A invisibilidade da pobreza ou sua naturalização

Foto: Ben Kerckx/Pixabay

Por Evânia Reich, para Desacato.info.

Eu gostaria de começar esse artigo falando do trabalho de uma grande antropóloga americana, que dedicou parte de sua pesquisa no Brasil. Nancy Scheper-Hughes é uma antropóloga americana que trabalhou no Brasil nos anos de 1964 à 1967 e de 1982 à 1990. Sua pesquisa foi realizada em Pernambuco, em uma favela chamada Alto do Cruzeiro, situada nas colinas em torno de Bom Jesus. Deste trabalho resultou um livro publicado em 1992, nos Estados Unidos, intitulado “Death without weeping: the violence of everyday life in Brazil”. Se aqui fosse traduzido, deveria ser chamado “Morrer sem lágrimas: a violência na vida cotidiana no Brasil”. O livro nunca foi traduzido, mas tornou-se leitura obrigatória no mundo inteiro para aqueles que se interessam pela pobreza e violência no Brasil e no mundo. A celebridade do livro pode ser percebida quando teclamos no google.com o nome “Alto do Cruzeiro” ou “Bom Jesus”. A primeira referência com a qual nos deparamos é o livro da escritora americana. O Brasil tem dessas pobrezas absolutamente invisibilizadas. Conhecemos sobre nós mesmos através de uma porta incrivelmente diferente: Bom Jesus ficaria quase fora do mapa, do google, ao menos, se não fosse através deste livro.

Deixe-me então falar de invisibilidade. Outro dia apresentei um trabalho em um simpósio internacional, onde fui questionada por alguns participantes estrangeiros sobre a questão da invisibilidade da pobreza. Muitos duvidaram desse termo e alegaram-me que em um país como o Brasil, com um índice de pobreza e desigualdade social tão importante, seria duvidoso ou implausível falar de invisibilidade social. Naquele momento fiquei meio acanhada e quase concordei com a dúvida colocada pelos meus interlocutores transnacionais. No entanto, fiquei pensando dias sobre a questão.

Voltei para o meu artigo apresentado naquele simpósio e comecei a perceber que a invisibilidade do qual eu me referia faria talvez mais sentido se eu falasse em naturalização da pobreza e naturalização da violência. Naturalização porque já estamos tão acostumados com um Brasil pobre e violento que nos parece que isso já não nos movimenta mais. Parece que caímos naquela frase fatídica pronunciada tanto pela classe dos dominantes, quanto pela dos dominados: “o Brasil não tem jeito”. Aceitamos a pobreza e a violência como condição que faz parte da nossa sociedade. Lamentável.

Não ficando muito satisfeita com a minha rápida abnegação ao termo invisibilidade voltei ao texto de Scheper-Hughes, essa antropóloga americana que dedicou anos de sua vida em uma das regiões mais pobres do Brasil, o nordeste profundo, o nordeste dos trabalhadores da cana de açúcar. O que Scheper-Hughes nos mostra em seu livro é a maior prova de que a miserabilidade no Brasil é invisível. A população de Bom Jesus é constituída de trabalhadores agrícolas nas plantações de cana de açúcar. Uma população que vive na pobreza, na precariedade, onde paira a fome, sede e doenças, as quais estão ligadas ao descaso com que as instituições públicas lidam com a situação da pobreza. Esses trabalhadores ora possuem trabalho na lavoura, ora não os possuem. Suas vidas são guiadas pelo ciclo da plantação e da colheita. Entre esses dois momentos os homens ficam sem trabalho. O pouco que ganham não é suficiente para alimentar toda a família durante o ano inteiro. E, portanto, quantos “Bons Jesus” existem por este Brasil afora que são invisíveis aos nossos olhos? Não aparecem nos noticiários, não fazem parte do Brasil que conhecemos, estão desaparecidos até em motores de busca como google.

Além de enfrentarem o desemprego, a fome e as doenças, muitas delas decorrentes da sub-nutrição, os moradores do Alto do Cruzeiro enfrentam o problema da violência. Violência perpetrada muitas vezes pela própria polícia local. Uma polícia que não poupa esforços para fazer desaparecer os corpos daqueles que sofrem com a miséria e o descaso institucional. Scheper-Hughes descreve o natal de 1990 como um dos exemplos desta violência institucionalizada. “Vários moradores da favela Alto do Cruzeiro, todos homens jovens, negros, com passagem pela justiça, por assalto, alcoolismo, vagabundagem, consumo de cola e outros pequenos delitos foram interceptados em suas próprias casas por homens de uniformes, os quais os levaram”. Não se sabia para onde. Algumas semanas mais tarde, os corpos dilacerados de dois dentre eles foram encontrados entre as plantações de cana de açúcar. A polícia então apareceu na favela para mostrar às famílias as fotos detalhadas dos cadáveres. “Como vocês querem que eu reconheça o meu homem nesta foto? ” Gritava histérica dona Helena, a esposa de um dos desaparecidos.

