A Copa do Mundo contribuiu para o aumento da desigualdade na sociedade sul-africana

Publicado em: 17/04/2014 às 07:47
A Copa do Mundo contribuiu para o aumento da desigualdade na sociedade sul-africana

Por André Antunes.*

Eddie Cottle
Eddie Cottle

No início de fevereiro, jornais da grande mídia noticiaram que a Presidência da República, preocupada com a possibilidade de que ocorram protestos durante a Copa do Mundo, em junho – e com seus eventuais reflexos nas eleições de outubro – prepara uma campanha para tentar convencer a população dos benefícios da Copa para o país. Mas é pouco provável que a campanha adote como estratégia mirar-se no exemplo da África do Sul, que sediou o evento há quatro anos. Isso porque, como afirma o sindicalista sul-africano Eddie Cottle, diretor de políticas e de campanhas para a África e Oriente Médio da Internacional dos Trabalhadores da Construção e da Madeira (BWI, na sigla em inglês), ao contrário do que foi prometido antes do evento, a Copa do Mundo foi um desastre para o país africano, acarretando um rombo bilionário nos cofres públicos, superexploração de trabalhadores e aumento da desigualdade social. Nesta entrevista, Eddie fala sobre o verdadeiro legado que a Copa de 2010 deixou para os sul-africanos, tema de seu livro South Africa’s World Cup: A Legacy For Whom? (em português, Copa do Mundo da África do Sul: legado para quem?).

O termo “legado” é usado frequentemente para justificar os altos investimentos em infraestrutura nas cidades-sede da Copa do Mundo. Qual foi o legado da Copa de 2010 para a África do Sul?

Quando o termo ‘legado’ é usado pelos Comitês das Propostas, FIFA, Comitês Organizadores Locais, autoridades governamentais e think tanks econômicos tradicionais, presume-se ser inteiramente positivo, como se os benefícios do crescimento econômico e da reordenação urbana fluíssem naturalmente para as comunidades. São mentiras deslavadas, envoltas numa retórica de desenvolvimento.

O documento da proposta da África do Sul para sediar a Copa, um documento secreto financiado por multinacionais com interesse direto nos jogos, continha cálculos falhos com base em guess-estimates [numa tradução livre, estimativas baseadas em adivinhação], que não conseguem contabilizar aumentos de custos e muito menos as receitas para o Estado e para a sociedade.

A estimativa de custo inicial foi calculada em 2,3 bilhões de randes [moeda sul-africana] a serem pagos pelo governo sul-africano, em grande parte para financiar os estádios e infraestrutura necessária. Ao mesmo tempo, projetou-se que a África do Sul iria ter um adicional de 7,2 bilhões de randes em receitas tributárias relacionadas ao evento. No entanto, em 2010 estimou-se que o custo (e é provável que seja muito mais elevado) para o governo da África do Sul foi de 39,3 bilhões de randes – um aumento de 1.709% em relação à estimativa original, uma enorme perda financeira para o país.

Após a Copa, houve silêncio total sobre as receitas fiscais do governo. A exceção foi a afirmação feita pela South African Revenue Services [a Receita Federal sul-africana] de que a Copa do Mundo nunca foi pensada como uma forma de angariar receitas. O governo sul-africano agiu como fiador da acumulação de capital para satisfazer a ganância da FIFA e seus parceiros comerciais. No fim das contas, a FIFA saiu com um lucro de 3,4 bilhões de dólares, livre de impostos, o maior da história da Copa do Mundo. Sediar a Copa do Mundo foi uma enorme perda financeira para a África do Sul.

E para as construtoras envolvidas nas obras da Copa?

Apesar da crise econômica mundial de 2008-2009, as cinco maiores empresas de construção da África do Sul se beneficiaram bastante com os projetos de infraestrutura da Copa do Mundo e tiveram um lucro médio de 100% de 2005 a 2009, depois de sofrerem perdas substanciais até 2004. A remuneração de CEOs [diretor-executivo de uma empresa ou instituição], em média, subiu mais de 200% desde 2004. A brecha salarial no setor da construção incrementou-se de 166 em 2004 para 285 em 2009. Os números mostram quantos anos um trabalhador teria que trabalhar para receber o que um CEO leva para casa num ano, em média. A Copa do Mundo contribuiu para o aumento da desigualdade na sociedade sul-africana.

Que impacto o evento teve na geração de empregos no país?

Com uma taxa de desemprego oficial de 24%, um grande exército de reserva de mão de obra (incluindo desempregados, informais, trabalhadores autônomos e migrantes) foi absorvido pelo mercado de trabalho para a produção do espetáculo esportivo e foram demitidos às vésperas do evento, contribuindo para a perda de 627 mil postos de trabalho na economia como um todo.

