A Medeia contemporânea de Grace Passô

Imagem: Reprodução

Grace Passô, empunhando uma cópia de seu livro Mata teu pai (Cobogó, 2017), disparou, voltando-se para a plateia: “Preciso que me escutem!”. A frase, na verdade, é dita por Medeia, voz narradora da obra, que encontrou no corpo da autora uma maneira de se aproximar do público que acompanhava a mesa “Poço de Cima” durante o quarto dia da 17ª Festa Literária Internacional de Paraty — Flip.

Ao longo de trinta minutos, Passô protagonizou uma encenação da peça que, ao mobilizar a segunda pessoa gramatical, chamava os ouvintes para dentro do texto: “Vocês estão escutando tudo o que estou falando?”.

Na mitologia, Medeia é expulsa da Grécia e, para se vingar de seu marido, mata os próprios filhos. No texto de Passô, Medeia ganhou contornos contemporâneos. No monólogo, no Auditório da Matriz, falou sobre o homem que a violentou e a fez sofrer. As outras personagens, todas cúmplices, todas mulheres — a síria, a cubana, a paulista, a judia, a haitiana —, também eram evocadas.

Após ser aplaudida de pé por aqueles que assistiam, Grace Passô dividiu o palco com o escritor e compositor José Miguel Wisnik, mediador da mesa e também autor convidado da 17ª Flip. Para Wisnik, Passô “é uma escritora que escreve para a voz”, e cujos textos a fazem “entrar em cena ou alterar a cena”.

Segundo a escritora, essa é uma característica de sua obra que ressoa um “desejo de fazer com que o ato teatral, a experiência artística, nos lembre radicalmente de que estamos vivos”. E continua: “Pensar que estamos vivos pode parecer uma coisa óbvia, mas não é, porque vivemos em uma sociedade que nos mata de diversas maneiras diariamente”. A dramaturga reiterou que, assim como a segunda pessoa, que em sua performance serviu de gatilho para o engajamento do público, há em outras peças de sua autoria uma série “de mecanismos que nos fazem pensar que estamos aqui”.

Ao expor os aspectos que admira na obra de Passô, Wisnik destacou que ela “se coloca como identidade em movimento, não uma afirmação, mas uma procura. É uma voz que procura um corpo, não um corpo que busca uma voz”.  Em resposta, a escritora afirmou: “A arte faz com que as identidades sejam outras. O teatro é um lugar no qual se estudam técnicas para desenvolver a escuta, também um lugar em que se experimenta a carne”.

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