Diante de inúmeros exemplos como estes, a antropóloga analisa a maneira como a violência e a desumanização que ocorrem nas favelas constituem não somente fatores agravantes do sofrimento social para seus moradores pobres e miseráveis, mas igualmente como um discurso de justificação da violência armada exercida sobre os habitantes, em forma de repressão da polícia é comum na sociedade brasileira. Cada vez que uma criança ou um jovem de rua é visto como um incômodo ele é preso ou atacado pela polícia, ou o fazem desaparecer. E as pessoas não dizem nada, e quando o dizem é apenas para aprovar inteiramente essas agressões contra aqueles que são vistos como “os jovens bandidos”, os filhos dos outros. A arma mais poderosa do Estado é a sua capacidade em criar um consenso em seu favor no interior das classes que são suas vítimas.

Nancy Scheper-Hughes deixa claro como os corpos e a morte dos pobres podem se tornar invisíveis ou justificáveis nas zonas de pobreza extrema do Brasil. A questão da invisibilidade do sofrimento ligado à precariedade, ao desemprego, à exclusão e à pobreza aparece como uma caraterística estrutural do mundo contemporâneo, e o Brasil é um exemplo gritante.

Não tenho conhecimento do que aconteceu nesta parte do Brasil dos anos 90 até hoje. É possível que vários problemas os quais foram descritos por Nancy tenham sido amenizados, sobretudo com os programas de distribuição de renda implantados pelo governo do PT. No livro “vozes do bolsa família” o filósofo Alessandro Pinzani e a socióloga Walquiria Leão Rego mostram, através das vozes dos beneficiários do bolsa família, vivendo em regiões muito pobres do Brasil, como o Vale do Jequitinhonha, ou várias cidades e povoados do Estado de Alagoas, o quanto essa renda contribuiu para retirar uma grande parcela da população da sua miséria extrema. Apesar do bolsa família não ser considerado como uma solução definitiva para a pobreza e a fome, ele atuou e atua como uma medida paliativa emergencial.

Se queremos que a pobreza deixe de ser invisível é necessário que as vozes dos pobres façam sentido aos nossos ouvidos. As políticas públicas só virão se forem apoiadas pela classe dominante que insiste em invisibilizar aquilo que não dá mais para ocultar. Como bem aponta o filósofo francês Emmanuel Renault, a pobreza e a dominação são duas realidades dependentes porque toda forma de pobreza está ligada à dominação. A pobreza designa uma certa forma de vulnerabilidade à dominação e à violência na medida em que a fraqueza de recursos coletivos, o isolamento e até mesmo o colapso subjetivo que o caracterizam diminuem a capacidade de resistência. Por isso não podemos ficar aqui parados, como espectadores. Parece, no entanto, que em vários setores da esquerda, a crítica à pobreza tem menos reputação que a crítica à dominação, e a desqualificação política da problemática da pobreza se repercute sobre aquela do sofrimento social. Precisamos mudar isso. É urgente que a esquerda política e intelectual torne visível a nossa pobreza a fim de que ela constitua objeto de sérias políticas públicas.

Referências

REGO, Walquiria Leão e PINZANI, Alessandro. Vozes do bolsa família: Autonomia, dinheiro e cidadania. São Paulo: Unesp, 2013.

RENAULT, Emmanuel. Souffrances sociales: philosophie, psychologie et politique.Paris: La découverte, 2008.

SCHEPER-HUGHES, Nancy. Mourir en silence [La violence ordinaire d’une ville brésilienne]. In: Actes de la recherche en sciences. Vol. 104, septembre 1994. Le commerce des corps. pp. 64-80.

[avatar user=”Evania Reich” size=”thumbnail” align=”right” link=”file” target=”_blank” /]Evânia E. Reich é doutora em Filosofia pela UFSC – Pesquisa do pós-doutorado em Filosofia Política pela UFSC.

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