A sociedade da doença no trabalho

Foto: George Becker, Pexels

Por Douglas F. Kovaleski, para Desacato. info.

Ainda sobre o Trabalho e sua infeliz relação com a saúde das pessoas, nesta semana irei tratar brevemente das transformações recentes no mundo do trabalho e seus impactos sobre a saúde da classe trabalhadora. Afinal, vivemos uma pandemia de doenças relacionadas com o trabalho ou com o mundo do trabalho silenciada pela academia, pela mídia e em grande medida pela própria classe trabalhadora.

A partir dos anos 1970, intensifica-se uma crise estrutural de acumulação capitalista, o que acarreta um conjunto de medidas de intensificação da exploração da mais-valia dos trabalhadores. Estas medidas redesenham a divisão internacional do trabalho e passam a contar com uma classe trabalhadora que faz grandes deslocamentos com certa facilidade, aumentando a vantagem relativa que os países capitalistas centrais têm em relação ao capitalismo periférico. Amplia-se o exército de reserva de maneira jamais imaginada. Dessa forma, os patamares salariais e as condições de vida da classe trabalhadora são cada vez mais rebaixados.

O proletariado industrial diminui devido à constante introdução de novas tecnologias e desloca-se para a periferia do sistema, onde a repressão é mais dura e lutar por direitos é um tanto mais difícil do que nos países centrais do capitalismo. Ao mesmo tempo, aumenta o número de trabalhadores e ocupados no setor de serviços, indústria e agroindústria na periferia do sistema.

No Brasil, a exemplo de vários outros países, a intensificação da exploração foi auxiliada pela repressão política, como no caso da ditadura civil-militar (1964-1985). Sistemas de produção just-in-time, kanban e programas de qualidade total auxiliaram fortemente na reestruturação produtiva e aumentaram significativamente a produtividade e a exploração dos trabalhadores. A remuneração por produtividade é outro dispositivo importante nesse contexto, e marca bem a perspectiva neoliberal de organização do trabalho e da vida nessa etapa neoliberal.

Os efeitos desse processo se materializam, de acordo com pesquisas realizadas, com grande aumento nos acidentes de trabalho, incluindo óbitos dos trabalhadores. Os adoecimentos com nexo laboral aumentaram muito nesse último período, e os adoecimentos por saúde mental estão tomando uma dimensão alarmante. Nesse caso, vale trazer alguns elementos que abrangem não apenas aspectos do neoliberalismo em sua relação direta com a atividade laboral, mas que se estendem para todas as dimensões da vida de cada pessoa nesse modo de produção. A competitividade neoliberal traz uma condição de guerra contra outro, uma eterna competição, superação e esforço irrefreáveis em busca de ser o melhor dos melhores.

A ideologia da competitividade separa, individualiza e coloca trabalhador contra trabalhador. Esta ideologia dificulta, e muitas vezes, inviabiliza a organização coletiva. Ela é um dos fatores que explica o esvaziamento dos sindicatos, das associações e o aumento do ódio como propulsor da política. Não se consegue mais reunir muitas pessoas em prol de um ideal de afirmação de valores humanos, mas facilmente se reúnem multidões contra alguém ou contra uma política.

Os elos de solidariedade e cuidado mútuos ficam cada vez mais escassos, tornando a vida um constante desamparo. O outro torna-se um inimigo a ser aniquilado, humilhado e rebaixado e isso caracteriza um período de intenso sofrimento humano, de angústia e de adoecimento mental. O simples viver torna-se um desafio, pois a ausência de perspectivas solidárias traz uma incompatibilidade radical com a vida e o suicídio tem sido a alternativa encontrada por um grande número de pessoas no Brasil e no mundo.

A classe trabalhadora precisa virar esse jogo e colocar uma perspectiva de vida diferente da que está sendo proposta pelo capital. A reprodução dos valores capitalistas é a principal derrota da classe trabalhadora, uma armadilha que tem o totalitarismo como único fim.

Douglas Kovaleski

Douglas Francisco Kovaleski é professor da Universidade Federal de Santa Catarina na área de Saúde Coletiva e militante dos movimentos socais.

A opinião do autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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