A eleição de 2018 e as memórias do golpe no Brasil

Por Elissandro Santana, para Desacato. info.

Certa vez, esperando um voo no aeroporto de Confins para a fronteira do Brasil com o Paraguai e a Argentina, ou Fronteira Trinacional, como é mais conhecida, um senhor argentino me disse que o que mais o deixava triste na América Latina não era a ignorância da maioria da população historicamente oprimida a quem lhe foi negada a formação intelectual ao longo de séculos, pois isso teria solução, bastariam políticas públicas educacionais de reparação dessa injustiça, mas a maldade intelectual operada e fomentada pela elite colonial do atraso, afinal, esta seria a causadora das sangrias e fragilidades no Continente Latino-americano.

Após escutá-lo, sinalizei que concordava com aquele posicionamento, já que a história corroborava, a partir de duros exemplos, esse modus operandi político-empresarial de maldade do México à Terra do Fogo, passando pelo Brasil, evidentemente.Anos depois, em meu país, senti na pele o peso daquelas palavras a partir da maldade em latência dos senhores coloniais do poder representados por políticos na Câmara dos Deputados, no Senado e ministros, procuradores ou juízes no Judiciário. O golpe planejado, de forma tão bem costurada, deixou perplexos e atônitos os que lutam por um Brasil melhor.

Nos meses que antecederam o golpe, o apoio do Legislativo e do Judiciário ficou mais que notório a partir de trechos de diálogos amplamente divulgados pelos mais importantes meios de comunicação do país, inclusive, pela mídia conservadora alienadora de massas, entre Romero Jucá e Sérgio Machado – dois representantes tacanhos de nossa atual e corrupta política.

Como a memória brasileira parece ser muito curta e diante da noção de Jean-Yves Tadié e Marc Tadié de que a memória “faz o homem” e que ela é a “função de nosso cérebro que constitui o elo entre o que percebemos do mundo exterior e o que criamos; o que fomos e o que somos, indispensável ao pensamento e à personalidade”, apresentarei, abaixo, o diálogo na íntegra, transcrito por alguns meios de comunicação, para ajudar a memória dos irmãozinhos brasileiros nessas eleições, demonstrando que a nossa luta deveria ter sido contra o golpe e não elegendo um candidato em 2018 que, se rejeitado pelos senhores da opressão, não governará. Eis o diálogo:

