A mãe sereia, uma crônica

Foto: Marcos Labanca/H2Foz

Por Fernanda Cunha.

“Uma mãe, cujos filhos são peixes”. Soa estranho para muitos, mas é esta a definição de uma das divindades mais cultuadas no Brasil. Neste dois de fevereiro milhões procuraram as águas para pedir, agradecer e homenagear Iemanjá.

Sim, é ela a mãe dos peixes, Ye-omo-ejá, na língua africana, é também a mãe de todos nós. Para os místicos ela representa o poder da geração, a “Grande Mãe”, o “Sagrado Feminino”, a “Dona dos Oris (cabeças)”. Para outros é uma santa, Nossa Senhora dos Navegantes. O fato é que Iemanjá arrasta uma multidão de apaixonados, devotos, curiosos e toda sorte de gente que procura sua proteção.

No Brasil as religiões africanas ainda sofrem com a marginalização e a estereotipagem, decorrentes da falta de conhecimento e dos longos anos de lavagem cerebral. Se o berço da nossa civilização é a África, por que denegrir sua cultura e suas divindades? Foram aqueles que ajudaram na formação deste País que trouxeram o culto aos orixás, antes deles também havia por aqui somente o culto às forças da natureza. Era o que faziam os povos nativos.

Orixás são forças. Água, vento, terra, chuva, tempo, ar… E acredite ou não, cada ser humano tem o seu. Digo isto porque durante muito tempo acreditei que tudo era apenas mitologia e diga-se de passagem, uma mitologia bela e riquíssima, que merecia ser mais conhecida. Certo dia, uma experiência incomum me fez mudar o pensamento. Até faz lembrar Caetano, com Milagres do Povo… “Quem é ateu e viu milagres como eu, sabe que os deuses sem Deus não cessam de brotar, nem cansam de esperar (…)”.

Pelas mãos de uma índia fabulosa, cujo olhar até hoje guardo na memória, mergulhei numas águas frias e calmas, com um balanço leve e ritmado. Assim, bem devagar fui obtendo algumas respostas que há muito procurava. Por fim, com os pés e as mãos molhadas descobri que tenho uma mãe que é sereia.

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