A Fila

Foto: Marcello Casal Jr/Ag Brasil

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

É

É!
É fila

É a fila

É o todo
É um tanto

É a fila feita

É a fila e forma

É a fila nascendo

É a fila crescendo

É a fila sendo feita

É a fila nascendo ali
É a fila das máquinas

Chega uma, duas e três

Vão chegando e ficando

É a fila de máquinas juntas

A fila das máquinas em crise

É a fila das máquinas em silêncio.

A fila para chegar ao ponto da bomba

Um silêncio rompido por gritos de raiva

A explosão pelo que não foi atendido logo

A fila para chegar ao ponto da bomba e pôr

A fila para fazer correr as máquinas para um lugar

A fila para fazer correr as máquinas para qualquer lugar

Para correr após ter gritado pelo vazio de não poder correr

A fila que reúne todos os que pensavam ser únicos em suas máquinas

O vazio de não conseguir andar mais e ter que esperar pra dar dinheiro

É a junção numa fila de tantas máquinas bonitas e tão tristinhas já que estão

Já que estão juntas formando algo juntas e não mais tão só reinando só no asfalto
Máquinas tão tristinhas formando uma fila que de tão tristinhas, tão tristinhas estavam
Nem amizade se atreveram a fazer enquanto abrigavam seus donos impedidos de andar

Mas ouviam com a atenção freudiana sua lamentação sobre prestação e o poço: esse país

E como tanto se diz, estava e ficava nas mãos belas de quem fora tão pronto enorme solução
Então a fila se completa para ser o que é e manter organização na desorganização vigente ali
E a fila está pronta para expor que quem ME impede ter o MEU acesso ao MEU combustível

É safado, vagabundo e oportunista já que meu interesse não foi, veja bem, NÃO FOI FEITO!

A fila apresenta lamentações como a dos boletos numa fila de ar condicionado bancário. Voa

A fila exprime ordem ao tempo: Voa! Para que possa atender as demais demandas e o tempo

A fila aquieta os maiores ímpetos de desordem e quando o carro, enfim, bebe de seu néctar

Vai se desfazendo de sua enorme fúria para com os que me tiraram do que sempre faço
E vai se desfazendo de suas frustrações para poder voltar ao cotidiano normal e feliz.

Enfim feliz com o tanque cheio. Enfim feliz, de volta à esteira. Olha só! Bem estar!

Chega o carrão brilhando em vermelho e o carrinho suado para conseguir pagar.

Dono faz carão e na máquina carinho visto que encheu seu tanque para rodar.

Mais uma vez abraçou a sua própria dependência em um dia normal.

E reparou a fila diminuindo pouco a pouco e, também, rapidamente.

Conforme olhava e sorria ao constatar que lá ficou muita gente

Conforme olhava pelo meu retrovisor e acelerava rápido

Conforme pisava com os pés de blocos no acelerador

A fila acabou tão quanto o tamanho da indignação

“Bagunçaram o funcionamento da nação à toa!”

“Deixaram os hospitais sem medicamentos.”

“Por culpa deles a comida vai aumentar!”

“Por culpa deles a comida vai acabar!”

“Comprometeram que precisava!”

“Indignado com tudo isso!”
Mas foi passando a raiva.

E foi ficando no caminho

E foi ficando o caminho

Ficando em sua solidão

Fica então sua solidão

Só então na sua solidão

Então sua solidão

Fica então

Sozinho

Solidão

Só!

 

 

Guigo RibeiroGuigo Ribeiro é ator, músico e escritor.

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