A obra de Dércio Marques por Dani Lasalvia, Cao Alves e João Omar

Dércio Marques. Foto: Divulgação
  

O disco “Recantos – Ao apanhador de cantigas” é um projeto de uma vida inteira. De três vidas – a cantora Dani Lasalvia e os cantores, multi-instrumentistas e compositores Cao Alves e João Omar – que se unem para homenagear um terceiro, o bardo, compositor e apanhador de cantigas Dércio Marques.

Sobre Dércio, escrevi certa vez, lá se vão mais de 20 anos, um pequeno texto que, para meu orgulho, foi usado pelo artista na página inicial de seu primeiro site, como forma de apresentação:

Dércio Marques é uma lenda para poucos. Acerta em cheio. É um dos artistas mais inusitados deste país tão criativo. Viaja por todo o canto onde houver um canto para aprender ou mostrar. É uma verdadeira enciclopédia viva da cultura popular brasileira. Quando resolve gravar, chama todos os amigos que estiverem ao alcance, incluindo aí as crianças e os passarinhos.

Faz festas do povo e com o povo, não simplesmente discos. É um trovador errante, com uma visão própria de construção de carreira. Não tem nenhum sucesso de rádio ou televisão. Mas lá se vão muitos anos deste mundão de Meu Deus que ele funciona como um pulmão que ajuda a soprar canções direto de sua nascente. Tem uma voz belíssima que sempre se soma às festas e reisados. Canta com a nossa voz, a voz da nossa gente.

Junto com Dércio, conheci na época vários músicos que viajavam com ele. Aos mais afeitos a grupos musicais ou bandas organizadas, é difícil explicar do que se tratava. Era um bando de amigos que dormiam nas casas de outros amigos por onde passavam. Tocavam nas condições mais adversas e, quando isso acontecia, reproduziam algumas das melodias, interpretações, folguedos e canções mais maravilhosas que esta minha vida repleta de discos e canções já ouviu.

Um desses músicos é o Cao Alves, baiano de Vitória da Conquista, terra de Elomar Figueira Mello, mestre do violão, excelente cantor e compositor, pesquisador das nossas tradições populares, enfim, um artista completo. Aquele tempo de cantorias e viagens nos aproximou pro resto de nossas vidas.

Cao Alvez e João Omar. Foto: Divugação

Um que chegou em seguida foi o João Omar. Este só vi em palcos e concertos. Menino prodígio, carregava até então o título de filho de Elomar. Com o passar do tempo, construiu seu nome como grande músico, exímio intérprete e compositor, violonista e violoncelista de mão cheia. Com tudo isso, acabou assinando os arranjos e a direção musical do álbum.

Dani Lasalvia. Foto: Divulgação

Dani Lasalvia, uma das Vozes Bugras (lindo esse nome, não?), chegou um tanto mais pra frente e encantou de saída. É daquelas vozes que todos param pra falar quando alguém coloca o disco. Não só pelo seu timbre belíssimo como também pela capacidade de escolher, compreender e interpretar o que canta.

O acaso, para a nossa sorte e emoção, fez com que estes três artistas encantados se juntassem para homenagear Dércio. Não tenho ideia se alguém que nunca ouviu falar de nenhum dos envolvidos perceba o impacto emocional das gravações de “Recantos – Ao apanhador de cantigas”. Mas tenho quase certeza que sim.

Nele estão algumas das joias garimpadas ou criadas por Dércio. As recriações ficaram, algumas vezes um tanto reverentes aos arranjos originais, noutras tantas um pouco distantes. Em todas elas, no entanto, aparece a essência da intenção da obra tão rica de Dércio, sua capacidade de redescobrir cantos, seu violão criativo, tão influenciado por Elomar, da Bahia, como também por Atahualpa Yupanqui, em Buenos Aires.

E foi como se tivesse feito um risco entre esses dois pontos – e tudo o que entre eles convergia – que o disco foi construído. O álbum conta com obras de músicos como Heitor Villa-Lobos (“Ária”, “Cantilena”, “Bachianas Nº 5”), Elomar Figueira Mello (“Curvas do Rio”) e Djavan (“Lambada de Serpente”). A linda “Le Tengo Rabia al Silêncio”, de Atahualpa Yupanqui; “Mourão de Cerca”, de Zé Maria Giroldo e a comovente recriação para “Riacho de Areia”, folclore do Vale do Jequitinhonha, entre muitas outras.

Há algo além na maneira de tocar e cantar estas canções no disco “Recantos – Ao apanhador de cantigas”. Uma entrega emocional rara a cada nota, uma certeza tamanha de estarem, cada um dos três, lidando com coisas eternas e intensas.

Canções que nos moldaram enquanto nação, processadas pelo filtro de um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos. E que, agora, são recriadas magistralmente um tanto mais à frente, como que redesenhadas por elos de uma mesma corrente, por mãos da mesma ciranda.

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