexto con que amparar el crimen y el expolio.

Por encima de su Asamblea General, pesan los intereses de los cinco países miembros de su Consejo de Segurança: los Estados Unidos, Rusia, China, Reino Unido y Francia, cuyo derecho a veto se impone a cualquier resolución, por más respaldo que observe, de su Asamblea General. No por casualidad esos cinco miembros fueron también quienes en 1944 trazaron los propósitos de la organización, diseñaron sus organismos y establecieron las disposiciones que habrían de mantener la paz, la Segurança y la cooperación internacional. La Unión Soviética dejó su asiento a Rusia y la República China-Taiwan a la República Popular China, pero en ese cambio de nomenclatura comienza y termina la única innovación que ha disfrutado una institución cuyo flamante secretario general sólo es un empleado del régimen impuesto por su Consejo de Segurança.

La Organización de Naciones Unidas se crea, curiosamente, para sustituir a la Sociedad de Naciones (SDN) organismo fundado en 1919, en el entendido de que dicha sociedad resultaba inoperante y no había evitado la segunda guerra mundial. Y fue el entonces presidente estadounidense Franklin Roosevelt quien en enero de 1942, en plena guerra, insistió en la necesidad de crear una alianza entre 26 países comprometidos en la defensa de la llamada Carta del Atlántico que un año más tarde, en la Conferencia de Teherán, gobernada entonces por su alteza imperial Mohammad Reza Pahlevi, (el lugar más idóneo para apreciar el valor de la democracia) tomaría forma bajo el nombre de Naciones Unidas, iniciativa del propio Roosevelt, y que en 1945 acabó por concretarse en San Francisco.

Si la ineptitud fue la causa de que Naciones Unidas sustituyera a la Sociedad de Naciones que le precediera, ¿por qué no sustituir por las mismas razones y algunas otras aún más graves, a una organización que de la inoperancia frente al genocidio ha pasado a la complicidad con los genocidas? ¿Por qué no romper con una organización cuyos nobles principios ha transformado en la cobertura legal que, como pretexto, emplean en sus guerras de exterminio los cinco países que la gobiernan y algunos más (Alemania, Israel o Japón) representados a través de testaferros en ese Consejo de Segurança?

En los últimos años, especialmente, es manifiesto el deterioro a todos los niveles de Naciones Unidas, sea mirando para otro lado ante la barbarie desatada por algunos estados o autorizando las más brutales acciones contra otros países. Mientras la impunidad más descarada arropa cualquier salvajada israelí, por citar un caso, se autoriza el exterminio de naciones enteras a partir de burdas patrañas que se llegaron a mentir como irrefutables pruebas.

Mientras pueblos como el palestino o el saharaui tienen más de medio siglo esperando que Naciones Unidas cumpla sus propias resoluciones y haga efectivos sus derechos, al vapor del interés de quienes gobiernan la ONU, se crean países como Kosovo o Sudán del Sur. Mientras unánimemente, año tras año, la Asamblea General de Naciones Unidas, con la excepción de Estados Unidos, Israel y las islas Marshall, condena el criminal bloqueo que padece Cuba desde que la isla caribeña decidiera tomar en sus manos su destino, el bloqueo se torna aún más asfixiante sin que la masiva decisión de la asamblea internacional haga nada por impedirlo y establezca las correspondientes sanciones o expulse de su seno a quienes no respetan su voluntad.

Lo ocurrido en Libia en estos días es un buen ejemplo de hasta qué punto la ONU sólo es un instrumento de sus países rectores. Tal es el descaro al que se ha llegado que el propio Nicolás Sarkozy lo acaba de declarar sin cuidarse ni del disimulo: “La intervención en Libia queremos que sea el inicio de una política autorizada por la ONU que pone la fuerza militar al servicio de la protección de las poblaciones que corren el riesgo de ser martirizadas por sus propios dirigentes”.

La ONU es un rehén de lujo en manos de los países que integran su Consejo de Segurança y no parece posible su rescate.

Confiar en que todavía sea posible una Organización de Naciones Unidas que cumpla con los objetivos para los que, según su carta magna, fue creada, más que un sueño es una pesadilla. Y pretender su transformación una ilusión digna de mejor causa. Tal vez, la de crear otro organismo internacional en el que todos sus miembros puedan tener derecho a voz y voto, que crea en verdad en la necesidad de preservar la paz y encauzar a través del diálogo cualquier conflicto, que respalde el desarrollo y defienda los derechos humanos, que no organice guerras humanitarias ni bombardeos preventivos, que no tolere campos de exterminio ni cárceles secretas, ni torturas, que no consienta fraudes electorales ni monopolios…

Así sólo la constituyeran inicialmente una docena de países, siempre sería preferible esa aventura a seguir siendo cómplice y numerario de un engaño.

Un mundo mejor es posible… pero no porque lo enunciemos sino porque lo construyamos.

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