A Criação do mundo pelas mãos do Humano-Deus

Foto: pexels

Por Guigo Ribeiro, para Desacato.info.

No primeiro dia o Humano-Deus fez luz ao criar um papel com uma regra que julgava necessária. Escreveu um breve anuncio que tornava daquele momento em diante acessível para todos os humanos o ferro que tira a vida. Queria seus filhos mais seguros. Escreveu rapidinho, bem porcamente na verdade, seus “por quês” e “pra quês” já que a ficha exigia e subiu ao sétimo andar para deixar nas mãos que colocariam o carimbo do amém. Quem recebia estava empolgado com o fato de alguém entrar em sua sala e entregar algo novo em suas mãos. Os dias eram um saco. Entregou, voltou e sentiu-se satisfeito pela primeira criação.

No segundo criou um aplicativo que indicava como estava adesão das pessoas para sua nova proposta. Enquanto ia acompanhando os números, se surpreendeu ao constatar que sua popularidade aumentava significativamente. Que os dízimos estavam triplicando e que o homem que entregava a sacola para entrega do dinheiro nas igrejas não necessitava mais fazer cara feia quando algum humano duro balançava a cabeça clamando por empatia. Este aplicativo também registrava vendas dos ferros que tiravam a vida, que eram fantásticas, e notou um alto índice de novos ricos andando por aí. Possivelmente vendedores. O Humano-Deus ficou feliz pois além de contribuir para a segurança das pessoas, contribuiu para a melhora econômica.

No terceiro dia sentiu as pessoas mais agitadas. Viu pessoas lavando seus novos carros bonitos sem camisa e com armas em suas cinturas. Elas colocavam seus ferros em cima do balcão da padaria para assim livrar as mãos e pegar a carteira. Viu anúncios, como em sites pornô, com dizeres “aumente seu ferro” e a falência das lojas de fogos de artificio. As conversas eram mais agressivas e breves. As pessoas tinham um ar mais ríspido e ansioso. Talvez não quisessem esperar a noite de natal para abrir e brincar com o brinquedo novo. Se estava ali, queriam, no mínimo, mostrar. O Humano-Deus ficou um tanto assustado, mas se convenceu que era um momento de adaptação. Leu até o horóscopo para ter um argumento que o aquietasse. Nunca que a iluminada ideia seria um fracasso.

No quarto dia acordou confiante que o dia anterior seria um engano quanto ao que parecia. Mas travou. Até deixou a água do café ferver demais e derramar. Jornais davam conta que crianças estavam pedindo cada vez mais as armas dos pais para brincarem de “polícia e ladrão”. Inclusive, relatos davam conta de que muitas foram vistas chorando em lugares públicos diante da negativa. Uma, acredite se quiser, tentou vender na internet seu vídeo game para ter sua própria arma. O Humano-Deus pensou em alterar a regra, mas lembrou que era sábado. E que terça era feriado. Portanto seria necessário aguardar mais alguns dias e fazer as devidas adequações. E que se tornaram mais urgentes quando notou que um senhor, louco para usar seu brinquedo, resolveu atirar para o alto. Dizia insistentemente que havia pago muito caro para deixar guardado. Seu vizinho gostou da ideia e fez o mesmo. Assim com muitas outras pessoas. Partilhavam da mesma indignação. Em poucos instantes era virada de ano. E virou quarta de cinzas. Alguns tiros atingiram prédios e feriram pessoas. Pessoas dos prédios que não foram feriadas começaram atirar para baixo. Tiros, tiros e tiros ao longo de todo o dia. Então Humano-Deus foi deitar com a cabeça no travesseiro. Desencanou.

No quinto dia foram apresentados incontáveis corpos nas ruas, esquinas, becos. Era um cheiro terrível de sangue, de morte e dor. As pessoas se organizavam reunindo baldes de água com sabão e se alternavam para joga-los nas ruas. Um grupo jogava e outra puxava com rodos o sangue de bala. As armas permaneciam em suas cinturas e o silêncio pairava. Camisas velhas limpavam os pisos e janelas. Tamanha a quantidade de sangue, as camisas eram torcidas e aproveitadas o quanto possível fosse. Havia também uma enorme onda de raiva. Apesar do trabalho coletivo, o que era realizado atendia somente a demanda. Não existia empatia pelo outro. Só ódio.

O sexto dia poderia ser o final. Porque de certo ponto foi. Toda tensão do dia anterior virou ação pelas mãos dos que clamavam por justiça. Neste ponto o Humano-Deus obteve êxito visto que as pessoas puderam usar suas armas para o que acreditavam ser justiça. Não se sabe bem como, mas um consenso geral tomava todas aquelas cabeças no objetivo de eliminar quem participou da brincadeira do quarto dia. Nem pensaram que também eram alvos futuramente eliminados. Os tiros começaram e por diversas formas. Algumas pessoas foram mais diretas e invadiram as casas. Outros reclamaram da demora para achar o cartão no pagamento da conta no bar. Mesmo a ausência do bom dia justificou a violência. Detalhe de extrema importância: era absolutamente impossível recorrer a qualquer ajuda de estancia superior. Todos eram pessoas comuns no exercício de sua cidadania, exercício este de cidadania legitimado pelo papel que o Humano-Deus escreveu lá no primeiro dia. Sendo pessoas comuns, não assinavam justa causa por matar alguém com a roupa do trabalho. Aproveitaram muito! Começaram atirando em quem havia atirado. Depois acharam por bem eliminar as famílias para fins de extermínio da espécie. Um filho cresceria e poderia clamar por justiça. Os que matavam, morriam. Era um ciclo de sangue. Mortes. O Humano-Deus assistia tudo aquilo. Não entendia como erara tão feio. Era pra ser segurança. Era pra ser aceito e as pessoas terem maior carinho por ele. Não daria tempo de corrigir nada. Então fez uma lista de desculpas e esquentou um chá. Não adianta ficar nervoso por coisas que não se pode controlar. Amanhã é um novo dia.

No sétimo dia fez-se natural a barbárie. Os programas sensacionalistas da tarde rendiam pontos incríveis de audiência e os fabricantes de armas agendavam entrevistas para as revistas voltadas para as personalidades mais significativas da economia. Era natural morrer e matar. As pessoas estavam mais agressivas, porém orgulhosas de autonomia conquista para sua própria segurança. A barbárie adentrou as casas, espaços públicos e religiosos. Quem outrora se opôs à adesão teve que ceder. Era tempo de sangue. Quem não se opôs amava a lógica atual. Foi assim! Foi quando outro Humanos-Deus monopolizou a venda de coletes à prova de balas. E descansou sossegado.

Guigo RibeiroGuigo Ribeiro é ator, músico e escritor.

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