A mídia independente como instrumento educativo social de combate ao racismo ambiental no Brasil

Imagem: http://nobrasil.co/

Por Elissandro Santana, para Desacato.info.

É inegável que o Estado, durante séculos, negou justiça, amparo e reparação aos povos negros. Além disso, nada fez no sentido de combater a cultura branca da opressão, da violência e da intolerância contra todo e qualquer valor negro na sociedade, nas instituições religiosas.

É em meio a estas insustentabilidades político-cultural-racistas que desponta a mídia alternativa como um instrumento em favor dos oprimidos, dentre eles, os povos negros.

A maior parte das mídias alternativas, cidadãs ou independentes (sem mencionar os blogs porque geralmente são iniciativas individuais, com tom pessoal, não necessariamente jornalístico, e sem a pretensão de se tornarem veículos autossustentáveis, uma das marcas desta geração que está surgindo no jornalismo nacional[1]) está fora da lógica empresarial, por isso constrói e divulga a informação de forma ética, sustentável e responsável, com compromisso com os fatos que chegam às minorias como a população negra, a classe trabalhadora em geral, os/as LGBTS, os povos indígenas, as mulheres negras e outras categorias sociais que sofrem opressão. Elas são uma poderosa arma de combate, por isso, é preciso difundi-las para um espectro amplo de alcance social.

Por serem independentes, representam um espaço de produção de saberes e de fronteiras que possibilitam discursos críticos e libertários descristalinizadores de conceitos pré-concebidos fomentadores de estigmas e de isolamentos que dão sustentação e naturalização a todas as nuances do racismo, dentre elas, a mais nefasta de todas, e quase nunca percebida pelo tecido social – o racismo ambiental.

Com um enorme potencial referencial para debates nas redes sociais e nos processos de ensino e aprendizagem em todo o país, por meio desses espaços midiáticos, dialógicos por natureza, educadores e sociedade em geral, seja nos espaços formais de aprendizagem ou nas redes virtuais terão a oportunidade de levantar temáticas fundamentadas e discussões inter-transdisciplinares para a abertura de debates e outras formas de construção dialógica de saber a partir de um discurso crítico que propiciará o combate ao racismo ambiental e a toda forma de marginalização social produzida pelo Estado.

É importante considerar que nos campos informativo-midiático-dialógicos (televisão, rádio, internet) se produzem conhecimentos que podem implicar em mudanças de conceito, percepção e ação sobre as relações da sociedade no que tange às questões étnico-raciais. Nesse sentido, pode-se afirmar que as mídias independentes funcionam como contra-discurso ao jornalismo produzido pela mídia hegemônica, empresarial por essência.

No que concerne à mídia retrógrada, conservadora e a serviço dos grandes empresários, historicamente, tem-se comprovado, sem muito esforço, que ela, na contramão da valorização da diferença étnica, estigmatizou, marginalizou e folclorizou discursivamente o povo negro, como o fez com os povos indígenas e outros segmentos sociais, difundindo o conceito obsoleto de superioridade racional através de suas práxis comunicacionais de exclusão. Ela é racista até na composição de seus quadros profissionais, tanto que possui pouquíssimos negros em suas bancadas de jornais, programas de debate jornalístico e em outros programas, isso quando possui.

À guisa de consideração final, ao pensar o papel da mídia independente no Brasil dos golpes e no desserviço prestado pelas mídias empresariais, é interessante recorrer a Chomsky para compreender o papel que a mídia tradicional ocupa na política contemporânea e, diante dessa consciência perguntar-nos como combatê-la, além de indagar-nos em que tipo de mundo, de sociedade queremos viver e, sobretudo, em que espécie de democracia estamos pensando quando desejamos que essa sociedade seja democrática.

O grande linguista, filósofo, cientista político e ativista social, a partir do que se afirma acima, nos convida a contrapor duas concepções diferentes de democracia e uma delas considera que uma sociedade democrática é aquela em que o povo dispõe de condições de participar de maneira significativa na condução de seus assuntos pessoais e na qual os canais de informação são acessíveis e livres.

Sem ser pessimista, mas se não fizermos uso das mídias alternativas, difundindo-as, infelizmente, cada vez mais, teremos um povo idiotizado, portanto, alienado pela mídia hegemônica, incapaz de interpretar e analisar os fatos nestes tempos medonhos nos quais estamos inscritos.

[1] Informação obtida a partir do site: https://apublica.org/mapa-do-jornalismo/#_

Elissandro SantanaElissandro Santana é professor da Faculdade Nossa Senhora de Lourdes, membro do Grupo de Estudos da Teoria da Dependência – GETD, coordenado pela Professora Doutora Luisa Maria Nunes de Moura e Silva, revisor da Revista Latinoamérica, membro do Conselho Editorial da Revista Letrando, colunista da área socioambiental, latino-americanicista e tradutor do Portal Desacato.

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