A guerra civil da Colômbia está chegando ao fim

Publicado em: 30/11/2013 às 09:35
A guerra civil da Colômbia está chegando ao fim

Por Immanuel Wallerstein.

270812_farc_epNa Colômbia, ocorre uma guerra civil contínua desde 1948. Agora parece que, finalmente, ela está chegando ao fim. E chega ao fim do modo como terminaram quase todas as outras guerras civis que duraram muito tempo. Um diferente contexto geopolítico, combinado com uma profunda sensação de esgotamento de ambos os lados, está permitindo que prevaleça uma combinação de compromisso, incerto e imperfeito. Este final é comparável ao fim da guerra na Irlanda do Norte e na África do Sul. Mas é algo que não está ocorrendo ainda e pode não ocorrer por algum tempo no Afeganistão, Síria ou Egito.

A guerra civil colombiana começou com o assassinato do candidato à presidência pelo Partido Liberal, Jorge Eliécer Gaitán, de quem se pensou que poderia ganhar as eleições de 1948. Nessa época, a Colômbia era um país agrícola e católico, em grande medida. Havia dois partidos reconhecidos amplamente: o Partido Liberal Colombiano e o Partido Conservador Colombiano. Os nomes mesmos replicavam uma divisão clássica entre esquerda e direita. Também refletiam a clássica divisão entre as forças católicas e as “livrepensantes”.

Durante os dez anos que se seguiram, as forças militares dos dois partidos se envolveram em lutas contínuas, particularmente nas áreas rurais, pelo controle da terra. Foi frequentemente que os soldados capturados foram assassinados de formas extremamente cruéis, sobretudo por parte das forças do partido conservador. O resultado foram 200 mil pessoas mortas em um período que chegou a ser conhecido como ” A violência”. Em 1958, os conservadores haviam ganhado mais ou menos, e impuseram um acordo aos liberais.

A calma restaurada não durou muito.  Em 1964, emergiu um movimento político marxista-leninista de dentro do relativamente pequeno Partido Comunista Colombiano e começou a efetuar ações guerrilheiras contra o sistema. Tomou o nome de Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC. Os primeiros anos da década de 1960 formam momentos em que movimentos semelhantes emergiram em muitos países latino-americanos. As FARC resultaram em um movimento que teve a capacidade de sobreviver por muito tempo – até hoje. Foram muitos altos e baixos. O importante é que transformaram a guerra civil até fazer com que ela girasse me torno de divisões mais fundamentais que o confronto inicial entre liberais e conservadores. A emergência das FARC fez com que os liberais construíssem uma coalisão de fato com os conservadores para se opor à guerrilha.

Nos anos 1960, os Estados Unidos consideravam as FARC o tipo de força contra a qual combatiam por todo o mundo, e deu ao governo colombiano seu apoio político e militar.

Com o colapso da União Soviética, os Estados Unidos focou sua atenção ao que considerava como uma guerra contra as drogas. Aqui também Colômbia foi crucial, dado que era um ponto de produção e transporte de drogas, particularmente de cocaína. Antes do 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos (e outros países ocidentais) etiquetou as FARC como organização terrorista.

Houve uma tentativa séria de colocar fim à guerra politicamente. Em 1984, o presidente Belisario Betancur fez um pacto com as FARC e permitiu a elas disputar as eleições como União Patriótica (UP). Porém, havia tantos líderes ativos da UP que foram assassinados pelas forças de ultradireita e pelos agentes do Estado, que os membros das FARC voltaram à guerrilha ativa  em 1986. Esta sabotagem do pacto, perpetrado pela extrema direita, pesou em todas as negociações subsequentes.

O presidente colombiano no período entre 2002 e 2010, Álvaro Uribe, se negou à ideia das negociações e lançou ações militares máximas contra as FARC, incluindo o feito de cruzar a fronteira dos países vizinhos onde e quando ele pensava que os líderes das FARC se escondiam. Quando terminou seu governo, ele foi sucedido pelo seu ministro da Defesa, Juan Manuel Santos. Consideravam Santos o linha dura que estava atrás de Uribe, mas foi quem esteve disposto a negociar.

O que para santos mudou foi o contexto político. Os Estados Unidos não podiam proporcionar a atenção militar que antes estavam oferecendo devido à sua própria decadência geopolítica. Santos, que sem dúvida é um dos melhores amigos dos Estados Unidos na América Latina, se fez consciente do surgimento das forças de esquerda e centro-esquerda na América Latina. Era o mais interessado em manter os vínculos econômicos com os Estados Unidos e pareceu pensar que trabalhando desde dentro, mais do que contra as estruturas autônomas sulamericanas e latinoamericanas, poderia ter mais possibilidades de espaço para o que ele considera mais importante. Se mostrou receptivo, então, às ofertas do presidente Hugo Chávez, da Venezuela, e inclusive de Cuba, para mediar. As negociações pareciam ser o melhor caminho.

