A leitura na fonte única é atraso na vida política

Por Waldemar Rossi.

Infelizmente, no Brasil, se tem o péssimo hábito da leitura em fonte única. Isto tem muito a ver com antigas orientações, por exemplo, das leituras bíblicas, que só deveriam ser feitas e interpretadas por padres e pastores, supostamente entendidos na matéria. Mas nos vem também das cartilhas escolares em que as lições nos ensinavam a ver no fazendeiro um ser acima de qualquer suspeita, merecedor de todo o respeito, porque era superior em dignidade, conhecimento e em autoridade.

Hoje, se somos leitores do jornal “A” ou “B”, seguimos apenas as suas informações. Se não temos o hábito da leitura cotidiana, seguimos as cartilhas da TV ou do rádio, todos eles instrumentos da incultura capitalista. Pois não é que fazemos o mesmo em relação às orientações políticas, sindicais e religiosas? Só gostamos de ler o que nossos chefes nos indicam e pronto. Só neles acreditamos e os colocamos acima de quaisquer suspeitas.

O conjunto da população brasileira não conseguiu ainda enxergar “os sinais dos tempos”, sugeridos há dois mil anos por Jesus Cristo (independentemente de nossas crenças), e segue se comportando como se o mundo dos humanos não passasse por rápidas mudanças, sobretudo econômicas e sociais. Se estamos ou estivemos vinculados a determinado partido, temos sérias dificuldades em aceitar outras versões dos fatos que não aquelas passadas por nossos gurus, como, aliás, acontece na maioria das igrejas, sindicatos e movimentos populares. A palavra dos chefes é sempre a última e digna de aceitação.

Entretanto, em se tratando da política, tal comportamento favorece um único lado: o dos exploradores do povo. Nosso povo vai aceitando versões e mais versões dos fatos políticos e econômicos como sendo informações corretas e de interesse popular. Não tem o saudável costume de pesquisar, de buscar outras fontes de informações, de comparar. Com isto, perde sua capacidade de perceber como os políticos de plantão mentem descaradamente a cada dia e a cada minuto do dia.

Por exemplo, há forte sensação popular de que a política está toda corrompida, de que os políticos são todos sujos. Mas os brasileiros já começam a discutir se irão votar em A ou B, sem se dar conta de que estarão votando em pessoas que, quando eleitas, irão defender os interesses dos poderosos, uma vez que são os ricaços que financiam suas campanhas eleitorais (salvo raríssimas exceções). Depois de eleitos, os compromissos populares de campanha se tornam “bravatas” de oposicionistas, como nos informou Lula no início de seu governo.

No final dos anos 80, o povo, “bem informado” pela rede Globo, engoliu Collor de Mello e depois teve que vomitá-lo. Depois, seguindo a mesma cartilha, elegeu FHC e seu Real, e assistiu de braços cruzados a entrega de todas as empresas estatais LUCRATIVAS para o capital privado, principalmente para o estrangeiro, roubando descaradamente a nação brasileira. Pior, depois o reelegeu, sempre “orientado” pela mídia burguesa.

Bem, chegou finalmente a era Lula. Havia, porém, uma grande diferença: Pela primeira vez na história deste país o povo elegia para presidente da República – instância política mais elevada do país – um operário, filho de camponês do Nordeste, migrante, um homem sofrido, um líder sindical.

Este, segundo o povo, entendia das necessidades do seu povo e iria governar para mudar o país.

Erramos novamente. O governo formado por Lula apontava para a continuidade da política do seu antecessor, FHC. Cumpria as promessas feitas aos donos do capital em sua “Carta aos Brasileiros”, descumprindo e se “esquecendo” das promessas feitas ao povo durante toda sua vida política (32 anos no sindicato, no PT e na CUT).

