A música da periferia contra o fascismo

Publicado em: 14/05/2017 às 10:26

Por João Carrera.

O autoritarismo dos governos e precariedade dos serviços públicos nas periferias fertilizam o terreno para o surgimento de movimentos sociais e grupos combativos, engajados com as causas do oprimido. Movimentos como o MTST, MST, Vila Campesina entre outros, só existem dado à ineficiência do Estado em suprir direitos básicos como os de moradia ou subsistência rural.

Nas artes, isso não foi diferente. A Tropicália, o Rap e o Punk são só alguns exemplos de como pessoas se utilizaram da arte e de um modo de vida alternativo aos padrões impostos pelo capital para protestar contra regimes autoritários e ineficientes.

A atual conjuntura política fascista, a falta de investimento público nas periferias e a moral conservadora que regem nossa sociedade continuam a incentivar jovens a se rebelarem em sua arte e conduta por todo o país. Exemplos não faltam:

Na Baixada Santista (Litoral de SP) a banda de streetpunk Última Classe traz em seu repertório letras com ásperas críticas ao fascismo e à moral burguesa:

“Você acha que só agora o gigante acordou
Ignorando as lutas das quais nunca participou
Diz que o povo está nas ruas porque não aguenta mais
Mas reprova os movimentos sociais
Você julga e condena baseado em preconceitos
Ignora as causas e combate os efeitos
Se vê como elite esclarecida
Mas não passa de classe média emburrecida!”
(Trecho da música: É melhor se calar!)

Na capital paulista a cantora negra e periférica Sistah Chilli traz em sua música uma mistura de reggae, rap e soul com uma temática feminista contundente à esta moral machista e conservadora em que vivemos:

“Vou contar pra vocês a história da maria
Que desde o princípio condenada a costela de um otário!
De noite só trampava de dia nem dormia
E ainda era “taxada” de maria a vadia…
Que não tinha acesso a livros o que dirá de poesia?
E a sociadade aponta “ahhh maria a vazia”
(Trecho da música: Maria)

Na Zona Leste de São Paulo (uma das regiões mais violentas e sofridas da cidade) o grupo de rap Extremo Leste Cartel de ideologia comunista, expõe o genocídio da população negra nas favelas com rimas pesadas e diretas:

“Bala de um lado, bala do outro
Rá tá tá pipoco, caiu mais um corpo
É frequente, jovem preto sem antecedentes…
Vítima de uma polícia criminosa e homicida
Refém de um Estado fascista e homicida”
(Trecho da música: Alerta! Polícia na Favela!)

A banda paulista A Lanterna cujo o nome homenageia o clássico jornal anarquista dos anos 30, faz uma viagem entre o post punk e o hardcore, com integrantes militantes comunistas e anarquistas criticam o sistema opressivo do capitalismo com riffs, solos e graves que hora lembram os clássicos do 80’s:

“Manipulação, lavagem cerebral
Ódio do povão, servem ao Capital
Ouçam com atenção o que vamos falar
Destrua a enganação e a mentira faça queimar”
(Trecho da música Queime a Veja, destrua a Globo!)

Estes quatro exemplos são apenas uma pequena amostra do que tem se produzido musicalmente nas periferias de São Paulo, o número de artistas engajados aumenta na mesma proporção que os ataques à classe trabalhadora. Isso demonstra que ao contrário do que tentam alegar os golpistas, o povo sabe muito bem quais são as condições nas periferias (sobretudo aos negros, mulheres e homossexuais que são os que mais sofrem esta opressão).

Seria ótimo que um dia não houvesse tanta opressão e estes artistas pudessem expressar sua arte com letras românticas ou engraçadas (como ocorre com a maioria dos artistas das grandes gravadoras) mas enquanto esta utopia não se concretiza, a periferia irá resistir!

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Fonte: O Homem Livre.

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