A sustentabilidade desejada do bem viver andino de Evo

A sustentabilidade desejada do bem viver andino de Evo

Por Elissandro Santana, Porto Seguro, para Desacato.info.

O capitalismo naturalizou a concepção de que a Terra é uma coisa, um baú de recursos. Desde a Primeira Revolução Industrial na Inglaterra até a Revolução Técnico-científica atual, a práxis ideológica do homo economicus tem sido o uso, a depredação, o esgotamento e o assassinato do Planeta. Poucos escapam a essa lógica e em meio a tudo isso o modelo capital suplantou a vida e interferiu, profundamente, nos imaginários do que seria desenvolvimento.

Faz-se imprescindível e urgente romper com essa concepção da Terra como banco de bens infinitos que, para Boff, é resultante do espírito científico moderno, inaugurado no século XVI. Essa não é uma tarefa fácil, dado que estamos prenhes da epistemologia do pensar por meio do lucro e essa ideologia do lucro, finalidade máxima do capitalismo, alcança todos os setores da vida – da fé ao amor. No bojo cultural da vida dominada pela ótica capital, os contratos da exploração da existência começam mesmo antes das cópulas e não se rasgam completamente mesmo depois do último suspiro. Como afirma Morin, na pós-modernidade, vivemos de morte e morremos de vida.

Quebrar esse círculo de insustentabilidades é a saída para outra realidade planetária, entretanto, frente a uma sociedade envolvida pelo conceito de desenvolvimento como crescimento de produtos internos brutos, aumento do poder de compra e de outras questões, inviabiliza-se até a capacidade de imaginar a sustentabilidade global.

No livro “Ecologia: grito da terra, grito dos pobres. Dignidade e direitos da Mãe Terra”, Boff, ao discorrer sobre a ecologia profunda e integral, apresenta-nos os elementos desencadeadores das insustentabilidades quando afirma que a crise atual é a crise da civilização hegemônica, do nosso paradigma dominante, do nosso modelo de relações sociais, de nosso sentido de viver preponderante. De forma indagativa, ele coloca que os sentidos primordiais das sociedades mundiais são o progresso, a prosperidade, o crescimento ilimitado de bens materiais e de serviços, apropriados individualmente e sob o regime da competição e da mercantilização de tudo.

Mas e como se alcança esse progresso tão perseguido e sonhado pelas sociedades hodiernas? Boff responde que o homem conquista tudo isso mediante a utilização, a exploração, a potenciação de todas as forças, das energias da natureza e das pessoas. O grande instrumento para isso é a ciência e a técnica que produziram o industrialismo, a informatização e a robotização. Esses instrumentos não surgiram por pura curiosidade, mas da vontade de poder, de conquista e de acumulação.

O quadro ambiental do mundo nos mostra que a crise ecológica é consequência da crise do paradigma civilizacional. Conforme Boff, na atitude de estar por sobre as coisas e por sobre tudo, parece residir o mecanismo fundamental de nossa atual crise civilizacional. Isso tudo, segundo ele, é de uma suprema ironia, pois a vontade de tudo dominar nos domina e nos assujeita aos instrumentos técnicos que criamos e que degradaram a Terra. A utopia de melhorar a condição humana piorou a qualidade de vida. O sonho de crescimento ilimitado produziu o subdesenvolvimento de dois terços da humanidade, a volúpia de utilização ótima dos bens e serviços da Terra levou à exaustão dos sistemas vitais e à desintegração do equilíbrio ambiental.

Boff também nos esclarece algo deveras importante, que tanto no socialismo quanto no capitalismo se corroeu a base da riqueza, que é sempre a Terra com sua riqueza natural e o trabalho humano. Para ele, hoje a Terra se encontra em fase avançada de exaustão e o trabalho e a criatividade, por causa da revolução tecnológica, da informatização e da robotização, são dispensados, precarizados, e os trabalhadores excluídos até do exército de reserva do trabalho explorado.

É diante desse caos que tomou corpo a discussão sobre a necessidade da sustentabilidade, mas, na maior parte das vezes, todo esse discurso não passa de retórica. Reconhece-se o retórico “sustentável” pintado de verde à distância, sem muitas análises e é preciso combater esse novo mal do capitalismo que se camufla de ecológico em várias partes do globo. O capital se fez parecer sustentável conquistando até o apoio de ecologistas, os moderados, claro, aqueles que só compreendem a sustentabilidade a partir da gestão ambiental empresarial, como se a ecologia se reduzisse a isso.