Deu continuidade à desnacionalização da economia, autorizou a produção de sementes geneticamente modificadas, apoiou por omissão a ampliação do uso dos agrotóxicos, não combateu o desmatamento, arrochou salários do funcionalismo público da base (sem mexer com os altíssimos salários dos de cima), tirou dinheiro das áreas sociais (saúde, educação, reforma agrária, saneamento básico, meio ambiente), ampliou o pagamento dos serviços da Dívida, favorecendo banqueiros nacionais e internacionais, promoveu reforma na Previdência ferindo direitos dos trabalhadores, entre tantas outras medidas de submissão aos interesses do capital.

Em troca, reservou um punhado de reais para minorar, um pouquinho apenas, a miséria de alguns milhões, sem mexer nas estruturas de forma que se possibilitasse tirá-los definitivamente da miséria. Ganhou um novo curral eleitoral. Foi reeleito e, de quebra, elegeu sua sucessora. Agora seria diferente: a mulher no comando e as coisas iriam, definitivamente, mudar, porque a mulher é mais sensível, é mãe e ainda mais: foi presa e torturada pelos algozes da ditadura. Mas nada mudou.

Mudaram alguns nomes do comando da política econômica, mas não mudou sua orientação. O grande maestro da economia é o Guido Mantega, que fazia parte da equipe econômica de Lula e que ilude o povo a cada vez que passa qualquer informação sobre a conjuntura econômica.

Infelizmente, o governo Dilma continua seguindo a cartilha do poder econômico, sem coragem de mexer nas estruturas que possam tirar este país da rota do abismo em que foi colocado e em que é mantido, apesar de todas as evidências.

Porém, muita gente ainda não consegue buscar informações em fontes diferenciadas e continuamos acreditando que Papai Noel existe e que algum dia nos trará um lindo presente!

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.

Fonte: http://www.correiocidadania.com.br

1 COMENTÁRIO

  1. A diversidade política deste gigante sulamericano é inversamente proporcional à sua biodiversidade.
    Pelo menos é a conclusão a que se chega quando se faz uma panorâmica na blogosfera autodenominada progressista.
    Existem apenas meia-dúzia de produtores de conteúdo e uma miríade de replicadores dessa maia-dúzia.
    Por exemplo, tomemos o recente caso do Paraguai.
    Fiz uma rápida pesquisa no meu leitor de feeds – onde concentro um leque razoável de blogs, jornais eletrônicos, etc, das mais diferentes correntes (que, como disse antes, são poucas).
    Apenas um veículo – um!! – noticiou o Paraguai entre fim de fevereiro e o golpe.
    Por que fim de fevereiro?
    Por que foi no fim de fevereiro que um grupo de brasiguaios veio ao Brasil – a Brasília – para participar de uma reunião da Comissão de Relações Exteriores do Senado e lá suplicar pelo apoio do governo brasileiro às demandas dos brasiguaios. Na época – como rápida pesquisa na Internet mostra – o tema foi razoavelmente debatido.
    É claro que o governo não podia fazer nada em nome da autodeterminação dos povos.
    Mas isso já não era um indício forte de que a situação era explosiva?
    Como disse antes, só um veículo, nesse intervalo, produziu algumas matérias sobre o Paraguai, uma especificamente sobre o conflito de terras – que depois acabou se revelando ser senão a causa, pelo menos a desculpa oficial para o golpe.
    Os veículos supostamente progressistas silenciaram, como o fazem frequentemente com questões “delicadas” (era o modelo de agronegócio brasileiro que, afinal, estava em questão)
    Depois, golpe consumado, uma verdadeira tsunami de artigos (sempre na mesma lógica de multiplicação de poucos artigos) com todo o leque de posições que se espera de veículos autodenominados de esquerda.
    Se pararmos para pensar, quantas questões, nacionais e internacionais, estão neste momento silenciadas, seguindo o mesmo padrão.
    Depois de alguns anos de exposição a esse estado de coisas, é desanimador constatar que as alternativas ao famigerado monopólio da mídia, são raras, talvez mesmo, raríssimas.
    É verdadeiramente desanimador.
    Desculpem o comentário fora do padrão 250 palavras.

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