A morte do jornalismo brasileiro

A morte do jornalismo brasileiro

Por Almir Albuquerque.

Brasil padece de certas questões históricas que caracterizam o nosso atraso em relação ao resto do mundo de forma muito marcante. Fomos o último país a abolir a escravidão, por exemplo, já nos estertores do século XIX. Mas nada demonstra mais a nossa tardança em nos modernizar do que o monopólio que algumas poucas famílias exercem sobre a comunicação nacional. O ápice dessa situação anômala foi a recente entrevista do famoso programa Roda Viva com o presidente ilegítimo, Michel Temer.

Alguns poderiam argumentar que o programa é de uma emissora estatal, não sendo, portanto, de nenhuma daquelas famílias que detêm os principais canais do país. Entretanto, os jornalistas escolhidos são conhecidos, primeiro, por trabalharem nas empresas privadas de comunicação, e, segundo, por ostentar parcialidade em suas colunas e em seus blogs. São todos alinhados com os interesses comerciais dos patrões, todos conservadores nos assuntos sociais e liberais na economia, sendo, portanto, publicamente simpáticos ao atual presidente ilegítimo e às suas políticas econômicas neoliberais. No entanto, em nome do bom jornalismo, ainda assim poderiam ter feito um trabalho mais profissional, isento, imparcial. Ou, para aqueles que não acreditam em imparcialidade jornalística, o âncora Augusto Nunes poderia ter variado mais na triagem dos participantes, escolhendo também colegas críticos ao governo para equilibrar a entrevista. Mas não…

Lógico: enquanto agenda cortes no social e no emprego que vão afetar milhões de trabalhadores e aposentados para as próximas décadas, sob o pretexto da crise, o presidente ilegítimo anunciou o aumento das receitas em publicidade que fazem a alegria das grandes empresas de mídia, onde por acaso trabalham os entrevistadores baba-ovos do último Roda Viva.

O nosso país está vivendo uma crise institucional que o golpe só fez piorar. Basta ver as manifestações populares agendadas para os próximos dias, as ocupações nas escolas, as indicações de greve geral para medir a insatisfação das amplas camadas de trabalhadores e estudantes… A crise econômica, por sua vez, previsivelmente será agravada pela escolha criminosa de políticas econômicas anacrônicas, como o pacote de austeridade neoliberal, o mesmo que o Brasil rechaçou nas últimas eleições desde a primeira vitória do PT. Diante deste cenário calamitoso, assistimos o maior exemplo de jornalismo chapa branca que os jornalistas das grandes mídias poderiam nos dar, conforme assistimos o resumo acima.

Dentre os seis convidados, cinco incitaram covardemente o golpe nos últimos meses, e um era funcionário da casa (TV Cultura), que também sofre influência e pressão do tucanato paulista.

Antes ferozes e deselegantes opositores do governo petista, dados a baixarias e mentiras, após o golpe, são capazes de pérolas do jornalismo como essa de Ricardo Noblat:

noblat

Os demais participantes são tucanos, apoiadores do livre mercado, pró-Washington, golpistas da pior estirpe e jornalistas prostitutos, que se vendem para ser porta-voz da ordem dos ricos e dos poderosos. Os mesmos que, por exemplo, bajulavam Eike Batista, e os deram as costas no mesmo momento em que o empresário fanfarrão, chamado de exemplo de empreendedorismo (com empréstimos camaradas do BNDES, claro) via seu império ruir como um castelo de cartas.

Se a entrevista começou com perguntas relevantes, embora os jornalistas tenham se contentado com as respostas sem questioná-las, a seguir a coisa ficou ridiculamente bizarra. Segundo G. Greenwald e Thiago Dezan, do Intercept Brasil:

A partir daí, o encontro decaiu para um nível tão fútil e constrangedor que foi preciso assistir à entrevista diversas vezes para crer no que os olhos viam. Com o passar dos minutos, ficava cada vez mais claro que o político e os jornalistas, que evidentemente o adoram, se inclinavam a um terno abraço coletivo. Quando a entrevista chegou ao terceiro bloco, já estavam todos gargalhando e rindo com considerável pujança das piadas insossas do presidente, como fazem empregados de baixo escalão na primeira semana de emprego para agradar o patrão. Assistindo à entrevista, era possível se sentir como uma mosca na parede de um coquetel de gala da família real, onde os convidados de honra – não completamente bêbados, mas relaxando à medida que incrementavam o nível etílico com taças e mais taças do mais requintado Chardonnay – exploravam os limites da decência no comportamento social.

Renato Rovai também se manifestou após a entrevista sobre a postura ridícula dos entrevistadores:

Tá osso falar que o Noblat fazia cara de apaixonado enquanto o Temer respondia as questões.

Que o Sergio D´Avila protestou por conta de o Temer não ter usado mesóclise.

Que o apresentador do Jornal da Cultura disse que um passarinho contou pra ele que o Temer vai escrever um romance.

Que o Augusto Nunes babava pra falar da Marcela Temer.

Que a Cantanhede quase não abriu a boca, quase que numa reverência ao entrevistado.

Ah, sim, e que tinha um tal de Caminoto também. Que como jornalista é um péssimo administrador….

Pra fechar com chave de ouro esse circo burlesco, após a entrevista, no clima de descontração com os jornalistas/tietes, Temer comete mais um dos seus sincericídios, ao agradecer pela “propaganda”!

Se antes alguém tinha alguma dúvida, agora podemos dizer com toda a clareza: está decretada a morte do jornalismo no Brasil.

Fonte: Panorâmica Social.

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