A escritora Ana Maria Machado é mais uma vítima do ódio nas redes que ajudou a fomentar.

Imagens: Bruno Veiga / Divulgação

Por Nathalí Macedo

O livro “O menino que espiava pra dentro”, de Ana Maria Machado, escritora e jornalista que já presidiu a Academia Brasileira de Letras, tem gerado polêmica depois de trinta e cinco anos de publicado pela primeira vez, em 1983.

Isso porque uma mulher de Recife postou em uma rede social – sempre as redes sociais…. – que seu filho perguntou-lhe “se era verdade que se engasgasse com uma maçã e ficasse sem respirar, ele conseguiria ir até o encontro do seu mundo da imaginação”.

Foi o quanto bastou para que surgisse nas redes uma enxurrada de comentários acusando o livro de incitar o suicídio, e o mais preocupante nisso é que o trecho acusado pelos internautas sequer é facilmente associável ao suicídio, a não ser que a sua imaginação seja mais fértil que a de uma criança:

“Como as compras só chegaram quando ele estava no colégio, ainda teve que esperar a volta, o jantar e a hora da sobremesa. Quase não aguentava mais. Aí também resolveu que o melhor era deixar para engasgar com a maçã quando estivesse sozinho. E que a família dele era tão desligada dessas coisas que era até capaz de alguém dar um tapa nas costas dele só para desengasgar, e aí estragava o plano todo.”

“O menino que espiava pra dentro” não é um livro sobre suicídio, é apenas um livro sobre um garoto meio carente e cheio de imaginação que ganha um cachorrinho. Não se fala nisso nem mesmo metaforicamente: a metáfora de morte foi criada pelos próprios internautas, porque o tribunal do Facebook não perdoa.

“Estou chocada! Foi como se uma bigorna caísse na minha cabeça. Até peguei o livro para reler, pensando que pudesse ter alguma frase infeliz. Mas que nada. É apenas a história de um menino cheio de imaginação que precisava de um amigo, e acaba ganhando um cachorro” disse a escritora.

Nos contos de fada tradicionais há coisas um tanto piores, como príncipes que beijam princesas enquanto elas dormem – como você espera que seu filho aprenda sobre consentimento?

O post da mãe de Recife era, aparentemente, apenas um apelo para que os pais observassem o modo como seus filhos recebem estímulos imaginativos, e não propriamente uma acusação, mas os internautas não entenderam nada: iniciou-se uma perseguição virtual à escritora e sua página oficial no Facebook está desde a tarde de ontem fora do ar.

Ana Maria Machado, assim como o presidenciável que experimentou o ódio que ele próprio plantou, está sendo vítima da mesma direita que tenta agradar em suas colunas com o pacote clássico de antilulismo rastaquera.

Em seu espaço no jornal O Globo, já escreveu um texto intitulado “entre a Presidência e o Presídio”, defendeu as delações premiadas — “ferramenta poderosa para revelar crimes ocultos”.

O PT quer passar para o mundo a imagem de que o Brasil “vive uma democracia tabajara”. Lula é um palhaço, diz ela. E por aí vai.
O que as pessoas que plantam ódio esperam receber em troca? Flores? Se você alimenta a indignação seletiva e desonesta da direita, isso voltará pra você. Em dobro.

Ana Maria Machado tem mais de 100 livros publicados no Brasil e em mais de 17 países, somando mais de 20 milhões de exemplares vendidos. É a mesma que escreveu “uma, duas, três princesas”, uma história de três princesinhas que viajam o mundo para salvarem o reino.

Escritoras como ela dão às próximas gerações a chance de ver o mundo de outra forma, um “mundo da imaginação” onde princesas salvam o dia em vez de esperarem pelo príncipe encantado que lhes salve a própria vida.

É dever dos pais cuidarem para que seus filhos não se atirem do quinto andar usando uma capa de super-homem ou se entalem com maçãs para alcançarem outros mundos. Estímulos perigosos sempre existiram e sempre existirão – crescemos vendo Dick Vigarista, certo? – e só mesmo na geração das redes sociais é que isso é motivo suficiente para uma escritora consagrada ser perseguida por um trecho específico de um livro que ninguém – nem os pais indignados, imagino – se preocupou em entender como um todo.

Em nota, a Editora Global se manifestou:

“Esclarecemos que as referências à maçã e ao fuso são alusões às histórias da Branca de Neve ou da Bela Adormecida e constituem parte integrante do universo da história, sustentando o argumento de que imaginar pode ser muito bom, mas a realidade externa se impõe. Conversar com os outros (como a mãe) é fundamental, e a afetividade que nos faz felizes está ligada a seres vivos e reais (…) Todo nosso apoio e carinho a Ana Maria Machado.”

Todo o meu apoio a ela, também. E toda a nossa paciência, sem resignação, diante do Tribunal do Facebook – que invariavelmente, em algum momento, se volta contra quem o alimentou.

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