A pizzaria, o capital e a greve geral

Publicado em: 22/06/2017 às 20:13
A pizzaria, o capital e a greve geral

Por Elaine Tavares, com foto de Rubens Lopes.

O capitalismo é como um bicho voraz, um sistema sem controle. E quem entra nessa órbita está perdido. Sair é quase impossível. Ali, o que manda é o lucro, não há espaço algum para coisas “prosaicas” como vidas humanas. Tudo fica submetido ao ganhar mais e mais.

Um exemplo concreto disso é uma pizzaria que tinha aqui no meu bairro. Ela era perfeita. Um lugar bem “simplinho”, de toalhinhas quadriculadas. Uma pizza boa, grande e barata. As mesas de plástico e os donos como atendentes. Simpáticos e queridos.  Como requer o mercado, aquele do cara a cara, no qual o que vende precisa do que compra.

O entorno cresceu, vieram os condomínios, a clientela começou a inchar. Aí, o que era só uma pizzaria começou também a servir churrasco, e depois almoço completo. Vieram mais clientes, e vieram os garçons. O negócio expandiu. Os donos já não atendiam mais. O lugar, que era simples, começou a exigir reformas. Era preciso atrair os novos moradores, endinheirados.

Então, um belo dia, a pizzaria fechou. Estava em obras. Duas semanas se passaram e ela reabriu. Já não era mais a mesma. As janelas de madeira velha foram substituídas por vidro temperado. As mesas de plásticos sumiram, vieram as de madeira de lei. Novas cadeiras, novas luminárias e o banheiro virou puro chiquê. Os pratos cresceram, os talheres mais apresentáveis e o cardápio recheou de novidades.

É claro que as reformas e as novidades tiveram um preço. E a velha pizza que a gente comia, grande e barata, diminuiu de tamanho e aumentou de preço. Os garçons, uniformizados e com aquelas caras homogêneas, simpáticas, mas um pouco artificiais, atendem com eficácia, mas não exibem familiaridade. O lugar que era amigável e aconchegante tornou-se sofisticado e frio. “A gente tem de progredir”, diz o dono, satisfeito com as melhorias.

E é assim. O capital é orientado para a expansão e acumulação, não tem como controlar. O dono do negócio busca o lucro e quando ele vem, é preciso fazer mais lucro. Então a coisa vai crescendo, crescendo e crescendo. Incontrolável. Não tem como o empresário ficar ali, pequeno, com sua pizza simples. A clientela vai chegando, vai exigindo, e ele, para não perder o cliente, precisa se adaptar. Então, precisa de mais reformas, mais empregados, mais isso e mais aquilo. Não há espaço para “romantismos”  de simplicidade e amizade. É preciso produzir dinheiro.

Agora, pensem, se numa pizzaria de bairro a coisa é assim, imagina como é numa grande empresa? Por isso o capital não tem pátria, não tem coração, não tem compaixão. Nada fica no seu caminho. E se algo se interpõe, ele tira, com violência. Precisa crescer. É como se fosse uma maldição. Mesmo os capitalistas estão subordinados, são os amaldiçoados, como um Midas, só que transformando o que tocam, não em ouro, mas em miséria. Porque não são eles os que produzem o valor, não são eles os que geram o lucro.

Quem produz valor é o trabalhador.  E para que o empresário cresça, e faça reformas, e aumente os negócios e suba os degraus da glória, é preciso que o braço de quem trabalha seja exaurido até mais não poder. Muitas horas no batente, salário de miséria. E o lucro transbordando dos baús do patrão.

É por isso que os deputados brasileiros, e os senadores – que são os empregados de um grupo bem importante de patrões –  estão aí, querendo mudar as leis que regem o trabalho.  Porque os “amaldiçoados” pelo capital precisam gerar mais lucro, mais dinheiro, mais lucro, mais dinheiro.  E isso só é possível com mais exploração dos trabalhadores. Então, há que tirar a hora do almoço, há que aumentar a jornada, tirar benefícios, fragilizar, provocar o medo. Ou isso ou se acaba o trabalho. Essa é a ameaça. Então, as pessoas, temendo perder o emprego, chegam até a fazer passeata de apoio às reformas, como aconteceu numa triste marcha chamada “para Jesus”.

O fato é que se é o trabalho que gera a riqueza, os trabalhadores não precisam dos patrões. O capital depende do trabalho, mas o trabalho pode existir sem o capital. Então, quem tem, de fato, o poder? São os trabalhadores. Se os braços não trabalham, o capital colapsa. Ocorre que o sistema capitalista de produção criou um mito, muito difícil de destruir, de que quem manda é quem tem os meios de produção: ou seja, os patrões. Isso não é real. É justamente o contrário. Quem manda é quem tem a força de trabalho, o que gera valor.

Assim, a fórmula parece bem simples. Esse 1% que pegou para si os meios de produção, precisa ser desapropriado deles. Porque essa é uma riqueza roubada. E o roubo, todos sabem, não é legal.

Dito isso, é tempo lutar. Primeiro, impedir que o capital avance sobre os direitos dos trabalhadores. Barrar o Congresso. Depois, é preciso ir derrubando todos os outros “castelos” inventados pelo capital. São de areia, não se sustentam. Precisam da força dos trabalhadores para serem reais. Se a força é retirada, eles caem, como as muralhas de Jericó.

Então, pra começar, todos à greve geral, esperando que ela se transforme numa greve cívica, de um povo inteiro. E que, nessa marcha pagã, de trabalhadores, se possa dar o recado bem dado.  O poder é de quem trabalha.

Fonte: Palavras Insurgentes.

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