A nova cara da praça Santos Dumont

Texto e Foto: Manuela Lenzi  e Marília Marasciulo. 

Em meio ao barulho de carros, ônibus e pedestres que circulam pela Trindade, próximo ao campus da UFSC, fica um lugar silencioso e arborizado, a praça Santos Dumont. Conhecida pelos estudantes como a praça do Pida, por causa do bar que funcionava ali até um ano atrás, ela agora parece ter sido esquecida. Uma ou outra pessoa circulam por ali, e o antigo bar – totalmente depredado – agora abriga moradores de rua. O cheiro nauseante de urina, fezes e bebidas alcoólicas, além da intimidação dos mendigos, torna a praça um lugar pouco convidativo para a comunidade. “Que é que vocês estão tirando foto aí, ô?”, grita um deles, nervoso.

O estudante de Direito Alexandre Ferreira está sentado em um dos bancos, junto com seu avô, José Benedicto, de 96 anos. Ferreira, que mora em São José e estuda na UFSC, conta que costuma levar o avô para passear na praça.” Antigamente, quando existia o barzinho, a gente vinha, tomava um refrigerante, tinha mais movimento. Querendo ou não, nos sentíamos mais seguros. Agora, ela está muito mal cuidada”,lamenta.
Os moradores da Trindade também perceberam isso e buscaram ajuda da UFSC na elaboração de um plano de revitalização da praça. Após uma solicitação feita por representantes do “Movimento Pró- Revitalização da Praça Santos Dumont e Entorno”, em 2010, um primeiro diagnóstico foi feito pelos estudantes do Curso de Arquitetura. No final de 2011, ele deu origem ao “Projeto arquitetônico e paisagístico da Praça Santos Dumont”, que está sendo desenvolvido por três estudantes do curso.
Até agora já foram dados passos importantes. Primeiro, foi feito um levantamento da vegetação, mobiliário, e dos usos e fluxos de quem utiliza a praça. A partir disso, os estudantes estabeleceram algumas soluções para integrá-la melhor à comunidade. A principal delas é nivelar o caminho principal, que passa pelo meio da praça, e tornar o local mais acessível para o uso dos pedestres. Ainda pensando nisso, as esquinas da praça foram modificadas para que aqueles que desejam “cortar caminho” passem por ela. O projeto também prevê a reserva de um espaço adequado para a Festa da Santíssima Trindade e para a feira semanal.
É interessante ressaltar que tanto o movimento quanto o projeto arquitetônico preveem a revitalização não só da praça, mas também de seu entorno. Soluções aparentemente simples podem melhorar o trânsito na região: o canteiro da rótula, por exemplo, poderia ser reduzido para dar mais espaço ao fluxo de veículos; e as faixas de segurança, que hoje estão na entrada da rótula, trancando o trânsito, seriam incluídas ao final do passeio por dentro da praça e deslocadas para alguns metros antes da rótula.
Existe um fator, porém, que pode gerar contradições. A comunidade é contra a instalação de estabelecimentos dentro da praça – como antigamente havia o Bar do Pida. Atualmente, uma ação civil pública promovida pelo Ministério Público de SC visa à retirada e demolição de quatro estabelecimentos instalados na praça, para que o espaço possa ser recuperado pela comunidade.
O que falta para a revitalização

A Associação FloripAmanhã, através do programa “Adote uma Praça”, está buscando parcerias privadas para financiar o projeto desenvolvido pela UFSC. Mesmo com a colaboração da construtora GPinheiros e das lojas do entorno da praça, a presidente da FloripAmanhã, Zena Becker, ressalta que a maior dificuldade é arrecadar o dinheiro necessário. O valor total da revitalização ainda não foi calculado. Para Zena, outro empecilho é que a prefeitura alega não ter recursos para arcar com as despesas. “É uma área pública, seria uma obrigação eles bancarem. Todas as praças já revitalizadas só foram possíveis com investimento privado”, desaprova.
A Fundação Municipal do Meio Ambiente (Floram) destaca que a Prefeitura Municipal vai dar todo o apoio, assim como as licenças necessárias para o início das obras, mas que espera pela decisão do Juiz para a derrubada do Bar do Pida. Sobre o problema dos moradores de rua que ocupam o interior do estabelecimento, o chefe de departamento da Floram, Alfredo de Queiroz, revela que ainda não existe uma solução, e alega que eles ficarão ao encargo da Paróquia da Santíssima Trindade.
Clique na foto e conheça o projeto de revitalização
 Busca por parceiros
Além da UFSC, o movimento busca a participação de parceiros para o desenvolvimento do projeto, em uma Parceria Público-privada-comunitária. Dela, participam, por enquanto, Associação FloripAmanhã, a Associação de Moradores do Bairro da Trindade (AMBaTri), o Conseg-Trindade, a Prefeitura Municipal de Florianópolis, a Igreja Matriz da Trindade, a Construtora GPinheiro e o Trindade Shopping – o objetivo é buscar cada vez mais parceiros, conforme explica um dos membros da AMBaTri, Élzio do Espírito Santo Oliveira.

A parceria vai funcionar assim: os parceiros se colocam à disposição para auxiliar na implantação do projeto, sem financiá-lo diretamente. A GPinheiro, por exemplo, forneceu o levantamento topográfico. Segundo o representante da construtora Marco Scoz, eles vão ajudar prestando consultoria e, se for o caso, levantando fundos. “Indiretamente, é claro que há custos financeiros para nós”, explica Scoz, embora ressalte que tratam-se de serviços normalmente prestados pela empresa. De acordo com Oliveira, ainda não é possível dimensionar qual vai ser a responsabilidade de cada colaborador.
Até agora nada foi formalizado. Um termo de adoção/cooperação deve ser assinado pelos parceiros em julho, para então ser apresentado à PMF, que deve autorizar o projeto. Também em julho, o anteprojeto deve ser entregue pelos estudantes de Arquitetura. Com ele será possível fazer uma avaliação de custos para dar início às obras. Scoz, que auxiliará na avaliação, não é muito otimista quanto à isso: ele afirma que é um processo lento, pois depende da autorização e colaboração de diversos órgãos, além do entrave inicial de demolição dos estabelecimentos instalados na praça. “Precisa ser um negócio bem amarrado, para não perdermos tempo e dinheiro”, diz.
 Sobre o Pida
Faz quase um ano que o Bar do Pida, famoso entre os alunos da UFSC e UDESC, foi fechado. Em julho de 2011, o local foi interditado pela Secretaria de Serviços Públicos da Prefeitura de Florianópolis. O principal motivo para impedir o funcionamento foi a deterioração causada pelas festas realizadas pelos universitários.

O Ministério Público entrou com uma ação civil pública com pedido de liminar contra quatro estabelecimentos da praça. Além do Bar do Pida, também foram objetos da ação o Quiosque Girasol e dois comércios ambulantes de cachorro-quente.
Na ação, o Ministério Público ressalta que “as familias trindadenses, especialmente crianças e idosos, não podem contar com aquele espaço, seja para uma caminhada, brincadeira, ou mera contemplação do lugar e pessoas, pois não há equipamentos urbanos mínimos, que indiquem o cuidado dos órgãos públicos, tanto na manutenção e poda das especiais vegetais, quanto de bancos, passeios, etc. Este estado de abandono favorece a ocupação da praça pública pelos comerciantes e usuários de drogas, tornando o local totalmente inseguro.”
 Confira a situação atual da Praça

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