Dentre os modelos e campos conceituais presentes em várias sociedades, estão os seguintes:

  • Modelo-padrão de desenvolvimento sustentável;
  • Melhorias no modelo-padrão de sustentabilidade;
  • Modelo do neocapitalismo;
  • Modelo do capitalismo natural;
  • Modelo da economia verde;
  • Modelo do ecossocialismo;
  • Modelo do ecodesenvolvimento ou da bioeconomia;
  • Modelo da economia solidária;
  • O bem viver dos povos andinos.

Todos esses modelos são apresentados no livro “Sustentabilidade: o que é, o que não é.”, de Leonardo Boff e precisamos entendê-los, para criticá-los, aceita-los, aperfeiçoá-los ou destruí-los, caso seja necessário.

            Esses modelos e padrões recebem muitas críticas, com exceção do bem viver cultural andino, pois ele é visto como um paradigma libertário que pode nos ensinar a sustentabilidade em perspectivas reais.

Acerca desses modelos, Boff traz as seguintes considerações:

  1. O modelo-padrão de desenvolvimento sustentável possui uma sustentabilidade retórica. Foi gestado a partir da Revolução Científica do século XVI, aprofundado com a Primeira Revolução Industrial, o grande ideal da Modernidade. Ele não se sustenta, pois para ser sustentável, o desenvolvimento deve ser economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto;
  2. Melhorias no modelo-padrão de sustentabilidade. Houve analistas e pensadores que se deram conta do vazio desse tripé. Ele não contém elementos humanísticos e éticos;
  3. O modelo do neocapitalismo. Nesse há a ausência da sustentabilidade.
  4. O modelo do capitalismo natural. Esse desenvolve uma sustentabilidade enganosa;
  5. O modelo da economia verde. Sustentabilidade fraca. Atualmente, configura-se como a retórica do capitalismo para se pintar de ecológico;
  6. O modelo do ecossocialismo. Alcança certo nível de sustentabilidade, no entanto, de forma insuficiente;
  7. O modelo do ecodesenvolvimento ou da bioeconomia. Uma das vertentes da sustentabilidade possível;
  8. O modelo da Economia Solidária. Desponta como microssustentabilidade viável, mas não contempla a complexidade do fator sustentável;
  9. O bem viver dos povos andinos. A sustentabilidade desejada.

Levando-se em conta que para alguns estudiosos, pensadores e ativistas ambientais com capacidade holística de análise, no bem viver dos povos andinos encontra-se o modelo para pensar a sustentabilidade que o mundo precisa, a partir daqui, discorrerei um pouco sobre o que seria esse bem viver.

Segundo Boff, curiosamente, vem dos povos originários uma proposta que poderá ser inspiradora de uma nova civilização focada no equilíbrio e na centralidade da vida. Os Povos Andinos que vão desde a Patagônia até o norte da América do Sul e do Caribe, os filhos e filhas de Abya Yala são originários não tanto no sentido temporal, mas no sentido filosófico, aqueles que vão às origens primeiras da organização social da vida em comunhão com o universo e com a natureza.

Em alguns de meus trabalhos sobre a sustentabilidade no bem viver, busquei compreender as experiências político-ambientais de Evo na Bolívia e no povo andino de modo geral, tentando mostrar que o bem viver é um sonho possível, portanto, podendo ser realidade, mas, para isso, a sociedade capital precisa acordar. O problema está nesse ponto, no despertar. Infelizmente, muitos morrerão defendendo o modelo exploratório da vida, o capitalismo, pois não conseguem enxergar além desses limites. Esses cidadãos seguem sob a ilusão e eterno desejo de potência, do ser melhor que o outro.

No bem viver de Evo na Bolívia, de Cuba, de Butão há respostas que precisamos para a sustentabilidade possível e necessária, mas os de mentes capitalistas não conseguem compreender isso e, diante dessa incapacidade, isolam-se em redomas de rechaça a todas as experiências que nos chegam dessas nações. O grito da direita reacionária brasileira “Vai para Cuba!” é prova cabal do desprezo à sustentabilidade. Esse ódio a Cuba vai além das questões políticas, é um reflexo de algo ainda mais profundo. Em relação à Bolívia também há muita arrogância do Brasil, tanto é que o preconceito das elites paulistas e paulistanas a esse povo chega a assustar.