Entretanto, as FARC não somente sofriam com o esvaziamento de suas forças senão de fatiga extrema, e repentinamente se dispuseram à negociar mais uma vez. Essas negociações estão ocorrendo há algum tempo em Havana. Em seis de novembro, o presidente Santos anunciou na televisão que o governo e as FARC haviam feito um acordo sobre um segundo ponto na agenda de negociações. O primeiro ponto, o desenvolvimento agrário, tinha sido resolvido no final de maio.

O segundo e crucial ponto está relacionao ao desarmamento e à participação na política eleitoral. Santos disse que um “acordo fundamental” tinha sido feito neste segundo ponto. Enfatizou que a Colômbia agora já não necessitava de outro meio século de guerra civil. O representante das FARC concordou. Há ainda um terceiro ponto sobre o narcotráfico, porém ninguém duvida que isso se resolverá.

A oposição ao acordo foi verbalizado em voz alta pelo ex-presidente Uribe. Porém, a opinião pública já não está do seu lado. E tampouco parece que os Estados Unidos vão se opor ao acordo que está por vir, posto que não querem deslegitimar a posição do presidente Santos, que, todavia, é considerado um bom amigo dos norte-americanos. As vozes da esquerda, internamente ou internacionalmente, também não são propensas a sabotar o acordo.

Quão vantajoso é este acordo para Santos, que é um neoliberal conservador, ou para as FARC, que são uma força de esquerda? É muito cedo para dizer. Mas parece que existe grande probabilidade de que seja um pacto que manterá. A guerra civil chega ao fim, como disse TS Eliot em seu famoso refrão, “não com uma explosão, mas com um gemido”. São esgotantes 65 anos de guerra civil. Alguém se pergunta quanta gente jovem na Colômbia poderia sequer reconhecer o nome de Jorge Eliécer Gaitán.

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ESPANHOL

La guerra civil en Colombia se aproxima a su fin

En Colombia ha habido una guerra civil continua desde 1948. Ahora, parecería que finalmente llega a su fin. Y está llegando a su fin del modo en que terminaron casi todas las otras guerras civiles que duraron largo tiempo. Un diferente contexto geopolítico, combinado con una profunda sensación de agotamiento de ambos lados, está permitiendo que prevalezca un arreglo de compromiso, incierto e imperfecto. Este final es comparable a otros finales semejantes en Irlanda del Norte y Sudáfrica. Es algo que no está ocurriendo aún y puede no ocurrir por algún tiempo en Afganistán, Siria o Egipto.

La guerra civil colombiana comenzó con el asesinato del candidato a la presidencia por el Partido Liberal, Jorge Eliécer Gaitán, de quien se pensó que podría ganar las elecciones de 1948. En ese entonces Colombia era un país en gran medida agrícola, en gran medida católico. Había dos partidos reconocidos ampliamente: el Partido Liberal Colombiano y el Partido Conservador Colombiano. Los nombres mismos replicaban una división clásica entre izquierda y derecha. También reflejaban la clásica división entre las fuerzas católicas y las librepensadoras.

Durante los siguientes 10 años las fuerzas militares de los dos partidos se involucraron en luchas continuas, particularmente en las áreas rurales, por el control de la tierra. Fue frecuente que los soldados capturados fueran asesinados en formas extremadamente crueles, sobre todo por parte de las fuerzas del partido conservador. El resultado fueron 200 mil personas muertas en un periodo que llegó a ser conocido como La violencia. Para 1958 los conservadores habían ganado más o menos, e impusieron un arreglo a los liberales.

La calma restaurada no duró mucho. Para 1964 emergió un movimiento político marxista-leninista desde dentro del relativamente pequeño Partido Comunista Colombiano y comenzó a efectuar acciones guerrilleras contra el sistema. Tomó el nombre de Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia, o FARC. Los primeros años de la década de 1960 fueron momentos en que movimientos semejantes emergieron en muchos países latinoamericanos. Las FARC resultaron ser un movimiento que tuvo la capacidad de sobrevivir largo tiempo; hasta hoy, de hecho. Fueron muchas sus altas y bajas. Lo importante es que transformaron la guerra civil hasta hacerla girar en torno a divisiones más fundamentales que la inicial confrontación entre liberales y conservadores. De hecho, la emergencia de las FARC pareció acercar a los liberales a una coalición de facto con los conservadores para oponerse a la guerrilla.

