A ferrovia da soja e os riscos para a Amazônia

China oferece US$ 10 bilhões para a construção da estrada de ferro que ligará o Mato Grosso ao porto de Santarém (PA). Notícia boa para a economia é péssima para o meio ambiente. A China é o principal financiador da cadeia produtiva da soja do desmatamento.

O governo do Mato Grosso assinou uma carta de intenções com a China, no valor de 10 bilhões de dólares, para construir uma ferrovia entre Cuiabá e o porto de Santarém (PA). O objetivo é facilitar o escoamento da soja produzida no Mato Grosso.

Hoje, a exportação acontece pelo porto de Santos, a um custo de até 120 dólares a tonelada. Por via férrea até Santarém, o valor cairá pela metade ou ainda menos.

Usar a estrada de ferro também diminuirá o fluxo de caminhões na saturada e perigosa BR 163, que liga o Mato Grosso a São Paulo e em 2014 estará pavimentada até Santarém.

A ferrovia é uma boa notícia para a economia brasileira e melhor ainda para o Mato Grosso, o maior produtor brasileiro de grãos e que precisa urgentemente de novos modais de escoamento da safra.

CADEIA PRODUTIVA

No aspecto ambiental, a obra aumentará ainda mais a pressão sobre o bioma amazônico.

A grande maioria dos produtores do Mato Grosso está inserida na chamada Moratória da Soja, iniciativa de empresas exportadoras e de organizações da sociedade civil para boicotar a soja produzida em áreas de novos desmatamentos na Amazônia.

A moratória tem dado certo nos últimos anos. Mas nem todos os produtores são alcançados e ai reside um grande problema, diretamente ligado à relação do Brasil com a China, que se comprometeu a emprestar 10 bilhões de dólares para construir a ferrovia até Santarém.

No dia 13 de outubro de 2011, o coordenador de sustentabilidade e meio ambiente da poderosa Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Bernardo Pires, declarou que a China “é o principal destino da soja plantada em áreas de novos desmatamentos na Amazônia”, quebrando assim os compromissos da moratória. “A China é um país que não faz exigências”,disse ele.

A relação da China com produtores descomprometidos com a sustentabilidade da cadeia produtiva da soja faz desse país a principal ameaça ao desmatamento da Amazônia para fins de produção de grãos.

A participação dos chineses na construção da ferrovia, obviamente, não é descompromissada. Como os produtores ligados ao desmatamento sofrem boicote dos exportadores ligados à Abiove, a tendência é negociar diretamente com a China, sem intermediários e sem burocracia.

CLÁUSULA SOCIOAMBIENTAL

Os chineses não fazem perguntas. Exigem apenas um preço mais barato, não importa de onde vem a soja.

A construção da ferrovia tem tudo para estimular novos desmatamentos no bioma. Como o custo de exportação via Santarém será a metade do que se gasta exportando via Santos, o preço menor pago pelos chineses não será um problema na negociação dos grãos oriundos de áreas desmatadas.

Nas conversas visando o empréstimo para construir a ferrovia, os representantes brasileiros sequer levantaram a possibilidade de inserir uma cláusula que impedisse o uso da ferrovia para transportar grãos oriundos do desmatamento.

Ainda é tempo de mudar isso, mas precisa ver se haverá vontade política. Nesse aspecto, a Abiove – que reúne grandes financiadores de campanha –  terá papel decisivo.

Fonte: Rede Sustentável

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