 SÉRGIO MACHADO – Mas viu, Romero, então eu acho a situação gravíssima. ROMERO JUCÁ – Eu ontem fui muito claro. […] Eu só acho o seguinte: com Dilma não dá, com a situação que está. Não adianta esse projeto de mandar o Lula para cá ser ministro, para tocar um gabinete, isso termina por jogar no chão a expectativa da economia. Porque se o Lula entrar, ele vai falar para a CUT, para o MST, é só quem ouve ele mais, quem dá algum crédito, o resto ninguém dá mais credito a ele para porra nenhuma. Concorda comigo? O Lula vai reunir ali com os setores empresariais? MACHADO – Agora, ele acordou a militância do PT. JUCÁ – Sim. MACHADO – Aquele pessoal que resistiu acordou e vai dar merda. JUCÁ – Eu acho que… MACHADO – Tem que ter um impeachment. JUCÁ – Tem que ter impeachment. Não tem saída. MACHADO – E quem segurar, segura. JUCÁ – Foi boa a conversa, mas vamos ter outras pela frente. MACHADO – Acontece o seguinte, objetivamente falando, com o negócio que o Supremo fez [autorizou prisões logo após decisões de segunda instância], vai todo mundo delatar. JUCÁ – Exatamente, e vai sobrar muito. O Marcelo e a Odebrecht vão fazer. MACHADO – Odebrecht vai fazer. JUCÁ – Seletiva, mas vai fazer. MACHADO – Queiroz [Galvão], não sei se vai fazer ou não. A Camargo [Corrêa] vai fazer ou não. Eu estou muito preocupado porque eu acho que… O Janot [procurador-geral da República] está a fim de pegar vocês. E acha que eu sou o caminho. […] JUCÁ – Você tem que ver com seu advogado como é que a gente pode ajudar. […] Tem que ser política, advogado não encontra [inaudível]. Se é político, como é a política? Tem que resolver essa porra… Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria. […] MACHADO – Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer]. JUCÁ – Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha. Gente, esquece o Eduardo Cunha. O Eduardo Cunha está morto, porra!  MACHADO – É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional. JUCÁ – Com o Supremo, com tudo. MACHADO – Com tudo, aí parava tudo. JUCÁ – É. Delimitava onde está. Pronto. […] MACHADO – O Renan [Calheiros] é totalmente ‘voador’. Ele ainda não compreendeu que a saída dele é o Michel e o Eduardo. Na hora que cassar o Eduardo, que ele tem ódio, o próximo alvo, principal, é ele. Então, quanto mais vida, sobrevida tiver o Eduardo, melhor pra ele. Ele não compreendeu isso não. JUCÁ – Tem que ser um boi de piranha, pegar um cara, e a gente passar e resolver, chegar do outro lado da margem. MACHADO – A situação é grave. Porque, Romero, eles querem pegar todos os políticos. É que aquele documento que foi dado… JUCÁ – Acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura, que não tem a ver com… MACHADO – Isso, e pegar todo mundo. E o PSDB não sei se caiu a ficha já. JUCÁ – Caiu. Todos eles. Aloysio [Nunes, senador], [o hoje ministro José] Serra, Aécio [Neves, senador]. MACHADO – Caiu a ficha. Tasso [Jereissati] também caiu? JUCÁ – Também. Todo mundo na bandeja para ser comido. […] MACHADO – O primeiro a ser comido vai ser o Aécio. JUCÁ – Todos, porra. E vão pegando e vão… MACHADO – [Sussurrando] O que a gente fez junto, Romero, naquela eleição, para eleger os deputados, para ele ser presidente da Câmara? [Mudando de assunto] Amigo, eu preciso da sua inteligência. JUCÁ – Não, veja, eu estou à disposição, você sabe disso. Veja a hora que você quer falar. MACHADO – Porque se a gente não tiver saída… Porque não tem muito tempo. JUCÁ – Não, o tempo é emergencial. MACHADO – É emergencial, então preciso ter uma conversa emergencial com vocês. JUCÁ – Vá atrás. Eu acho que a gente não pode juntar todo mundo para conversar, viu? […] Eu acho que você deve procurar o [ex-senador do PMDB José] Sarney, deve falar com o Renan, depois que você falar com os dois, colhe as coisas todas, e aí vamos falar nós dois do que você achou e o que eles ponderaram pra gente conversar. MACHADO – Acha que não pode ter reunião a três? JUCÁ – Não pode. Isso de ficar juntando para combinar coisa que não tem nada a ver. Os caras já enxergam outra coisa que não é… Depois a gente conversa os três sem você. MACHADO – Eu acho o seguinte: se não houver uma solução, a curto prazo, o nosso risco é grande. MACHADO – É aquilo que você diz, o Aécio não ganha porra nenhuma… JUCÁ – Não, esquece. Nenhum político desse tradicional ganha eleição, não. MACHADO – O Aécio, rapaz… O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB… JUCÁ – É, a gente viveu tudo. JUCÁ – [Em voz baixa] Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem ‘ó, só tem condições de [inaudível] sem ela [Dilma]. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca’. Entendeu? Então… Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar. MACHADO – Eu acho o seguinte, a saída [para Dilma] é ou licença ou renúncia. A licença é mais suave. O Michel forma um governo de união nacional, faz um grande acordo, protege o Lula, protege todo mundo. Esse país volta à calma, ninguém aguenta mais. Essa cagada desses procuradores de São Paulo ajudou muito. [referência possível ao pedido de prisão de Lula pelo Ministério Público de SP e à condução coercitiva ele para depor no caso da Lava jato]. JUCÁ – Os caras fizeram para poder inviabilizar ele de ir para um ministério. Agora vira obstrução da Justiça, não está deixando o cara, entendeu? Foi um ato violento… MACHADO -… E burro […] Tem que ter uma paz, um… JUCÁ – Eu acho que tem que ter um pacto. […] MACHADO – Um caminho é buscar alguém que tem ligação com o Teori [Zavascki, relator da Lava Jato], mas parece que não tem ninguém. JUCÁ – Não tem. É um cara fechado, foi ela [Dilma] que botou, um cara… Burocrata da… Ex-ministro do STJ [Superior Tribunal de Justiça]

A leitura, na íntegra, do discurso acima é importante para que pensemos o que está em jogo no Brasil e rememoremos fatos que não podem ser esquecidos.

