A primeira mala a gente nunca esquece

Foto: Pixabay

Por Luciane Recieri, para Desacato.info.

A primeira mala a gente nunca esquece. Não venha me corrigir e dizer que é o primeiro sutiã que não se esquece que é mentira mal lavada, sutiãs são rédeas, mas as malas… Que alegria secreta é comprar a primeira da vida!

Minha mãe nunca foi de mandar recado. Uma vez, infeliz com a casa em que morava, se mudou assim que meu pai saiu pro ralo diário. Convocou a criançada da rua pra ajudar com os cacarecos. À noite, meu pai precisou procurar pela vizinhança e lá estávamos, instalados com varal e fogão. Não estranhem, naquele tempo tudo era a palavra, não havia contrato, fiador nem nada. A casa em que nasci foi assim também. Moramos por 11 anos só na confiança. O dono era o espanhol Francisco Arias, um dos melhores adultos que conheci, nunca cobrou um aluguel e deixava que meu pai pagasse quando pudesse ou no décimo-terceiro, além disso sempre gostou da criatividade de minha mãe todas as vezes que transformava a casa de duas janelas na alegria do Caminito: quando enjoava da cor comprava umas bisnagas de Xadrez e pintava tudo, mas não era isso que eu queria dizer.

Queria falar da mala. Então… Minha mãe sempre dizia, quando brigava com meu pai, que se ela tivesse uma mala iria embora:

– Não vou sair por aí com os molambos num saco. Que falta de dignidade! Se vai embora tem que ter pelo menos uma boa mala.

Ela nunca foi embora pra nossa sorte e graça. Até hoje faço galhofa com ela perguntando se quer uma (boa) mala. Ela está velha agora. Meu pai também, de modo que tenho ficado muito com eles e percebi que ela anda com medo de ir embora, diz que tem medo de morrer.

Comprei uma boa valise pra ela levar suas coisas na última internação. Que lixo de vida, – nunca lhe dei uma boa mala pra viajar ou fugir de casa – penso agora que a morte é uma mala de papelão com alça pinçada a arrebite que a qualquer hora solta e nos deixa a mercê no meio da rua, com nossos molambos à mostra, escova de dentes, pó compacto, as meias… Tenho medo da morte também, mas da morte deles. Preciso acreditar que a morte é a mala necessária para irmos pra um país melhor que esse. Ando com medo de viver.

Luciane RecieriLuciane Recieri é cientista social e escritora, em Jacareí /SP

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