A política para a superação da alienação

Imagem: Editora Boitempo

Por Douglas Kovaleski, para Desacato. info.

No texto dessa semana irei abordar sobre as possibilidades de superação da alienação e seguir, nas próximas semanas, alternando textos que aprofundam a temática da alienação em sua relação com a saúde, com possibilidades de ruptura dessa alienação e perspectivas transformadoras de superação da sociedade do capital. Afinal, é preciso fomentar a esperança entre os trabalhadores em tempos tão difíceis como vivem-se no Brasil.

A política pode ser definida como a mediação entre o estado presente e o estado futuro da sociedade. Assim, as referências ao futuro são integrantes de suas categorias. Segundo Mészáros, em seu livro A Teoria da Alienação em Marx, a política de caráter conservador apresenta o caráter mediador, o autor percebe isso como algo intrínseco à própria política. O que não ocorre sem diferenças, pois os conservadores não podem explicitar o devir (futuro), na mesma intensidade que os progressistas. Pois explicitar um projeto que almeja privilégios e concentração de riquezas e poder, não agrega um grande número de pessoas (que em sua imensa maioria estão fora do círculo dos privilegiados por dinheiro e poder), pois não se pauta em valores humanos, positivos e solidários. As posturas conservadoras, invariavelmente concentram-se no presente, ou num futuro breve, orientando-se apenas pelo pragmatismo, pelo desejo imediato e pela superficialidade nas análises porque não têm conteúdo. Planejar, por exemplo, é uma prática de origem socialista e é apropriada pelo mercado de maneira muito distorcida.E essa é uma vantagem para o campo crítico à sociedade do capital: defender justiça social e repartição, comunhão, igualdade de condições. Apesar de hodiernamente percebermos pessoas sem vergonha de defender a posição meritocrática, individualista e anti-solidária como ideal político. O que ocorre em detrimento das pessoas, do meio ambiente, da vida ou do bem-estar humano. Essa argumentação beira à ingenuidade, mas precisa ser retomada, pois espalha-se pela urbe um senso de democracia confuso. Onde, sob a égide de respeito às diferenças, somado a uma pretensa negação da censura o que, na cabeça de muitas pessoas, constrói automaticamente a liberdade de expressão. Esse não é o foco desse texto, mas penso que não se pode permitir que se fale contra a humanidade, a solidariedade, o bem comum, a vida e contra a justiça social, a isso denomino banalização dos valores. E essa banalização aumenta conforme aumenta a despolitização, o desinteresse por assuntos coletivos e a implicação das pessoas com o planeta, com a vida, com os outros seres humanos, com as gerações futuras e com elas mesmas.

Voltando à mediação, Mészáros afirma que a economia não se utiliza da categoria mediação, pois ela se tornaria utópica e perderia seu caráter pragmático, imanente ao capitalismo. A superação do capitalismo, portanto, não pode se alicerçar apenas na economia, ela precisa recorrer à axiologia, à moral e fundamentalmente à política, com substantivo uso da categoria emancipação em sua acepção política.

Para Marx, nos Manuscritos Econômico-Filosóficos, o termo para caracterizar a “suplantação” que mais se aproxima da economia, sem limitar-se a ela, é “associação”. Entretanto, por causa do seu caráter amplo, e extremamente abrangente, constitui-se em um princípio político geral visto como referência para uma economia socialista. Para que ele seja considerado um princípio econômico socialista, deve estar relacionado a questões políticas e morais, tais como: igualdade, emancipação de todas as qualidades e sentidos humanos, terra como propriedade do ser humano. A “associação”, para Marx, pode ser de vários tipos:

– algo que pertence à estrutura econômica existente (por exemplo: “vantagens econômicas da propriedade fundiária em grande escala”);

– associação como garantia contra as crises econômicas.

É por meio das referências a questões morais e políticas que a categoria associação ganha seu caráter marxiano – o que acontece com marcado caráter antagônico com as aplicações corporativas do termo – que a coloca como princípio básico da economia socialista. O método marxista precisa dessa relação entre questões econômicas, políticas e morais. E essa é uma condição para a caracterização do caráter socialista marxiano. O que equivale a dizer que a análise isolada de apenas um desses aspectos: econômico, moral ou político; não servem para a transcendência positiva da alienação.

Marx inicia sua teoria por uma análise econômica como base teórica de uma ação política. A transcendência, no entanto, não se dá por essa ação política, ela se dá em seu caráter definitivo, para Marx, na esfera da produção. A ação política cria as condições gerais que não são idênticas à suplantação real da alienação, mas são um pré-requisito dessa.

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Douglas KovaleskiDouglas Francisco Kovaleski é professor da Universidade Federal de Santa Catarina na área de Saúde Coletiva e militante dos movimentos socais.

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