A compreensão da violência como marca cultural, através da vida e obra de Jorge Amado

Coronéis do cacau de Ilhéus, Bahia. Foto: Reprodução/Blog Cinzas e Diamantes

Por Saulo Carneiro, para Desacato.info.

É fevereiro de 2019, a mensagem é transmitida do lugar que foi nominado por um dos personagens de Jorge Amado como “o cu do mundo”, pois é de cá mesmo que escrevo. O livro é da década de 70, escrito por meu conterrâneo durante os tempos em que viveu exilado no Uruguai. Fugindo de uma ditadura militar que impôs um regime de torturas e censuras a todas as formas de informação, aí, também se incluem os romances, e Jorge, como bom comunista que era, não teve opção a não ser bater as asas da terra brasilis.

O paralelo é necessário, pois a realidade de onde o menino grapiúna nasceu, não se alterou muito. Vamos lá, as matas que ainda restam, ainda são verdes e servem de refúgio para os animais que não foram extintos. Apesar disso, restam apenas fragmentos da vistosa mata atlântica do tempo das terras devolutas, onde era só chegar e ocupar. – O que lembra bastante um tal movimento que tá por aí hoje em dia, uns terroristas vermelhos – Terras abertas a facão por gente de Sergipe, Alagos, Ceará e até dos Orientes Médios. 

Com uma parte da mata e os índios no chão, plantou-se o cacau, adubado com sangue de todos os tipos; o+, o-, a+ e a-, sangue de homem, mulher e criança, sem contar índio e preto, que nunca foram gente para os “grandes conquistadores”, “pais do progresso e do desenvolvimento”, exceto aqueles que através da ascensão social passaram a ser tolerados. É preciso lembrar dos índios, dos grandes e vistosos aimorés, valentes guerreiros responsáveis pela derrocada da capitania de São Jorge dos Ilhéus, valentes guerreiros que resistiram aos portugueses, Tupã-Cavalo, com suas armas que soltavam raios, mas não resistiram ao cacau, e foram dizimados. O etnocídio, serviu de subproduto para adubar os cacaueiros da região. As ossadas estão espalhadas por todo o país grapiúna, e talvez um dia, hão de se tornar petróleo e consolidar a fama da “rica região do cacau”.

É impossível não narrar as histórias de tabunas, tabocas, tabocal, pedra-preta, sem falar de Jorge, sem falar dos que aqui viveram antes dele, sem falar dos que foram esquecidos, do passado omitido e apagado intencionalmente. O dito “progresso” desta terra grapiúna teve custos, custos como qualquer projeto desenvolvimentista. Quantas vidas valem um pé de cacau? Essa pergunta Jorge não fez, nem respondeu. E é muito difícil responder, a variável é grande. Primeiro, é preciso saber a quem pertence o pé de cacau, onde ele está, quantos outros pés tem em volta dele e quantos mais podem haver. “Terra de dinheiro, muito dinheiro seu moço… Para quem trabalha, não falta dinheiro”, era o que se dizia, a terra onde trabalhando, qualquer um ficaria rico.

A riqueza rápida tem consequências, exige atitudes extremas, e no país grapiúna não foi diferente, não é diferente… As sequelas do passado ainda ressoam na terra de Jorge, que preferira Ilhéus, depois Salvador, depois o resto do mundo, que não fosse o Brasil. O Brasil maltrata demais, bate demais, depois beija, puxa para dançar, toca um samba, põe uma moqueca na mesa, e depois surra de novo. Haja banho de mar… Nem ele aguentou, teve que zarpar, falar sobre aqui, estando lá.

Jorge, até hoje não é muito bem quisto por essas bandas, tem má fama, é malvisto, “mais um comunista safado”. Ele futucou feridas infeccionadas, mexeu em vespeiros carregados, “buliu” em um orgulho erigido sob mentiras. E eu de cá, tempos “despois” do tal menino, outro menino, confesso o medo, medo que todo menino todo menino carrega no peito, sem saber o que será do futuro, fruto da imprevisibilidade que é tão previsível. Falar disso é complicado, se é que o leitor me entende, bulir nas feridas exige coragem, e também certo tino nas canelas para correr ou se esconder. Haja vista, que os tempos não são muito diferentes, a exceção se dá por não termos tanques nas ruas, nem órgãos censores. A tropa agora é outra, seu menino. A responsabilidade foi transferida, a censura passou a ocupar um novo lugar, saiu da institucionalidade e foi transferida para primeira pessoa, para o coletivo de censores que dita o que é ou não é válido, o que é ou não verdade. Apesar, da verdade depender de qual jornal se lê, e do dono do jornal e de suas filiações políticas, a verdade e a mentira, assim como a história, são fabricadas de acordo com o desejo do patrão, sob medida, do tamanho pedido.

A história é relativizada, e aquela fogueira, feita com livros na praça da Sé, incluso aí Capitães da Areia do velho menino, na verdade, tinha como objetivo atender uma outra função social dos livros, a intenção era aquecer os pobres que passavam frio no inverno baiano. Exílio de Jorge Amado? Nunca existiu! Todos em tabunas sabem que Jorge Amado sempre foi um playboy que gostava de ostentar, viajar o mundo afora contando mentiras, suas grandes mentiras e disparates. Ora, veja! Um moleque… Como diz a boa e velha história, a história dos que mandavam, nunca houve coronéis por essas bandas, conto para enganar bobo! Por aqui?! Por aqui, sempre houve empresários, empreendedores, produtores, que como em todo mercado, o disputavam. O pai de Jorge não escapou, empresário forte, sofreu um “acidente” na porta de casa, devido a uma discussão sobre território, coisa boba e muito comum na região, resolvida como mandam os princípios da civilidade grapiúna, na bala. Foi bem ali, virando a esquina, dobrando no cu do mundo. Na praça do cu, de fronte a Igreja da Matriz de Nossa Senhora do Cu do mundo, Jorge, teve de arrastar o pai para dentro de casa. Depois desse dia, disse a família que não ficava, que aqui não era terra de gente. Foi-se embora, viver em Ilheús, sob o barulho e brisa do mar…

