A era dos fundamentalismos no Brasil e no Mundo

Brasília – O Deputado Bruno Araujo profere o voto que garante a autorizacao do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, no plenário da Câmara dos Deputados. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Elissandro Santana, para Desacato.info.

No início do século XXI, o mundo acompanhou perplexo aos atentados terroristas contra o Pentágono, em Washington DC, e as Torres Gêmeas, em New York – os símbolos iconográficos concretos do capitalismo estadunidense e mundial.

A Terça-Feira Triste, pela importância que comportou e possui, foi objeto de discussão nos meios de comunicação de todo o Planeta na época e, mesmo hoje, aparece como temática de análise e de estudo em livros didáticos e em canais de ensino em diversos países no mundo inteiro.

Ao citar os atentados nos EUA, o faço partindo da noção de que este evento é um dos marcos corroboradores de que o século XXI surgiu alicerçado em bases fundamentalistas e que elas se assentam em estruturas não somente religiosas, mas, também, políticas, econômico-neoliberais e técnico-científicas que atravessam todas as esferas sociais com consequências negativas para toda a humanidade ao redor da Terra, através de uma globalização do inimigo.

Não se enganem. O termo fundamentalismo não é filho do século XXI, mas foi nele que o referido vocábulo se difundiu largamente. Um fator que confirma a proliferação do uso do termo pode ser encontrado no livro “Fundamentalismo: a Globalização e o futuro da humanidade”, de Leonardo Boff, um dos mais importantes e renomados pensadores do Brasil. Na obra em baila, evidencia-se que durante e após os atentados de 2001 o vocábulo fundamentalista tornou-se palavra de acusação em meio a toda a parafernália dos enfrentamentos entre Ocidente e Oriente, com fundamentalismos dos dois lados. Ainda, segundo Boff, nesse contexto, a partir da difusão do léxico, entrou em cena a ideia equivocada de que fundamentalista seria sempre o outro.

Acerca do termo fundamentalismo, Boff, no mesmo livro citado, externa que o nicho desse fenômeno se encontra no protestantismo norte-americano surgido em meados do século XIX. Ele menciona que esta palavra foi cunhada em 1915, quando professores de teologia da Universidade de Princeton publicaram uma pequena coleção de doze livros sob o título “Fundamentals: A testimony of the Truth (1909-1915)”.  Neles propunham um cristianismo extremamente rigoroso, ortodoxo, dogmático, como orientação contra a avalanche de modernização de que era tomada a sociedade norte-americana. Não somente modernização tecnológica, mas modernização dos espíritos, do liberalismo, da liberdade das opiniões, contrastando fundamentalmente com a seguridade que a fé cristã sempre oferecera.

Essa noção de que fundamentalista é sempre o outro é deveras complexa, pois somos o outro em algum ponto, portanto, a adjetivação que vai sempre volta.

A lógica da geopolítica atual demonstra que os governos e outras instâncias, em muitas ocasiões, operam sempre por meio da ótica de que a culpa é sempre do outro e, nesse bojo de ações, o Ocidente, na figura dos Estados Unidos e de seus sequazes político-ideológicos, ao longo do tempo, criminalizou outras culturas e povos, partindo sempre de intensões espúrias disfarçadas de éticas, de combate ao terrorismo, quando, muitas vezes, é o causador da maior parte dos males que enfrenta.

De 2001 até hoje, afloraram fundamentalismos em todos os cantos da Terra e todo esse quadro de extremismos por todos os lados pode nos conduzir a mais guerras, à destruição ambiental em massa e à negação, de forma ainda mais feroz, da pluralidade da existência.

O atentado em 2001 não pode despontar como elemento para o fomento do preconceito contra o povo árabe retroalimentado em discursos de ódio por todo o mundo. Ao contrário, o evento terrorista deve servir para que reflitamos acerca das práticas do Ocidente no Globo. De lá para cá, outros episódios de terror ocorreram em diversos países, em especial na Europa. Na mesma linha, respostas fundamentalistas foram e são dadas a alguns países de origem árabe, condenando-se inocentes à morte e ao sofrimento. O ataque desastroso à Síria por parte dos EUA, da Inglaterra e da França, nos últimos dias, é um exemplo de fundamentalismo em combate ao fundamentalismo, mas que, na verdade, só causou mais dor ao povo sírio.

Desafortunadamente, o fundamentalismo tem sido a arma contra o próprio fundamentalismo e as nações do mundo precisam acordar para isso, pois fundamentalismo não se combate com mais terrorismo. Por exemplo, a resposta de Bush aos atentados de 2001 a Bin Laden e outros grupos nada mais foi do que outro lado do fundamentalismo. Boff, acerca desse contexto, indaga sobre a inauguração de uma guerra de fundamentalismos. Eu, diferente dele, arrisco-me a afirmar e não a questionar que em 2001 inauguramos, de fato, uma guerra de fundamentalismos que está gerando tentáculos assombradores em pleno ano de 2018. Não que outras já não houvessem sido travadas, mas esta apresentou materialidades mais concretas nessa vertente.