No setor da construção,foram contratados 1,117 milhões de trabalhadores nos setores formal e informal em 2009; 1,006 milhões estavam empregados quando começou a Copa do Mundo na África do Sul, uma perda de 110 mil empregos na construção, no período. No quarto trimestre de 2009, a taxa oficial de desemprego era de 24,3%, e em junho de 2010, tinha atingido 25,2%.

Já no setor de turismo e indústrias correlatas, houve um crescimento na contribuição para o Produto Interno Bruto nos períodos antes e depois da Copa do Mundo, passando de 67,14 milhões de randes em 2008 para 84,3 milhões de randes em 2011. Mas se compararmos o número de empregados diretamente no setor de turismo antes da Copa do Mundo, em 2008, que foi de 606.934 trabalhadores, com os três anos imediatamente anterior (2009), durante (2010) e após a Copa do Mundo (2011), vemos que o emprego foi na realidade mais baixo, apesar do aumento nos investimentos, mesmo durante o mês em que a Copa do Mundo aconteceu. Havia 52.944 trabalhadores a menos em 2009, 39.556 a menos em 2010 e 8.502 trabalhadores a menos empregados no setor turismo em 2011 do que havia em 2008. Ou seja, o efeito multiplicador de emprego projetado pela Grant Thornton (um think tank econômico internacional) desmoronou, porque, em vez de um aumento do emprego através de maiores investimentos, o que houve foi uma diminuição no emprego direto. O que isso sugere é que houve um aumento da taxa de exploração dos trabalhadores empregados nas indústrias do turismo e afins, que tiveram que trabalhar mais horas ou a um ritmo de trabalho maior – ou ambos – num contexto de aumento do fluxo de turistas para a África do Sul durante a Copa.

A Copa do Mundo na verdade é um eufemismo para o que eu tenho chamado de “complexo de acumulação esportiva da FIFA”, que encabeça a exploração das nações anfitriãs e seus trabalhadores. A FIFA dirige uma classe comercial globalizada que coloca pressões significativas sobre os produtores, que por sua vez se dedicam à repressão salarial agressiva dos trabalhadores. Na África do Sul, por exemplo, Zakumi, o mascote da Copa, foi produzido por trabalhadores chineses trabalhando em turnos de 13 horas, que receberam apenas 3 dólares por dia.

No Brasil, tivemos várias greves durante a construção de estádios para a Copa do Mundo. Isso se deu também na África do Sul?

A primeira greve registrada em uma construção da Copa do Mundo começou no Estádio Green Point, em 27 de agosto de 2007, iniciando uma onda de greves que resultou em acordos com os empregadores por todo o país. Em 8 de julho de 2009, 70 mil trabalhadores da construção civil fizeram uma greve nacional por uma semana, e isso foi sem precedentes e significativo em vários aspectos. Não só foi esta a primeira greve nacional de trabalhadores da construção civil nas obras da Copa do Mundo mas também houve uma unidade apresentada pelos trabalhadores e sindicatos em um setor composto por vários sindicatos concorrentes de três federações com bases ideológicas diferentes. Os sindicatos recrutaram 27.731 trabalhadores no período, aumentando a sindicalização em 39,4 % de 2006 para 2009.

No Brasil, de fevereiro de 2011 a abril de 2013, 25 greves foram identificadas, envolvendo cerca de 30 mil trabalhadores nos estádios da Copa do Mundo. No geral, a onda de greves foi um sucesso, uma vez que conquistou a melhoria de salários e condições de trabalho para trabalhadores da construção civil do Brasil e reforçou a confiança sindical. As conquistas, variando um pouco em diferentes locais, incluíram um aumento de 30% a 70% no vale-refeição, aumento no pagamento de horas extras entre 60% e 85% nos dias de semana e 100% nos finais de semana, subsídios de transporte, seguro de saúde e bônus. Estas greves não só foram localizadas nas obras da Copa do Mundo, mas também se espalharam para o resto do setor da construção. Em 2012, estima-se que mais de 500 mil trabalhadores entraram em greve por melhores condições de trabalho nos canteiros de obras em nível nacional.

Mas devido ao atraso nos projetos da Copa do Mundo, as empreiteiras estão pressionando os trabalhadores cada vez mais para acelerarem a produção e a entrega dos projetos. Já aconteceram vários acidentes fatais [Foram sete no total: duas mortes em São Paulo, uma em Brasília e quatro em Manaus]. O aumento da taxa de exploração através do aumento do ritmo de trabalho, acordos de horas extras e produtividade, significa que os trabalhadores terão que cumprir ainda com os prazos para entrega da infraestrutura e não receberão a remuneração completa porque, na prática, haverá uma redução no período de emprego. Enquanto isso, as empreiteiras colherão os megalucros do valor total do projeto a preços inflados, apesar de o período de produção da infraestrutura da Copa ser mais curto. No Brasil, como na África do Sul, o efeito multiplicador simplesmente falha na transformação do investimento feito em empregos criados e a redistribuição da renda, porque o enorme superávit de fundos públicos é absorvido pela destrutiva acumulação privada.

