A vida real no jornalismo independente. Por Claudia Weinman.

Esse jornalismo que nem sempre é reconhecido é que denuncia a fome, a violência e quem causa isso tudo, segue vestindo todos os dias, programas e grades. Por isso quando formos receber uma homenagem, que seja apenas a confirmação real do que nossos corpos se dispunham a fazer e fazem.

 Por Claudia Weinman, para Desacato. info. 

Cheguei na casa da mãe já era quase 19h, ontem. Eu tinha alguns exames do pai para deixar com ela. Parei na porta, mirei à senhora enfeitando uma toalha com agulha e linha azul nas mãos, o fone no ouvido e o celular ao lado. Chamei, ela nem me ouviu. Aproximei-me então e perguntei:

-Tá fazendo oque mãe?

Ela me olhou e sorriu. Quando faz isso, nenhuma palavra pode ser pronunciada. A resposta cabe na expressão. Estava ela ouvindo a fala da Rosangela Bion de Assis, a presidenta da Cooperativa Comunicacional Sul na homenagem ao Portal Desacato em Florianópolis.

Vídeo da sessão em Florianópolis.

Começamos a conversar e ela seguiu, mesmo assim, ouvindo o término das palavras ditas no vídeo. Minha mãe acompanha tudo e compreende muito bem as exatas e humanas de forma incrível. Ela nunca foi à escola, mas vê Desacato para se informar. Ela sabe, pois tem uma filha inserida nessa cooperativa, entende que todos e todas ali fizeram a opção de construir uma cooperativa e que por isso, esta é a única cooperativa de comunicação e cultura do país, com exemplos poucos na América Latina.

A mãe tenta nos ajudar como pode e por isso garantiu a sua visualização e compartilhamento do vídeo em que Rosangela aparecia. Já teve momentos que ela me pediu: “Mas você poderia ir para a Universidade, fazer um mestrado, doutorado, coisa assim ou ir trabalhar em um sindicato, em um meio talvez da capital nesse pensamento mesmo que tu defende, mas para ter a garantia e estabilidade de salário e vida mais tranquila“. O tempo foi passando e eu fui mostrando pra ela que o projeto que estamos sonhando é maior, que a liberdade custa, demais, especialmente em um país tão colonizado como o nosso.

E nessas trocas de falas, nós duas vamos nos alinhando. Ela fazendo campanha contra o Bolsonaro e lendo a mídia independente do Desacato. É uma mãe meio que de todo mundo ali pois se preocupa quando vê qualquer que seja a pessoa, transmitindo uma mobilização ou luta semelhante. Sabe ela que não temos tanta estrutura assim e que “vida” e “projeto” são palavras cruzadas pra gente.

Eu tenho um sonho. Gostaria que a preocupação dela com quem faz a comunicação todos os dias de forma independente e organizada, cooperada e coerente, também se expressasse na sociedade, em todas as pessoas próximas inclusive e especialmente. Mas esse é um processo, eu sei e para que ele aconteça, a gente precisa seguir defendendo quem somos e o que fazemos todos os dias, divulgando e mostrando nos morros, nas favelas, na roça, no interior, nas capitais, onde for, o trabalho. E quando formos receber uma homenagem que seja apenas a confirmação real do que nossos corpos se dispunham a fazer e fazem.

É um sonho louco, parece pelo menos, mas quando a gente sai de casa e vai tornando-se parte do mundo é o que acontece. Não nos serve mais admirar o ar condicionado, nem as condecorações. A vida pelo lado dos difíceis (a nossa no caso) já foi romantizada o bastante. Esse jornalismo que nem sempre é reconhecido é que denuncia a fome, a violência e quem causa isso tudo, e mesmo com a responsabilidade que isso impõe, segue vestindo programas e grades e lutando por direitos e vida com dignidade.

A vontade de alteração da ordem faz com que seja preciso enfrentar a vida real.

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Claudia Weinman é jornalista, vice-presidenta da Cooperativa Comunicacional Sul. Militante do coletivo da Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e Pastoral da Juventude Rural (PJR).

 

 

A opinião do autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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