A indústria cultural e as “fábricas” do K-pop: suicídio entre jovens celebridades chocam fãs

Neste final de semana, Goo Hara, 28, foi encontrada morta em sua casa em Seul, na Coreia do Sul. Goo Hara não foi a única: este ano, outras jovens celebridades do K-Pop cometeram suicídio. Conheça a multimilionária indústria coreana e o adoecimento de jovens personalidades.

Imagem: Reprodução

K-pop, é uma nova “onda” cultural que vem tomando não só a Coreia do Sul, mas também o mundo, faz jovens fãs por onde passa. Esse novo “tsunami coreano” formado por bandas de jovens “quase perfeitos” também foi palco de algumas tragédias neste ano em curtos intervalos de tempo.

Não nos propomos a debater o caráter musical das produções de K-Pop nesta matéria, e sim as consequências de uma indústria que se apoia na juventude para lucrar e que faz sofrer uma legião de jovens que tem nessas figuras coreanas como um ideal.

Sulli, cantora de k-pop da banda F (x), tirou a própria vida aos 25 anos, chocando uma vasta comunidade de fãs. Outro ídolo do K-Pop havia se matado pouco tempo antes: o vocalista da banda SHINee e amigo de Sulli, Kim Jong-hyun, suicidou-se aos 27 anos. Neste final de semana, Goo Hara, 28, que havia ficado devastada com a morte de sua amiga Sulli foi encontrada morta em sua casa em Seul, na Coreia do Sul, e também há suspeitas de suicídio.


Sulli, cantora de K-Pop, se suicidou aos 25 anos. Jovens se sentem cada vez mais pressionados para serem “semideuses”

Este cenário dramático dos novos ídolos de K-Pop não se restringem aos grupos que fazem parte da nova febre da indústria cultural coreana, tampouco se restringem ao país onde vivem, apesar da Coreia do Sul ser um dos países que lideram o ranking entre as maiores taxas de suicídio do mundo.

A brutalidade contra os jovens cometida pela indústria cultural, em especial do K-Pop, aponta para o embrutecimento e destruição da subjetividade da juventude coreana, que dia após dia, tirando suas vidas, deixa um grito de socorro pra aqueles que ficam.

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Em matéria documental feita pelo jornal BBC, o caráter cruel desta indústria fica evidente e o nível de opressão dos jovens coreanos que se propõe a ser os novos “grandes ídolos” de uma geração também torna-se mais e mais evidente.

K-Pop: o que tem por trás do surgimento deste fenômeno mundial?


BTS, uma das mais famosas bandas de K-Pop do mundo

Em entrevista concedida à BBC, Stacy Nam, americana-coreana que trabalha com marketing internacional e relações públicas para a indústria da música, afirmou que há uma diferença bastante profunda entre o fenômeno K-Pop e a indústria cultural americana. Esta diferença reside no fato de que a industria cultura americana “caça talentos”, enquanto a coreana criou uma verdadeira fábrica do que chamam de “talentos”.

Na Coreia do Sul, empresas especializadas em montar essas “boy/girls bands” selecionam, em uma lógica similar à um emprego, jovens para compor um novo grupo musical e, a partir disso, treinam estes jovens e os moldam da forma como o mercado musical deseja comprá-los.

Moldar é uma palavra ainda bastante leve para o que de fato estas empresas fazem com os jovens: além de treinamento, esses jovens podem até mesmo passar por cirurgias plásticas pagas pela empresa, e nunca em forma de presente obviamente, para poder atingir padrões estéticos “ao gosto do público”.


Goo Hara, cantora de K-Pop, é encontrada morta em sua casa e há suspeita de suicídio

“No K-pop, se os candidatos são selecionados por uma empresa, ela cuida de tudo. Se você precisa de algum tipo de retoque – como melhorar os dentes, a pele ou até mesmo fazer uma cirurgia plástica – a empresa paga”, declarou Stacy Nam à BBC.

A intervenção é tamanha que muitos desses idols, como são chamados, não podem ter relações amorosas. Este nível de controle da vida pessoal e da subjetividade está associado à busca das empresas de criar um exército de jovens-mercadorias, que agradem seus clientes e que possam cumprir suas expectativas e fantasias.


EXID, um dos maiores grupos femininos de K-Pop

Em Seul, surgiram até mesmo escolas que treinam jovens para se candidatar à futuros ídolos e melhor competir dentro dessas empresas que criam essas bandas. Algumas famílias podem gastar até US$ 500 (cerca de R$ 2 mil) por mês nessas escolas.

Este novo mercado sul-coreano vem crescendo à níveis extraordinários, e chegou no ano passado à significar 18 trilhões de wons para a economia coreana, o equivalente à R$ 70 bilhões.

As fábricas de K-pop e a perspectiva da juventude

A cada dia as taxas de suicídio avançam e a morte de ídolos que nas redes sociais buscam se aproximar da “perfeição”, nos chama atenção para a degeneração social que o capitalismo impõe aos jovens.

Atualmente, a Organização Mundial de Saúde estima que ocorram 800.000 suicídios todos os anos no mundo, ou seja, a cada 40 segundos uma pessoa tira a própria vida. Em meio a crise profunda que se arrasta a mais de uma década, com cortes e ataques à direitos democráticos básicos, como educação e saúde, além do ascenso de uma extrema-direita populista pelo mundo que persegue negros, mulheres, LGBTs e toda a juventude que rechaça seus métodos.

O suicídio, um problema de Saúde Pública à nível internacional, não pode ser ignorado. Bem como suas consequências, sequelas e, principalmente, sua origem. A juventude, que se mostra vanguarda das lutas contra os ataques de governos pelo mundo, bem como protagonizou as batalhas em defesa do meio ambiente, carece e exige perspectivas de um futuro digno.

O sistema capitalista é culpado por cada morte de cada um dos jovens e trabalhadores que sucumbem à vida de miséria imposta por esse sistema. É preciso atacá-lo pela raiz para que seja possível construir um mundo onde a vida possa ser vivida e desfrutada em sua plenitude, e onde a arte possa ser livre e sem as amarras do capitalismo.

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