Para mim, está evidenciado que o resultado dessa eleição, reitero, dependendo da força vencedora, não será respeitado até o fim, pois como nosso Congresso é, majoritariamente, formado por políticos retrógrados, e não se renovará esse ano, já que muitos dos que estão no poder se reelegerão, sem dúvida, se algum candidato de esquerda chegar ao poder, será destituído do cargo ou seguirá sem governabilidade, já que os políticos tradicionais corruptos sabem que organizações internacionais estão atentas à política no país e mais uma destituição disfarçada de legal chamaria a atenção. Essa posição se sustenta no fato de que querem a todo custo que Lula saia da disputa, já que mesmo com todo o ódio que despejaram no país, ainda assim, o Cara, como assim um dia o chamou Obama, mesmo no cárcere, segue em primeiro lugar isolado nas pesquisas.

O medo dos articuladores do golpe é tão evidente que ficou mais uma vez escancarado que o golpe era com o judiciário e com tudo, quando a maioria dos ministros do TSE, esta semana, de forma rápida, o que é um assombro, já que a justiça brasileira é procrastinatória no país, descumpriu a decisão liminar do Comitê de Direitos Humanos da ONU recomendando que o Estado Brasileiro assegurasse direitos políticos ao ex-presidente, e decidiu, por 6 votos a 1, rejeitar o pedido de candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República. Na ocasião, votaram contra o pedido os ministros Luís Roberto Barroso, relator do caso, Jorge Mussi, Og Fernandes, Admar Gonzaga, Tarcísio Vieira de Carvalho e Rosa Weber.

Com relação aos diálogos entre Jucá e Machado, sem dúvida, deixaram os brasileiros, aqueles comprometidos com justiça social, boquiabertos em relação à orquestração do golpe a partir do apoio de Temer, Vice-Presidente da nação, à época, da maior parte do Legislativo, da quase totalidade do Judiciário e, evidentemente, do quarto poder – a mídia tradicional – que, para mim, na atualidade, exerce o papel de poder moderador, tendo em vista que é ela quem escreve as regrinhas do bizarro jogo político no país, promovendo e destituindo presidentes por meio daquilo que ela chama de jornalismo, mas que, na verdade, não passa de panfleto editorial que, repetido à exaustão, acaba influenciando a opinião pública.

Hoje, o que está em questão já não é mais se foi golpe ou não, pois isso já está mais que comprovado, independente do que pensam aqueles que foram alienados ao ponto de acharem que a corrupção no Brasil teria começado no PT. Esse aí é outro problema ao qual nomeamos, duplamente, de – incompetência na interpretação de texto no que concerne ao nosso quadro político, memória de curto prazo da população brasileira e maldade intelectual para a projeção do ódio e da desestabilização do país.

Aliado à maldade intelectual também há outros dois processos nocivos à nação – a desonestidade intelectual e o orgulho que impede que muitos dos que foram enganados reconheçam que estavam equivocados no apoio ao golpe.

O triste em meio a toda esta parafernália é que o golpe não foi somente contra Dilma, mas, principalmente, contra milhões de irmãos brasileiros. Isto mesmo, o golpe foi contra cada brasileirinho de hoje e que está para vir ao mundo, inclusive, aqueles que, de forma alienada, por problemas de interpretação política, saíram às ruas, em verde-amarelo, com famosos refrães de “Fora Dilma. Fora, PT!” em repetição uníssona e cansativa.

Diante de tudo o que mencionei, cabe destacar que após o golpe parlamentar-jurídico-midiático para a destituição de Dilma pairavam dúvidas sobre se haveria ou não eleição em 2018, mas, ao que tudo indica, teremos, sim, novo pleito, mesmo diante do fato de uma Constituição violentada e do desrespeito aos milhões de votos do último processo eleitoral.  Ainda nesse sentido, outras indagações/preocupações surgem e, dentre elas, as mais frequentes são aquelas relacionadas ao respeito ao resultado das eleições em curso, isso, em longo prazo, pois a destituição da primeira mulher a ocupar a cadeira da Presidência da República confirma que diante de um Congresso, em sua maioria, corrupto, não há garantias de que o/a candidato/a eleito/a, caso não faça parte do jogo desonesto da corrupção, governará até o fim do mandato. Tal hipótese não é conspiratória, mas amparada nas últimas experiências políticas no país.

Elissandro Santana é professor da Faculdade Nossa Senhora de Lourdes e do Evolução Centro Educacional, membro do Grupo de Estudos da Teoria da Dependência – GETD, coordenado pela Professora Doutora Luisa Maria Nunes de Moura e Silva, revisor da Revista Latinoamérica, membro do Conselho Editorial da Revista Letrando, colunista da área socioambiental, latino-americanicista e tradutor do Portal Desacato.

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