A Bolha e a Ostra

Por Désceo Machado, para Desacato.info.

– Tchau amor, estou indo pra Curitiba, consegui uma carona, tenho que sair já, vamos pegar o ônibus no terminal velho.

– Como assim, o que você vai fazer em Curitiba? Impedir que Lula seja preso?

– Não sei bem o que vamos fazer, estou angustiado, preciso fazer algo, o encontro já vale, juntamos o pessoal da universidade e o sindicato, vai todo mundo.

– Mas vocês se encontram toda semana, que diferença faz? Larga esse celular e olha pra mim.

– Tá, e você acha que vai me impedir, eu vou e pronto.

– Mas pelo menos me diz qual é o objetivo de vocês lá em Curitiba. As manifestações tão engrossando ou são os mesmos? Já não bateu o teto de manifestações no evento em que Lula falou? Vocês querem chamar atenção, atenção de quem? É essa a melhor forma? Me escuta, vocês não sabem fazer outra coisa da não ser balançar bandeira e apanhar da polícia?

– Não sei, não sei, fique você com suas dúvidas de intelectual que eu vou pra ação. Agora eu quero ver quem é de fé! E não adianta balançar a cabeça. A gente sabe fazer muita coisa. Governar um pouco pro povo, a ponto de incomodar a oligarquia, já tem general fazendo ameaças no tuíter.

– Sérgio, escute, sai da bolha Sérgio. Essas manifestações tão parecendo encontro de igreja, sempre os mesmos. Vocês tem que se preocupar em engrossar o caldo. Existe alguma indicação de que as manifestações estão crescendo? Olha que eu jogo esse celular pela janela.

– Rute, eu sei que você está preocupada, mas precisamos fazer alguma coisa. Pense você em uma estratégia e execute por sua conta. Uma ação não impede outras, não me venha com esse vício de intelectual frustrado, ficar deslegitimando qualquer ação. E outra coisa, você sabe muito bem que as manifestações são fundamentais, só acabou a ditadura por conta das Diretas já, da mobilização popular.

– Eu sei, os milicos ficaram cagados porque a mobilização pelas diretas era grande e estava crescendo. Mas eles também não perderam nada, a economia e administração estavam um caos, eles ficaram com todos os poderes e os privilégios, cuidando por cima. Falo isso porque fico pasma com esse isolamento. Ontem na escola vi o Caio e a Lôre fazendo piada da prisão de Lula, a Jéssica saiu batendo a porta da sala dos professores. É preciso uma estratégia para rompermos a bolha. Também estou angustiada. No face só se lê: excluí cinco, excluí dez. Adianta?

– Bom te ouvir, mas o Flávio tá passando aqui em cinco minutos.

– Isso, daqui a pouco a gente tá que nem os palestinos jogando pedra em tanque, apelando pra compaixão internacional. Amor, deixa alguns dias passarem, é certo que o PT ou o Brasil sem medo ou a frente Brasil popular vão organizar programações bacanas de debate, cinema, shows, atos. Daí sim vamos juntos. Agora precisamos pensar juntos. Vamos convidar os guris pra virem aqui em casa, pra fazer uma conversa pra sair da bolha.

– Chega de conversa amor, prenderam o Lula, cara! Você entende isso? Vamos lá prestar nossa solidariedade.

– E se fizéssemos como o movimento pacifista indiano, usássemos o branco e oferecêssemos nossos corpos pra polícia bater, poderíamos organizar um grupo de enfermeiros. Chegamos de branco, em fila, nos direcionamos para a PF e vamos apanhando um de cada vez, pimenta na cara, tiro de borracha no olho. Filmamos tudo e transmitimos ao vivo pelo face. Não sei. Quero conversar com o Jonas, o porteiro, acho que ele é bolsonarista, senti que hoje perdi a chance de falar com o motorista do uber. Preciso fazer algo. Acho que vou com vc.

– Oi?

– Eu vou junto pra Curitiba, vamos conversando no ônibus. Tem lugar pra mim né? Hein, Sr. Celular.

– Boa Rute! Vamos embora!

Thiago de Castilho SoaresDésceo Machado é repórter em Florianópolis.

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