A Reforma Agrária e o Brasil. Por Hélène Chauveau

Em 27 de setembro, pesquisadores e amigos do Brasil se reuniram em Paris para o simpósio “O Brasil precisa de reforma agrária” e manifestaram solidariedade com a comunidade do assentamento Osvaldo de Oliveira, ameaçada de expulsão e que tinha hospedado militantes da associação franco-brasileira AMAR.

Por Hélène Chauveau, da França, para Desacato. info.

Bonjour !

Eu sou Hélène Chauveau, sou pesquisadora, geógrafa, apaixonada por cultura e meio rural. Também sou francesa e eu fiz meu doutorado faz alguns anos na UFSC, em Florianópolis, com trabalho de campo no Extremo-oeste, no Planalto Catarinense e no Centro Serra (RS). Por isso eu conheço um pouco e eu me preocupo muito com o Brasil, mesmo morando agora na França.

Hoje eu quero agradecer a amizade franco-brasileira. Ela é forte, antiga, e permite organizar eventos como aquele que eu participei em Paris no dia 27 de setembro de 2019. Era um evento científico, que reuniu geógrafos, sociólogos, economistas, mas também ativistas e militantes, todos se definindo amigos do Brasil. O que é ser “amigo” de um país ? Chefes políticos e guereiros falam que são “amigos” de tal ou tal aliado que vende armas ou autoriza horrores com direitos humanos, muitas vezes por razões econômicas.

Mas aqueles amigos do Brasil que estavam presentes em Paris no dia 27 de setembro, eu acredito que eram amigos do Brasil por serem amigos do povo brasileiro em geral, e estavam reunidos pelo seu amor por as especificidades desse país do qual moramos longe, mas no qual nosso coração reside sempre um pouco. Por isso eles tinham decidido de se reunir para falar da reforma agrária, um assunto difícil e tenso, mas que toca cada brasileiro no seu cotidiano, por se alimentar e viver em paisagens e meio ambiente cujo são impactados por isto. Este aqui não vai ser um artigo científico, são só alguns elementos que me tocaram quando eu ouvi meus colegas cientistas brasileiros e franceses falarem sobre, e que eu quiz compartihar com os leitores do Desacato. Se tiver interesse em mais elementos, artigos dessas pessoas eles estão diponíveis on-line.

A pergunta desse dia de estudos era: “O Brasil precisa de uma reforma agrária? Rupturas e continuidades de um debate”, e era proposta pela associaçao franco-brasileira ARBRE – Associação para a Pesquisa sobre o Brasil na Europa (link aqui : https://www.arbre-asso.com/je-2019). Eu pessoalmente era convidada para falar dos vínculos entre práticas culturais da juventude rural e apego com a “terra”, tanto em movimentos sociais como Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Pastoral da Juventude Rural (PJR) como em movimentos tradicionalistas do tipo CTGs. Mas não é o assunto aqui. Esse dia de estudos començou com a fala de Leonilde Medeiros da UFRRJ que lembrou a história da reforma agrária no país, como ela não foi feita plenamente nem pelo PT e quanto o agronegócio se apropriou da questão da soberania alimentar. Ela lembrou também quanto os estudos de caso mostram a riqueza social e política dos assentamentos e que a agroecologia e modos de organização que eles desenvolvem é um modelo no mundo inteiro.

Leonilde acabou sua introdução falando que a criminalização da luta pela terra, o fim da noção de função social da terra e a autorização das armas no rural são coisas gravíssimas para o campesinato e o povo brasileiro em geral. Depois teve a fala do Hervé Théry que falou da volta da escravidão (seu Atlas muito rico esta disponível inteiro, gratuito e em português aqui : https://www.amazonia.org.br/wp-content/uploads/2012/05/Atlas-do-Trabalho-Escravo.pdf), e Delphine Thivet que apresentou o MST. Em seguida veio a fala do Sérgio Leite da UFRRJ sobre a financiarisação da agricultura no Brasil. O que me marcou na sua apresentação foi a demonstração do desmantelamento da política das terras, a liberalisação mas que não començou com o Bolsonaro, que começou desde 2016 que é a verdadeira ruptura no país. Num ambiente francês onde Bolsonaro é acusado de tudo que tem no Brasil, é bom lembrar que tudo começou com o golpe de 2016. Ele também apontou uma obsevação interessante de que quem luta hoje pela terra no Brasil não é mais em primeiro lugar os assentados e os movimentos camponeses e sim os movimentos indígenas que são mais presentes hoje nesse combate. Ele questionou então a invisibilização dos “sem terra”: teve decepção? despolitização? desmobilisação? Entraram em outras lutas? É bom fazer a pergunta mesmo se a resposta provavelmente não seja simples.

Finalmente, tive os sociólogos Yannick Sencebé e Jean Pierre Tonneau que descreveram quanto para eles o Brasil é o archetipo da dualidade da agricultura, com o agronegócio de um lado e a pequena agricultura familiar de outro. Eles lembraram o quanto foi importante a reforma agrária feita especialemente entre 1995 e o segundo mandato do Lula, e quanto a aliança entre movimentos, bases etc, intelectuais, permitiu fazer avançar muito a noção de papel social da agricultura familiar e permitiu contruir políticas de appoio.

Mas quando a esquerda chegou “no governo” (e não exatemente “no poder” porque as bancadas seguem firmes), essa grande reforma agrária não aconteceu. Eles analisaram isso como um defeito ideológico que colocou a agricultura familiar em uma situação de dependência das ajudas e em um equilíbrio precário hoje ameaçado. Nesse momento o agronegócio se organizou e començou a ir para cima das terras indígenas e ao mesmo tempo os movimentos camponeses començavam por alguns a se dividir sobre questões de venda de terras, tanto que hoje o discurso deles é deslegitimado. Para Y. Sencebé e J.-P. Tonneau, hoje o Brasil precisa menos de uma reforma agrária mas de uma consolidação da agricultura familiar, de mostrar que pode ser uma escolha de vida, de incentivo a instalação de jovens camponeses com modelos alternativos.

Precisa lutar pelos modelos alternativos que oferecem no interior um espaço de vida, precisa de experimentação social, educação popular, trabalho de base, desenvolvimento local. Para esses sociólogos, o MST, por exemplo, deixou isso de lado e foi um erro grande e ele tem que refazer um trabalho ideológico e de base. Para eles, o movimento agroecológico pode ser precursor nesse trabalho de convergência das lutas, na inclusão das minorias, na reflexão sobre ruralidade como outra relação com o mundo.

Então, porque somos amigos, às vezes falamos coisas para o outro que ele não quer ouvir. Porque são coisas difíceis, críticas que põem em causa certidões que o amigo tem. Mas eu acredito que nesse caso são coisas necessárias, e que são formuladas por amigos que querem bem ao Brasil que todos amamos, o das lutas sociais, o da agroecologia e da agricultura familiar.

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Helene

Hélène Chauveau nasceu em 1989 numa zona rural do oeste da França e foi estudar geografia rural em Lyon. Em 2014 ela initiou um trabalho de pesquisa sobre cultura e juventudes rurais e camponesas no Brasil e na França. Ela defendeu seu doutorado na UFSC e na Université Lumière Lyon 2 em 2017. Desde entao ela continua pesquisando com estudos rurais e tambem trabalha em movimentos de educacao popular franceses.

A opinião do autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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