A grande imprensa mente: o vazio deixado pelo PT ainda não foi preenchido

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Por Allan Kenji Seki e Giulia Molossi. 

A derrocada das prefeituras do Partido dos Trabalhadores (PT), o que já era esperado em virtude dos ataques massivos da grande imprensa, se confirmou: o PT perdeu 382 prefeituras. Entre as 92 maiores cidades brasileiras, o PT venceu apenas uma no primeiro turno e disputará, com muita dificuldade, outras sete no segundo turno – das 15 maiores prefeituras que governa atualmente, o PT teria, no seu melhor cenário, apenas oito. Enquanto o PSDB passou de 18 nas maiores cidades, para 12 já no primeiro turno e outras 19 que disputará no próximo dia 30 de outubro.

Os resultados das eleições de 2016 representam um grande avanço de uma direita conservadora que luta para ocupar o espaço deixado pelo Lulismo, sobre isso não há tantas dúvidas. A pretensão de localizar no PT a origem e o fim de todas as mazelas trazidas pela crise mundial obteve sucesso e favorecerá, certamente, a correlação de forças para a aprovação de medidas duras contra a classe trabalhadora: escola sem partido, intensificação da penalização do aborto, redução da maioridade penal, destruição da previdência pública e assim por diante.

O discurso contra a corrupção, o qual já foi tão caro para a esquerda socialista, tendo por certo que qualquer apropriação privada dos fundos estatais é um crime contra toda a sociedade, foi completamente engolfado pela instrumentalização audaz da classe dominante. Fosse de outro modo a penalização recairia igualmente sobre todos os grandes partidos. O PP, por exemplo, ganhou 494 prefeituras e se tornou o quarto maior partido em números de prefeitos, não obstante tem o maior número de políticos envolvidos com a Lava Jato (32 indiciados). O PSDB e o PMDB estão envolvidos até o pescoço em escândalos de corrupção que vão do chinelo dos vereadores até às porta do Palácio do Planalto. A política brasileira não é para amadores!

No entanto, quando analisamos o número de prefeituras perdidas pelo PT e o número conquistado pelo PSDB (crescimento de 97) e PMDB (crescimento de 7) fica evidente o alarde da grande imprensa em colocar o PSDB como o grande vitorioso. Isso só demonstra a necessidade do capital de rapidamente mostrar que o espaço deixado pelo Lulismo será ocupado por forças conservadoras. Longe de ser a verdade, os demais 278 municípios perdidos pelo PT foram distribuídos entre uma infinidade de pequenas siglas. Apesar de vantajoso para os partidos conservadores, internamente esses partidos não sairão das eleições de 2016 coesos internamente, as disputas entre as diversas frações tende a se complexificar ainda mais no jogo de forças até 2018. Seja como for, o que está certo é que a classe dominante não dormirá sossegada nos próximos anos.

Há ainda uma ampla margem de brasileiros que deixou de comparecer às urnas – pelo menos 25 milhões de eleitores. Para explicar o fenômeno, vários fatores podem ser levantados: o descrédito no sistema eleitoral, a redução da parte (legal) do financiamento privado de campanha…. Porém, a grande questão que se coloca é que os 14 anos de governos petistas não contribuíram para maior organização dos trabalhadores. Pelo contrário. O Lulismo consistiu, entre outras coisas, na capacidade do governo de inserir no âmbito do Estado ampliado todos os grandes conflitos sociais, dissolvendo parte das formas tradicionais de organização política em um movimentismo pouco fecundo. Após anos dessa política, as experiências organizativas da classe encontram-se visivelmente fragilizadas e o golpe do impedimento serviu como um terremoto em terras arrasadas. Diante de um amplo déficit organizativo e desprovido de expectativas políticas maiores, os eleitores afastaram-se das urnas e dos partidos tradicionais. Tudo leva a crer, entretanto, que há aí um setor inteiro de trabalhadores ansiosos por meios significativos de fazer política. Esse setor pode ser altamente permeável por um descrédito conservador, imbuído pela grande mídia, mas também não se mobilizou para votar nos partidos da ordem.

Para dizer de forma mais clara, as abstenções representam a falência de um modelo de governo protagonizado pelo Lulismo e que não encontrou nos partidos tradicionais da direita uma alternativa. Como a maioria dos trabalhadores não passou na última década e meia por experiências organizativas, a forma dessa maioria reagir parece-nos ter sido o abandono do sistema eleitoral. Também foram elas que decidiram em favor de candidatos de partidos menores, tanto à direita, quanto à esquerda nas cidades menores. O que a grande imprensa procura esconder, por exemplo, é que das prefeituras governadas pelo PSDB – tido como o grande vitorioso – somente 42% dos prefeitos foram reeleitos. Isso indica algo menos óbvio, porém muito importante sobre a massa dos trabalhadores: a verdade é que todos os partidos tradicionais sairam derrotados. Nesse momento, venceu o imediatismo; no entanto, este é um cenário amorfo, ele pode dar origem ao aprofundamento de posições mais conservadoras, ou também, a uma abertura para experiências radicais.

A abertura dos dados do segundo turno devem manter essa perspectiva, porém os dados sobre os quais toda a esquerda precisará trabalhar são as estatísticas sobre quem é o eleitor e qual o seu voto. É aí que teremos elementos para moldar essa nova realidade de um Brasil pós-Junho e pós-golpe. Seja como for, dentro e fora do falido sistema político-eleitoral brasileiro, a esquerda tem muito para trabalhar.

Na terceira parte da série sobre as eleições municipais, o UàE dedica uma análise das disputas eleitorais travadas pela esquerda em Florianópolis.

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 Imagem: www.yorokobu.es

 

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