A gente constrói de novo

Por James Ratiere

Ô seu moço tamo aqui faz tempo, é terra de ninguém sabe? Chegamo só tinha mato, umas árvore e uns toco, limpamos pra viver.

Aqui não pode morar senhora é propriedade da U N I Ã O

Que união é essa seu moço? Vem de onde? União tem aqui, a gente constrói, uns trabaia e divide com que não tem. Isso é união.

Vocês vão ter que sair, não tem mais jeito.

Sempre tem jeito seu moço, a única coisa que não encontraram ainda é pra morte, a gente é forte, consegue erguer do nada umas casa, e vem vocês pra demolir.

A gente vai ter que usar da força

Ué mais? Jogaram bomba nas criança, puxaram mulher grávida da casa, arrastaram a coitada pelo chão, com a cria nos braço, ceis acham que isso é bom? Como eles vão crescer? Achando que polícia é vilão.

A gente não quer bandidagem aqui!

Tem bandido aqui não seu moço. Ali na frente a moça lava roupa, o marido dela é pedreiro, ali do outro lado, ela faz faxina pra uns rico lá do centro, e as crianças estudam na escola ali em baixo, pode perguntar se quiser, tudo nota boa.

Não quero saber de  nota não senhora, quero vocês fora daqui.

Deixa a gente morar seu moço esse é o único lugar que a gente pra viver, olha as pessoa aqui, vão tudo ficar na rua, ceis vão dar casa pra nois? Deixa a gente ficar aqui.

Um dia a gente entra quebrando tudo.

Mas moço, não precisa disso não, vai por mim, sou uma senhora já, vivi bastante, tenho história pra contar, só deixar a gente quieto, vamos viver bem, só que ceis querem usar a força, isso não resolve pra ninguém.

Já disse chega de favela na cidade, já não basta os morros cheios de traficante, vamos tomar providências pra que não se crie mais um, vocês querem se empoleirar tudo feito bicho, vamos tratar vocês igual animal mesmo, que é pra nunca mais se meterem a besta.

Mas isso moço é muito antes de mim é do Senhor, somos apenas frutos de uma luta de anos a fio. Portugal chegou aqui, trouxe a África escravizada dividiu o Brasil. Preto liberto sem nada, tinha que mendigar ou passava fome, índio dizimado por branco, descendente de preto vai pra favela, descendente de branco pro governo, e a gente vive isso todo dia moço, ceis são os capitão do mato, destruindo os quilombo e tirando nosso lar. A gente segue na luta por que aqui vamo ficar.

Pode descer o sarrafo! Não quero mais conversa.

Pode destruir, a gente constrói de novo, só vocês virar as costa.

Sou ser inconsciente do que é ser, com 29 anos, eu James Ratiere, ainda busco um sentido pra toda existência, adoro olhar o tempo, chocolates,  e abraços apertados dos amigos e vivo como se estivesse dentro de um livro, uma das minhas maiores paixões.

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