A fissura nossa de cada dia

sociedade_fissurada_03Por Thiago Burckhart.

Celulares, carros, aparência, estética, roupas, compras, televisão, drogas lícitas e ilícitas, entre tantas outras, são algumas das fissuras da sociedade contemporânea. Essa é a tese que se levanta no livro “Sociedade Fissurada”, escrito pela Filósofa Márcia Tiburi e pela Psicóloga Andréa Costa Dias. Este é um livro que reflete sobre os vícios e as drogas em nossa sociedade, discutindo-os a partir de uma mirada sobre a moral e a política no que tange às drogas.

Uma importante contribuição dessas autoras ao debate das drogas dá-se no sentido de ir além do conceito de drogas lícitas e ilícitas. As autoras afirmam que os vícios de nossa sociedade não são só aqueles das drogas lícitas ou ilícitas, ideologia esta guinada pelo moralismo burguês, mas sobretudo, os vícios estão presentes no dia-a-dia da sociedade fissurada, seja no consumo exacerbado, na preocupação alienada com a estética e com a boa aparência, com a necessidade imposta de sempre estar na moda e bem vestido, com a crença irrefutável de tudo o que se assiste na televisão, com a necessidade da reprodução de comportamentos e pensamentos impostos pela mídia, com a busca fissurada pelo dinheiro, entre outros mais.

Essa fissura de que se fala é, portanto, um desejo desmedido por algo, que se projeta como se fosse um templo, tratado de modo absoluto a ponto de dessubjetivizar as pessoas. Nesse sentido, a mesma relação que um dito “drogado” tem, em nossa sociedade, com o crack, cocaína ou qualquer outra substância entorpecente, é possível de se observar com outros objetos como o carro, a beleza, o dinheiro, etc. Esse processo de dessubjetivação é alimentado por um moralismo, pois à medida que essas pessoas que tem uma postura absolutamente fissurada com relação ao dinheiro, aos shoppings centers, às bebidas, aos carros, entre outros, são as mesmas que adotam uma postura moralista com relação à fissura dos outros, e sobretudo com relação a maconha e outras “drogas” que, nesse contexto, são infinitamente menos nocivas e destrutivas.

É essa a discussão central do livro, ou seja, de desconstruir o discurso moralista sobre o “drogado” de nossa sociedade. Esse discurso é alimentado pela necessidade de “culpabilização” do outro por seu comportamento, sendo, portanto, uma atitude irrefletida, pois qualquer desejo desmedido também pode ser considerado um vício ou uma droga, e dessa forma, o moralista também é um “drogado”. A sociedade fissurada é então uma sociedade cínica, pois esconde seus próprios esquemas através de seus dispositivos de poder e controle e lança sobre certos indivíduos (os taxados socialmente como drogados) a culpa pelas mazelas da sociedade.

Penso que a questão da fissura da sociedade contemporânea nasce a partir da falta de reflexão ética. É justamente essa carência que vivemos hoje que alimenta o moralismo e produz discursos de ódio contra o outro (aquele socialmente taxado como drogado), e por outro lado cria outros vícios muito mais malévolos para a sociedade como um todo, e que, no entanto, não são assim tratados como. É a carência de reflexão ética que faz com que a pessoa condene aquilo que ela está implicada, diga-se, nas fissuras da sociedade contemporânea.

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