A opinião do respeitável público alguns dias depois da defesa à liberdade de importunar

Catherine Deneuve, uma das assinantes da carta. Gregor Fischer/DPA, via Agence France-Presse — Getty Images

Por Francieli Borges, de Santa Maria, para Desacato.info.

Li em um texto da Eliane Brum*, no final de 2017, algo que pipocou na cabeça seguidas vezes: os direitos das mulheres sobre o seu corpo, disse ela, seguirão sendo atacados em 2018. Os direitos às suas mentes, também, mas de formas mais capciosas. Veja bem, os direitos às suas mentes, também, mas de formas mais capciosas. Para mim, foi imediato associar esse ponto quando vi a repercussão da carta aberta de algumas francesas, traduzida com o título Defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual, há alguns dias, a respeito do que várias pessoas entendem como puritanismo ou impossibilidade de flertar. Isso desaguou em uma série de posicionamentos relativistas, francamente conservadores – de pessoas de esquerda – sobre os feminismos.

A carta aberta que mencionei, como muitos tiveram a oportunidade de ler na íntegra, transita entre o afrontoso e o ridículo, ainda assim, ou talvez por isso mesmo, agradou muito. A liberdade do desejo, tantas vezes levantada ali, desconsiderou inúmeros relacionamentos homoafetivos, por exemplo, que podem, graças às discussões dos últimos anos, finalmente pautar espaços públicos. Esse mesmo posicionamento também não parece dar muita importância à gradual transformação entre homens e mulheres, que têm vivido, no mais das vezes, relacionamentos em que simplesmente a palavra e bem-estar da mulher são considerados. Esses desejos foram oportunamente esquecidos.

Ainda, quando o texto se refere à ausência de liberdade de flertar, nesse jogo retórico em que o leitor se vê obrigado a andar de mãos dadas com a opinião ali exposta, porque simplesmente não se considerará um cerceador, não só o que está na discussão é a tentativa de reafirmar o autoconsentimento tácido dos homens sobre as mulheres, como ainda levanta a delicada questão da chamada vitimização. O que alguns chamam de caça às bruxas, no que diz respeito a situações de assédio e outras violências, outros, felizmente, entendem como coragem e mudança de mentalidade. Parece nada acuado ou exageradamente traumático o ato daquela mulher que expôs para mundo todo que sofreu abuso sexual do próprio pai, conhecida figura pública, para marcar um posicionamento acerca de coisas que não podem mais acontecer. Impossível deixar de considerar que a noção de liberdade das signatárias dessa carta é bastante obtusa.

A resolução parece muito simples e, a princípio, não careceria de melhores explicações: quem não quiser ser responsabilizado por abusos, apenas não os faça. No entanto, as pessoas se esforçam para que os caminhos sejam mais complicados. O que dizer, por exemplo, da parcela de progressistas que viu “uma luz no fim do túnel”, conforme li em um reconhecido jornal, a partir desse amontoado de linhas incoerentes? Mais gente do que eu gostaria de admitir está sempre pronta para defender “o direito dos homens”. Em um país onde o absurdo que é ejacular em uma mulher em um ônibus ainda é uma pauta que precisa ser explicada, muitos julgam que as pessoas andam sensíveis demais. A esquerda jamais gastou tanto um termo liberal quanto o detestável politicamente correto – sem ver qualquer problema nisso. Aliás, a coisa mais fácil ultimamente tem sido se colocar favoravelmente à posição dessas 100 mulheres francesas: retirem das críticas que têm saído as tolices, os lugares comuns, o ranço e os galicismos para ver o que sobra.

*As mulheres que dizem não, texto de Eliane Brum. Link para acesso: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/25/opinion/1514215938_126857.html

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