A vida intensa de um compositor compulsivo

Por Clóvis Campêlo.

Sagitariano do primeiro decanato, Inaldo Moreira nasceu no bairro do Cordeiro, no Recife, no dia 23 de novembro de 1937.

Na época, a família morava na rua Melu e não pode contar com a ajuda da comadre Corina, parteira responsável pelos partos da família, que se encontrava em outra nobre missão. O jeito foi seu Austricliano, pai de Inaldo, selar o cavalo e ir ao Sítio Boa ideia, onde hoje se encontra o bairro de San Martin, em busca de outra parteira. Inaldo nascia, assim, quebrando uma tradição familiar.

No Cordeiro, Inaldo nasceu e mora até hoje. Saiu do bairro em pouquíssimas ocasiões. Uma delas, para fazer o doutorado em Economia, na França, onde morou dois anos com toda a família. Em outra, para estudar inglês na Inglaterra, onde ficou seis meses. Morou ainda algum tempo na Bahia e no Rio de Janeiro, respectivamente como funcionário da Petrobrás e do Serpro.

No início de 1943, quando Inaldo tinha cinco anos de idade, dona Carminha, sua mãe, resolveu que estava na hora de colocá-lo na escola. Por essa época, morava na rua Bom Jesus, onde funcionava a escola de dona Zila. Acontece que dona Zila era casada com seu Misael, presidente do Bloco Carnavalesco Mixto Camelo de Ouro, cuja sede era no mesmo prédio da escola. Na rua, também ficava a sede do clube Bebé. Assim, ao mesmo tempo em que se iniciava nas letras, Inaldo tinha contato com a cultura pernambucana dos frevos de bloco. Não é a toa que, posteriormente, tenha iniciado a sua vida de compositor com esse gênero musical. Ambos os clubes são citados pelo compositor Edgard Moraes na música “Valores do Passado”, hino do Bloco da Saudade.

Em 1949, aos doze anos de idade, por imposição do pai, que gostava de tocar violão e cantar as músicas de Augusto Calheiros, foi estudar música com seu Calazans. O mestre também era compositor de frevos-de-bloco e morava no bairro da Torre. Durante dois anos estudou clarinete, embora possuísse em casa um bandolim de cuia (napolitano). Depois desse período, considerado apto para o instrumento pelo mestre, ganhou do pai um clarinete.

No Ginásio Pernambucano, na época chamado Colégio Estadual de Pernambuco, Inaldo fez o curso ginasial. Em um final de tarde, passando pelo prédio do Liceu de Artes e Ofícios, ao voltar para casa, movido pela curiosidade, entrou naquele prédio. Foi recebido por um homem de cor, chamado Francelino, que lhe indagou se tocava algum instrumento. O saber que Inaldo tocava clarinete, deu-lhe algumas partituras que foram bem interpretadas pelo jovem. Posteriormente, pediu-lhe para tocar algo de ouvido. Satisfeito, então, convidou-o para ensaiar com a Banda do Liceu, nas noites das quinta-feiras. O mestre da banda se chamava Manoel Ferreira e lá, entre outros, Inaldo conviveu com Lídio, pai do maestro Duda, que tocava percussão na banda. Ficou no Liceu até 1956, quando completou 18 anos e foi servir ao Exército brasileiro.

No Exército, passou 3 anos e era conhecido como o cabo maestro. Apesar da alcunha, praticamente desligou-se da vida de músico e instrumentista. No entanto, lá conheceu um soldado que tinha o apelido de Pinóquio e que cantava no Coral da Igreja do Carmo. Levado por ele, Inaldo integrou-se ao Coral que era comandado pelo maestro Mabel Bezerra. No Exército, no dia da sua baixa, como era um bom datilógrafo, foi requisitado para trabalhar com o major Ibiapina e o major Newton Cruz, figuras que depois ficariam conhecidas como homens duros do regime militar instaurado no Brasil em 1964.

Cumprido o período militar e voltando à vida de paisano, Inaldo fez vestibular para engenharia civil. Um detalhe triste é o falecimento de seu Austricliano, pai de Inaldo, dia do vestibular. Mesmo assim, passou em terceiro lugar.

Já cursando a faculdade, Inaldo fez concurso para o Banco do Brasil, sendo aprovado. Designado para trabalhar na cidade de Limoeiro, não desistiu da faculdade. Todos os dias, saía de casa às 5 horas da manhã, cumpria o expediente em Limoeiro até uma hora da tarde e voltava ao Recife para cursar a faculdade.

Em 1966, passou em concurso da Petrobrás como engenheiro, indo trabalhar na Bahia. Entusiasmado com a campanha “O petróleo é nosso”, acreditava que estava prestando um grande serviço à Pátria. No começo de 1968, porém, pediu demissão e voltou para o Recife. Na Bahia, conheceu Maria, que viria a ser a sua esposa.

Em 1968, foi trabalhar no Serviço Federal de Processamento de Dados (SERPRO), onde ficou 9 anos, alguns dos quais morando na cidade maravilhosa do Rio de Janeiro. Pediu demissão do Serpro para fazer mestrado em Economia, na Universidade Federal de Pernambuco. Antes mesmo de terminar o curso, já era professor colaborador da instituição.

Por conta disso, em 1979 ganhou uma bolsa para fazer o doutorado em Economia, na França, para onde levou a família. Voltou da França em 1982, já como professor assitente da UFPE (fez o concurso antes mesmo de terminar o doutorado).

Só quando se aposentou da UFPE, em 1992, é que Inaldo resolveu retomar de forma mais intensa a sua relação com a música. Voltou a estudar e começou a compor. Sua primeira música nessa nova fase, por sinal, foi um frevo-de-bloco em homenagem ao Coral Edgard Moraes, gravada pelo grupo, em 1999, no seu primeiro disco.

Apesar do curto período como compositor ativo, hoje, Inaldo tem em torno de 400 composições, entre frevos-de-bloco, frevos-de-rua, choros, maxixes, tangos brasileiros, valsas, polcar e suítes. São quatorze CD’s gravados por contra própria e distribuidos entre os amigos comprovadamente apaixonados pela música popular brasileira. Os únicos discos à venda e que podem ser encontrados na Livraria Cultura, no Recife Antigo, são os cds “Valsas Pernambucanas”, gravados pelo pianista Fernando Muller. No CD nº 1, inclusive, consta a valsa “Dona Carminha”, feita em homenagem à sua mãe, Maria do Carmo Lima Moreira.

Do casamento com Maria, nasceram três filhos: Iúri, jornalista e músico amador, e Maíra e Moema, gêmeas, formadas pela UFPE e professoras por concurso do Conservatório Pernambucano de Música e da Prefeitura de Olinda. Maria, por seu lado, é professora de História do Estado e canta no Coral do Bloco da Saudade e no Coral Stallo.

Na sua casa, no bairro do Cordeiro, construiu e Praça do Choro e se auto denominou o seu prefeito da mesma. É lá que recebe os amigos chorões e compositores conhecidos daqui e de todo o Brasil.

Uma vida intensa de um compositor retardatário e compulsivo.

Na foto: Inaldo Moreira no programa “Trem das Onze”, na Rádio Universitária AM do Recife. Foto: Cida Machado/2011

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