Todo esse arrodeio, é para falar do hoje, do aqui, do agora. Mas não tem como falar do agora, sem falar do antes primeiro. E ninguém falou melhor do antes do que Jorge. O cu do mundo, continua sendo o cu… Entrincheirado de pentelhos com botocas de merda ao redor. Mas algo mudou, não se vê mais coronéis como antes. Não, não é que não existam, estão por aí, ocupando o prédio do Centro Administrativo Firmino Alves, aqui no cu, os prédios levam os nomes deles, estão em todos os lugares, nas urnas, na coleta de lixo, nas emissoras de TV, no shopping center, na picanha, no leite, no chocolate, no busão. Ave Maria, ainda parece que é ontem…

Talvez seja, nessa terra brasilis, onde parece que nada mudou, o hoje confunde-se com o ontem. E o que Jorge escreveu ontem, parece ter como destino, o hoje. Ficaram as sequelas, com a bruxinha montada na vassoura, o tempo parou, o dinheiro para acender charutos acabou, a desigualdade, que naquele tempo já era grande, aumentou, e não teve mais farelo do bolo para as castas serviçais, os coronéis partiram para outros negócios, por suposto aqueles que não faliram, se mataram ou fugiram. O povo partiu da roça, levando uma trouxa na cabeça, um saco com dois vinténs e uma jaca a tira colo, que diga-se de passagem, sempre foi a comida do povo mais pobre, pois era achada com muita facilidade, antes mesmo da tal gourmetização já se comia moqueca de jaca por essas bandas, na verdade, comia-se jaca de tudo quanto é jeito, porque muitas vezes era o que se tinha para comer. Com isso, na rica região que chegou a sustentar uma parte do PIB brasileiro, restou pobreza, cinturões de pobreza formados pelo êxodo rural, pelo caxixe de terras de pequenos produtores, pela exploração de escravos que eram tidos como trabalhadores, mas se viam compelidos a deixar todo o seu salário no armazém das fazendas, pagando o dobro por um quilo de feijão, tendo que morar debaixo de barcaças, que era também seu local de trabalho. As sequelas de tudo isso estão aí, resultaram em uma cultura que teve como alicerce a violência física, financeira e sexual. Aqui, manda ainda, quem tem mais, não só manda, impõe, e aí de quem não obedecer! Aqui, a violência é pressuposto intrínseco da existência de alguns, é o que se vê do nascer ao morrer, se cresce de frente para o crime, o bar é a principal atração cultural da cidade. Na maioria das vezes, se bebe para esquecer onde se vive.

Deixando de lado os atropelamentos históricos, as ironias que são bem mais que necessárias, toda história de Itabuna, que Jorge chamou de “o cu do mundo” em Terras do Sem Fim, e eu chamo de peixe de pedra?—?pegando emprestado do querido e admirado Xico Sá?—?, sem querer ser repetitivo, e já sendo, a história daqui parece estar aprisionada em um eterno ciclo de exploração e violência, violências… De todo tipo; estupros, assassinatos, sequestros, extorsões, golpes, agressões e ameaças. Tudo isso, parece ser muito intrínseco a história de Itabuna. A violência que sempre nos assolou, e que hoje apavora a classe média, trancada em seus condomínios, sempre existiu, sempre esteve aí, e enquanto não encararmos nosso passado violento, enquanto não reconhecermos o nosso presente violento, o ciclo se perpetuará, é preciso haver reconhecimento, apontamento e desligamento. Contudo, antes, é preciso mostrar que a violência é o pressuposto básico para facilitar e garantir a manutenção da exploração de um povo, povo que de geração em geração, naturalizou tal violência, e incorporou as violências cotidianas e históricas as suas práticas, a sua cultura. Se não reconhecermos essa violência que é intrínseca a existência do povo grapiúna, viraremos fóssil. – Alguns já viraram…- Caso isto não seja feito, estamos condenados a viver submissos sob a égide de coronéis violentadores e usurpadores que só mudam de coleira, que são filhos dos que já foram, mas que matam e torturam da mesma maneira, que arrancam o couro das costas de um ser humano por puro prazer, por mera alimentação do ego, para auto afirmar o poder, para se saciar da impunidade. Se nada for feito, seguiremos repetindo um passado que parece ser presente.

Hoje, mais do que nunca, é preciso ler Jorge, falar de Jorge e do que ele escreveu. Reconhecer Jorge, e abraçar sua obra como nossa, fruto da nossa realidade, e não mais rechaça-lo. Não mais, atirar pedras e balas em sua estátua, mas sim abraça-lo, como bom e grande grapiúna que foi! A antipatia deve ser direcionada aos que sempre exploraram, aos que continuam explorando, com suas fazendas abarrotadas de escravos, libertos não mais pela lei áurea, mas sim pelo ministério público do trabalho, de suas mãos sujas de sangue de jornalistas, do para-choque do carro lambuzado com os miolos de mais um comunista. É hora de refazer essa fazenda, é hora de olhar para trás e reconhecer tudo de ruim na nossa história, para que não mais vivamos repetindo o passado no presente.

Saulo Carneiro é estudante de interdisciplinar em humanidades na Universidade Federal do Sul da Bahia e membro do Conselho Municipal de Cultura.

Itabuna, 05 de fevereiro de 2019.

A opinião do autor/a não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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