Nos planos internos, ou seja, no interior de cada nação, nas últimas décadas, temos visto a derrocada de governos com alguma vertente socialista, com o afloramento do ódio das elites e das pseudo elites que se dizem inconformadas com a corrupção em algumas práticas governamentais, mas que, ao fim e ao cabo, lutam contra os ínfimos direitos que algumas minorias conquistaram por conta de germes de governos com alguma visão socialista.

No caso da América Latina, a elite colonial odiosa estremecida com as pequenas mudanças na pirâmide social, por ser dona da mídia tradicional, aquela que, infelizmente, forma opinião no país, tratou de vetar a continuidade de políticas sociais de distribuição de renda e criou o discurso da corrupção como o grande inimigo a ser perseguido. Uma falácia discursiva bem construída, pois para a elite a corrupção nunca foi um problema, tendo em vista que ela se construiu desde os primeiros momentos de nossa nacionalidade a partir dos alicerces da exploração dos mais fracos da nação.

Apologista da dependência, a elite colonial (é, colonial, mesmo em pleno século XXI), assim como em outros momentos da história, na atualidade, tenta demonizar toda a política, desestruturando-a e atacando partidos com visões sociais de atuação, suplantando no imaginário social que estes são os responsáveis pela corrupção. Ela se vale de casos individuais para a demonização geral e, pior, esquece, propositalmente, dos partidos historicamente parasitas do país, pois faz parte deles.

Toda essa conjuntura de implantação do ódio pela elite colonial latino-americana para a derrocada de governos e implantação de um governo de continuidade da opressão dos miseráveis se faz a partir da exploração dos medos e construtos culturais coloniais das camadas sociais menos escolarizadas ou dos analfabetos políticos funcionais com nível superior da classe média que se acha elite. A elite colonial se vale dos fundamentalismos individuais e coletivos para fomentar a histeria que impossibilita análises históricas e, desta forma, contribui para a manutenção do quadro de exploração. Maquiavélica, ao extremo, faz uso da fé das pessoas explorando os fundamentalismos nos quais elas se constroem religiosamente. Fazendo isso, ela coloca em cena a centralidade do fator religião na sedimentação dos povos em cada nação.

No caso do Brasil, a exploração da carga ideológico-religiosa a partir da retomada de valores morais e cívicos, por meio de um discurso hipócrita de patriotismo exacerbado, ficou evidente nas movimentações orquestradas dos verde-amarelos financiadas pelos políticos pertencentes à elite colonial ou ao serviço dela e nos discursos da Câmara dos Deputados na destituição da Presidenta Dilma, quando, no momento dos votos para o impeachment, se ouviu “Em nome de Deus”, “Em nome da família”, “Por amor ao Brasil”, “Por minha mãe”, “Por meu pai”, “Pela família”, “Por Deus”.

A partir dos fundamentalismos utilizados para a destituição de governos legítimos como o de Dilma, tem-se que o fundamentalismo religioso, político, econômico e de outros tipos não ocorre somente nas guerras entre nações, mas, também, nos planos internos.

Ainda com relação ao Brasil, nesse ano de 2018, devido à eleição para a presidência do país, deputados estaduais, deputados federais, senadores e governos estaduais e do Distrito Federal, teremos, mais uma vez, a exploração dos fundamentalismos religiosos e de outros elementos conservadores presentes nos imaginários societários. Sem dúvida, temas tabus como aborto, homofobia, redução da maioridade penal, liberação do porte de arma e outras questões virão à tona e, desta forma, a elite colonial da dependência se valerá dos elementos fundamentalistas religiosos para as questões políticas em uma sociedade que, infelizmente, ainda não consegue se libertar das amarras coloniais e dos mecanismos conservadores em suas bases. Tudo isso, aliado ao golpe de retirada de Lula do pleito eleitoral pode favorecer o boneco desvairado em forma de soldado teísta que cultua o estupro, que é fã de torturadores da ditadura, que odeia os negros, os gays e as mulheres, já que os alienados esvaziados de consciência histórica e política são muitos e eles se alimentam de ódio e de conservadorismo.

O caso do Brasil se repete em outros países do continente latino-americano, da África, da Ásia e, evidentemente, até mesmo da Europa e, em especial, Estados Unidos, berço do fundamentalismo protestante. O fundamentalismo do próprio povo, historicamente, tem sido usado contra ele mesmo. As elites conhecem exatamente as estruturas da manipulação para a manutenção dos esboços da opressão em todo o mundo.

Enfim, entramos na era dos fundamentalismos, dos extremismos e tudo isso pode nos conduzir a um caminho sem retorno. Ainda há tempo para sair dessa rota, mas o fundamentalismo é um monstro que se alimenta de histerias, de medo e isso é o que mais temos nestes tempos medonhos em que as elites de todo o Planeta tentam controlar totalmente a política (já controlavam, mas agora de uma forma mais escancarada e escrota).

Elissandro Santana é professor da Faculdade Nossa Senhora de Lourdes, membro do Grupo de Estudos da Teoria da Dependência – GETD, coordenado pela Professora Doutora Luisa Maria Nunes de Moura e Silva, revisor da Revista Latinoamérica, membro do Conselho Editorial da Revista Letrando, colunista da área socioambiental, latino-americanicista e tradutor do Portal Desacato.

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