À Conceição, representante do Brasil

Foto: Richner Allan

Por Mayara Bergamo, para Desacato.info.

Engraçado como o tempo pode passar rápido demais para algumas coisas e tão lentamente para outras. Por exemplo, furei duas sextas-feiras aqui no portal porque estava viajando, ocupada com outros trabalhos. Distraída que sou, não vi o tempo passar e quando notei, já era terça-feira.

Por não saber o que dizer, preferi silenciar. Hoje, dentro do prazo, peço desculpas aos leitores e queria aproveitar o gancho para falar de outro momento dessa semana que ilustra bem como, em outras situações, o tempo parece estar travado.

Ontem a Academia Brasileira de Letras perdeu a chance de dar um salto (já e sempre atrasado!) no tempo, com a eleição de Conceição Evaristo para a cadeira número 07, cujo patrono é Castro Alves, poeta baiano e abolicionista. Nada mais representativo que uma mulher negra, escritora, professora e militante para ocupar esse lugar, mas a ABL preferiu a candidatura de outro homem branco, cineasta.

Li alguns textos sobre esse fato em diversos jornais e também na manifestação de amigas e amigos, brancos e negros, militantes e ativos nos movimentos sociais. Em alguns deles, o posicionamento era de que “quem perdeu foi a Academia” e eu concordo, em partes, porque não podemos deixar de considerar que quando se trata de representatividade (aliás, da falta dela) todos perdem. Mas perdem, principalmente, as pessoas que não se enxergam representadas.

Conceição vem de uma família composta de mulheres negras, faxineiras, cozinheiras e empregadas domésticas moradoras da favela Pendura Saia, em Belo Horizonte, onde, segundo a escritora, viviam na miséria. Nessa realidade, apenas um aspecto da vida da jovem Conceição era rico: essas mulheres eram detentoras de histórias e ela mesma tinha uma imaginação fértil, capaz de criar muitas outras.

Para viver a história que imaginou para si, teve que sair da cidade natal, já que não havia possibilidade de uma jovem como ela virar professora na Belo Horizonte da época – o pré-requisito para concorrer ao cargo era ter indicação.

Só por esses aspectos, Conceição representa um contingente enorme de mulheres brasileiras, de mulheres negras e também de pessoas que precisam fazer um esforço sobre humano para atingir seus objetivos de vida, dada a desigualdade social e racial do país.

A não eleição da escritora mostra a realidade brasileira: por mais que você se esforce e seja muito bom, por mais que seja extremamente capaz e tenha uma produção reconhecida em outros prêmios, existem espaços em que você provavelmente não vá entrar. E eventualmente, os motivos para essa não aceitação sejam a cor da sua pele, o seu gênero, a sua orientação sexual ou a sua história de vida, especialmente se você for negrx e pobre.

A pouca presença de mulheres e a inexistência de mulheres negras na ABL deveria ferir de morte os “imortais”. Deveria ferir de morte a todas e a todos nós, em qualquer instância, sempre. Não ter indivíduos que representam parte significativa da população é dar voz a quem já tem muita voz. É conceder o poder de sufocar vidas e narrativas, de sufocar escrevivências, como diz Conceição Evaristo. E vemos isso nitidamente em outros campos, como na política.

Em outubro próximo teremos outra eleição, dessa vez, aberta aos mortais e aos que morrem às pencas, aos invisíveis e aos não representadxs, na qual poderemos participar ativamente para dar vez e voz aos nossos semelhantes.

Que eles tenham a vitória!

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Mayara Bergamo é fotógrafa e jornalista apaixonada pela cultura popular brasileira e pelo tripé literário formado por Gabriel García Márquez, Eduardo Galeano e Pablo Neruda.

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