En los 60, Estados Unidos consideraba a las FARC el tipo de fuerza a la que combatían por todo el mundo y le brindó al gobierno colombiano su apoyo político y militar.

Con el colapso de la Unión Soviética, Estados Unidos enfocó su atención a lo que consideraba como una guerra contra las drogas. Aquí también Colombia resultó crucial, dado que era un punto de producción y tránsito de drogas, particularmente de cocaína. Tras el 11 de septiembre de 2011, Estados Unidos (y otros países occidentales) etiquetó a las FARC como organización terrorista.

Hubo un intento serio de ponerle fin a la guerra políticamente. En 1984 el presidente Belisario Betancur entró en un pacto con las FARC, lo que permitió a éstas competir en las elecciones como Unión Patriótica (UP). Pero hubo tantos líderes activos de la UP que fueron asesinados por las fuerzas ultraderechistas y por los agentes del Estado, que los miembros de las FARC volvieron a la guerrilla activa hacia 1986. Este sabotaje del pacto, perpetrado por la extrema derecha, ha pesado en todas las subsecuentes negociaciones.

El presidente colombiano en el periodo 2002-2010, Álvaro Uribe, se negó a la idea de las negociaciones y lanzó máximas acciones militares contra las FARC, incluido el hecho de cruzar la frontera a los países vecinos donde y cuando él pensara que los líderes de las FARC se escondían. Cuando terminó su periodo lo sucedió su ministro de Defensa, Juan Manuel Santos. A Santos lo consideraban el personaje de línea dura tras de Uribe. Resultó ser quien está dispuesto a negociar.

Lo que para Santos cambió es el contexto geopolítico. Estados Unidos no pudo proporcionar la atención militar que antes estaba ofreciendo debido a su propia decadencia geopolítica. Santos, que sin duda es uno de los mejores amigos de Estados Unidos en América Latina, se hizo consciente del surgimiento de las fuerzas de izquierda y centro-izquierda en América Latina. Estaba de lo más interesado en conservar los vínculos económicos con Estados Unidos y pareció pensar que trabajando desde dentro, más que contra las estructuras autónomas sudamericanas y latinoamericanas, podría tener más posibilidades de espacio para lo que él considera lo más importante. Se volvió receptivo entonces a los ofrecimientos del presidente Hugo Chávez, de Venezuela, e inclusive de Cuba, para mediar. Las negociaciones parecían ser el mejor camino.

En tanto, las FARC no sólo sufrían del vaciamiento de su fuerza, sino de fatiga extrema, y repentinamente se dispusieron a las negociaciones una vez más. Estas negociaciones han estado ocurriendo por algún tiempo en La Habana. El 6 de noviembre, el presidente Santos anunció en la televisión que el gobierno y las FARC habían acordado un segundo punto en la agenda de negociaciones. El primer punto, el desarrollo agrario, se había resuelto a finales de mayo.

El segundo y crucial punto está relacionado con el desarme y la participación en la política electoral. Santos dijo que un acuerdo fundamental se había logrado en este segundo punto. Enfatizó que Colombia ahora ya no necesitaría otro medio siglo de guerra civil. El representante de las FARC accedió. Hay otro tercer punto sobre narcotráfico, pero nadie duda de que esto se resolverá.

La oposición al acuerdo ya fue verbalizado en voz alta por el ex presidente Uribe. Pero la opinión pública ya no está de su lado. Y tampoco parece que Estados Unidos se vaya a oponer al acuerdo por venir, puesto que no quiere socavar la posición del presidente Santos, al que todavía considera un muy buen amigo suyo. Tampoco las voces de la izquierda, interna o internacionalmente, son propensas a sabotear el acuerdo.

¿Qué tan bueno es este arreglo para Santos, que es todavía un neoliberal conservador, o para las FARC, que son todavía una fuerza de izquierda? Es muy pronto para decirlo. Pero parece ser que existe gran probabilidad de que el pacto se mantenga. La guerra civil llega a su fin, como dijo TS Eliot en su famoso refrán,no con una explosión, sino con un gemido. Pero son agotadores 65 años de guerra civil. Uno se pregunta cuánta gente joven en Colombia podría reconocer siquiera el nombre de Jorge Eliécer Gaitán.

Tradução do inglês para o espanhol: Ramón Vera Herrera.

Tradução do espanhol para o português: Camila Rodrigues da Silva.

Foto: Diário Liberdade.

Fonte: La Jornada.

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