Tudo isso poderia ser diferente, mas, para isso, são necessárias rupturas em campos diversos. No bem viver de Evo, presidente indígena de nossa irmã Bolívia, temos um ponto de partida para outros valores, mas não sei se o brasileiro conseguirá sair dos liames do pensar estadunidense e eurocêntrico.

No bem viver boliviano, por exemplo, há elementos importantes que explicam o que é a sustentabilidade real, mas para a compreensão desse fenômeno, devemos mergulhar no pensamento do povo andino e de Evo. A partir da leitura do “Vivir Bien” de Evo, perceberemos que a crise ambiental pela qual passa a Bolívia e todo o Planeta é fruto do capitalismo que confundiu desenvolvimento com exploração do petróleo. Nesse sentido, Evo nos leva a entender que a crise energética nos obriga a pensar alternativas e, portanto, é imprescindível voltar a ser Qamiri. O regresso ao Qamiri nos possibilitará sair do modus operandi das sociedades do carbono.

Para entender o que é voltar a ser Qamiri, é necessário intelectar o que o documento “Vivir Bien” apresenta: frente a esta crise da civilização ocidental, na Bolívia, temos decidido voltar a nosso caminho, recuperar nossos valores, recuperar nossos códigos. Nós aymaras temos dito que temos que voltar novamente a ser qamiri. Qamiri é uma pessoa que vive bem. Os quechuas têm dito: temos que voltar a ser qhapaj. Qhapaj é uma pessoa que vive bem. Os guaranis têm dito o mesmo: nós queremos voltar a ser iyambae. Iyambae é uma pessoa que não tem lei, é uma pessoa que vive bem, que se desenvolve naturalmente, sem estar submetida a ninguém. Nós temos dito em aymara que temos que voltar a nosso thaqi – caminho em espanhol. Em quechua, que temos que voltar a nosso yan. Temos que voltar a nosso tape, disseram os guaranis. Temos decidido voltar a nosso caminho, a esse caminho de equilíbrio, não somente entre as pessoas, mas, também, entre o homem e a natureza.

Enfim, com as experiências político-ambientais e sociais do bem viver andino na Bolívia, em Cuba e em outros poucos espaços, captamos outras lógicas e, dessa forma, a não consumir mais do que o ecossistema pode comportar, a evitar a produção de resíduos que não podemos absorver com segurança. Esse modelo de vida nos incita a reciclar e a reutilizar tudo o que tivermos usado com um consumo reciclável e frugal, para evitar a escassez.

Retomando Boff, com o bem viver, perceberemos que já não é possível manter o padrão da acumulação, do crescimento ilimitado e linear. Ele nos mostra que há um antagonismo entre nosso paradigma hegemônico de existência e a preservação da integridade da comunidade terrestre e cósmica. Por tudo isso, a mudança de rota é melhor para nós, para o ambiente, para o conjunto das relações do meio ambiente e do ser humano, para o destino comum de todos e garantia de vida das futuras gerações. Para isso, devem ser feitas profundas correções e também transformações culturais, sociais, espirituais e religiosas.

Dessa mudança de percurso depende o nosso futuro e o bem viver nos mostra que é preciso vencer esse desejo de viver melhor para um viver simples, em harmonia com a natureza.

Para os que estão sob a égide do capitalismo, essa reflexão não passa de loucura, mas nos próximos anos teremos as provas definitivas de que a resiliência da terra se perdeu e aquilo que agora visualizam como loucura se tornará desejo, necessidade, só que será tarde demais! Pior de tudo, é essa arquitetura mental capitalista que inviabiliza a sustentabilidade, pois essa só será possível quando nossas arquiteturas mentais forem sustentáveis e, infelizmente, não é isso o que temos atualmente.

Hoje, mais que nunca, além de todos os problemas que enfrentamos em busca da sustentabilidade, precisamos combater a retórica do capitalismo pintado de verde e isso só ocorrerá com o design mental do bem viver sustentável andino.

Referências utilizadas para a construção do texto

 BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: o que é, o que não é. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

______________. Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres: dignidade e direitos da Mãe Terra. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

Bolivia. Vivir Bien: diplomacia por la vida. Ministerio de Relaciones Exteriores.

 

Imagem: Vida Boa.

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