Qual é a situação atual dos estádios que foram construídos para a Copa do Mundo da África do Sul?

Como previsto, nenhum dos estádios da Copa do Mundo é autossustentável, o que significou um aumento nos impostos municipais e mais recursos do orçamento nacional foram solicitados pelos administradores dos estádios para gerenciá-los. Com isso há menos recursos disponíveis para a área social. Este é um problema sério que o Brasil vai ter de enfrentar em breve. Esse problema tem sido discutido muito na mídia e no parlamento, mas a questão da demolição de alguns dos estádios foi evitada, uma vez que seria um grande constrangimento político para o Congresso Nacional Africano, o partido no poder na África do Sul.

O governo sul-africano chegou a abrir uma investigação sobre a formação de cartéis de empresas de construção envolvidas nas obras da Copa de 2010. Qual foi o resultado dessas investigações?

Há muitas evidências de que o setor da construção está propenso a formar cartéis. O relatório de 2008 do Comitê de Concorrência da Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE) sobre o setor da construção chegou a essa conclusão. Entre os 19 países incluí-dos nesta mesa-redonda da OCDE, a África do Sul apresentou o seu relatório sobre os enormes aumentos dos estádios da Copa do Mundo de 2010, sendo que, na época, havia suspeitas de licitações fraudulentas. Em 17 de julho de 2013, no tribunal da Comissão de Concorrência da África do Sul foi apresentada uma estimativa conservadora de que as empresas de construção obtiveram “lucros indevidos” de 476 milhões de dólares com as obras para a Copa do Mundo de 2010 e outros projetos. Elas foram consequentemente multadas num total de 152 milhões de dólares. As empresas de construção que não concordaram com o acordo agora correm risco de serem processadas.

E pelo que você vem acompanhando no Brasil, há base para se abrir uma investigação sobre a formação de cartéis de construtoras para as obras da Copa 2014?

Um claro indicador de atividade de cartel são os enormes aumentos de custos em relação às estimativas originais. A fonte mais confiável para as estimativas de custos originais de cada um dos estádios é o documento da candidatura do Brasil, que não é tornado público. No entanto, uma vez que o documento da candidatura foi submetido à FIFA até 31 de julho de 2007 e a FIFA realizou sua visita de inspeção em 23 de agosto de 2007, é razoável supor que o valor de 1,1 bilhão dólares para todos os estádios que está neste relatório reflete os números originais do documento de candidatura. O relatório de inspeção da FIFA de 2007, portanto, subestimou bastante o custo para os estádios da Copa do Mundo no Brasil, que aumentou 327% até 2013, atingindo 3,6 bilhões de dólares.

O custo dos estádios de Brasília e do Rio de Janeiro mais do que duplicou desde 2010 e totalizam 1,3 bilhões de dólares. Só esses dois estádios, portanto, custam mais do que a estimativa original para todos os estádios. Ao ritmo atual de aumentos dos custos, é provável que a Copa do Mundo do Brasil seja a mais cara da historia.

Há motivos suficientes para o governo brasileiro abrir uma investigação completa sobre as operações de um cartel de construção: o Relatório do Comitê de Concorrência da OCDE, a evidência do Relatório da Comissão de Concorrência da África do Sul, especialmente em relação à Copa do Mundo da FIFA 2010, e a dramática escalada de custos dos estádios no Brasil quando comparados com o Relatório da Equipe Inspeção da FIFA em 2007.

Na sua análise, que mudanças precisam ser feitas para que a preparação para grandes eventos como a Copa do Mundo não implique os problemas que foram registrados na África do Sul e agora no Brasil?

A Copa do Mundo é o principal motor de um complexo de acumulação capitalista no esporte. Todos os principais problemas observados na preparação são resultados diretos da privatização do jogo. Qualquer mudança real só pode vir através de uma plataforma para desenvolver um modelo público ou de nacionalização do jogo a longo prazo. No curto prazo, a sociedade civil tem de fazer alianças e garantir que os trabalhadores estejam na liderança dessas lutas, pois são eles que têm sua força de trabalho explorada e suportam o peso de condições precárias e inseguras de trabalho. As lutas atuais dos brasileiros são muito bem-vindas, mas exigem níveis mais profundos de coordenação, incluindo a expansão das formas de resistência para incluir boicotes de determinados produtos ou até mesmo de jogos sempre que possível.

*Entrevista à Eddie Cottle concedida à André Antunes (Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio/Fiocruz) e publicada na Revista Poli N° 33 de março/abril de 2014

Fonte: EcoDebate

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